segunda-feira, 10 de novembro de 2014

(V)ida – Por Betina Pilch

(pode ser lido ao som de "A Thousand Years" - 

Há alguém aí? Por favor... Alguém pode me ouvir?
Minhas lágrimas também possuem voz. Será que alguém por aí consegue interpretá-las?
Está doendo tanto... Será que alguém sabe como fazer parar de doer?

"Socorro! Alguém me ajude!" É tudo que consigo sussurrar em meio aos soluços, tremores e espasmos da minha alma cansada de lutar para se manter viva. Mas não há alguém. Nem nunca haverá. Ninguém aparece para responder a minha prece. Estou sozinha. Com medo. Apavorada... E despedaçada também. Minhas asas foram cortadas, já não consigo mais voar. Meu coração está quebrado, inibido de amar. 

Para onde mandam as pessoas que já não servem pra mais nada? Deve haver algum lugar para o qual fui destinada, porque até agora nunca me senti em casa. Talvez eu não pertença a lugar nenhum... Mas, então por que me jogaram nesse mundo sabendo que eu iria ficar perdida, me sentindo um imenso nada?

Perdida, partida, ferida. Onde tem ida sempre dói.  
Tem sido difícil, quase impossível viver. Até a vida tem ida, deve ser por isso que ela é tão dolorida. Não é a toa que viver rima com sofrer.

Quão alto eu preciso gritar para que ouçam meu apelo e me tirem daqui? Minha alma já não brada o bastante? O mundo está surdo ou indiferente a minha dor?
Já não cabem mais cicatrizes em mim, então, por favor, eu imploro, me carreguem para o fim. Eu só quero que isso acabe. É pedir demais?

Já não há mais cor em minha face, porque as lágrimas apagaram qualquer vestígio do que foi pintado aqui um dia. Só me resta minha eterna palidez cadavérica que me remete a morte todas as vezes que encaro o espelho e sou obrigada a lembrar quem eu sou: um amontoado de tudo aquilo que se transmutou em nada.

Não aguento mais. Estou esgotada. E a cada arcada da vida para a marcha fúnebre ser tocada eu me sinto aniquilada e não há orquestra que consiga fazer um concerto em mim.

A verdade é que já morri faz tempo e não haverá ressurreição. Fiz do meu eu um eterno caixão de sentimentos mortos e me enterrei no triste velório que vida armou pra mim. E agora os fantasmas daquilo que eu já fui um dia olham para a menina que se foi e choram, porque nunca houve despedida e, mesmo assim, a partida aconteceu.
Enfim eu percebo que não há mais volta para quem deu as costas para vida, porque o oposto dela é a morte e quem se vira para fugir das feridas, na verdade, já morreu.
                                                                                            

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Angústia lapidada – Por Betina Pilch


Há tantas palavras que evito escrever. Tantos sentimentos que tento esconder. Mas, existem momentos na vida em que é necessário se livrar dos acúmulos, ainda mais quando eles machucam.
É tão difícil escrever sobre algo que não sei explicar... Eu acabo me perdendo em nós embaraçados que se desatados podem fazer o pêndulo que bate aqui dentro do meu peito se espatifar no chão.
As memórias que você plantou aqui germinaram em forma de botões que ocasionam giros mentais e eu estou ficando completamente tonta de tanto rodear nossas lembranças.
Você me fez compreender que meu coração precisa de confusão pra bater. Então, por favor, entenda que te preciso, assim mesmo, indeciso pra transformar o que é conciso em infinito.
De partida já basta minh'alma rachada por se debater contra o meu corpo na esperança de conseguir se libertar. Então, querido, não se vá.
Você não está indo embora, porque nunca chegou de verdade. Mas está se afastando, deixando aqui apenas fantasias distantes da realidade.
O pêndulo está por um fio para não arrebentar e, caso ele caia, meu coração nunca mais vai voltar a compor melodias e, não importa quantos dias passem, ele não voltará a amar.
Então continue perto de mim. Mesmo obstante, não arrebente aquilo que aviva cada instante meu. Não me jogue num breu com ecos de adeus...
Ah..
Oh, não! Por que eu fui lamentar esse pesar com um suspiro?
Meu peito subiu e o pêndulo caiu.
Sim, o pêndulo se soltou e abraçou esse chão que, de tão liso, me fez escorregar em meus próprios sentimentos quebrados.
Caí em cima do sofrimento e os cacos me perfuraram inteira. A angústia, então, começou no estômago, subiu pro peito, ficou presa na garganta e, por fim, se instalou em meus olhos que, agora, se encontram cansados e desesperados por não conseguirem cegar as imagens insuportáveis e doloridas da verdade, nem mesmo quando se escondem sob a escuridão de pálpebras fechadas.
Está tudo aqui, sob meu corpo.
Tudo que escondi dentro do pêndulo que se jogava de um lado pro outro fazendo o som das batidas do meu coração, agora, se encontra aqui, feito cacos no chão. Oh não...
Em mim só há vontade de chorar, gritar até o corpo esmorecer.
Sou refém de mim mesma e não sei se me livro ou me mato após me render.
Quão escuro era o que eu camuflava com falsas camadas de luz aqui dentro de mim. Quantos fins eu fingi que não vi. Quantas ilusões inventei para fugir.
Engulo meu choro e caio no sono a espera de acordar sem essas imagens em minha mente tentando me assombrar. Porém, não há mais despertar para quem cometeu o desastre de quebrar a fonte que fazia o seu eu sentir. E junto com os cadáveres mudos dos sentimentos que já gritaram um dia, me velo arrependida no sepulcro da vida.
Você permanece inteiro, bem perto do meu enterro de mim. E eu pasma percebo que você nunca foi meu começo, que eu nunca dependi de ninguém para me dar um fim.
Me criei, desenvolvi e finalizei. Inventei minhas fugas e a lugar nenhum me destinei.

Hoje eu me encontro aqui, enterrada em mim. E você permanece aí, como sempre, livre de tudo, inclusive de si.
                                                                                                    

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

(Vag)ando sem rumo


As mechas de luz solar dançam lá fora e deixam rastros aqui dentro de mim. O cheiro de grama cortada exalando no ar me transporta para um tempo que me faz bem e que eu tampouco sei se realmente vivi.
A trilha sonora que escolhi para esse momento deixa meu coração inquieto e, diante de tudo isso, eu sinto uma alegria angustiante que acelera meu coração, balança minha mente, estica meus lábios e pesa em meus olhos.
Sinto que esses detalhes me levam pra perto de mim. Me lembram de um eu que conheço bem, mas não reconheço como parte da minha vida.

Então, o que sou? Onde foi que me perdi? Se é que me perdi... Talvez eu nunca tenha encontrado o sentido, de fato. E pior, talvez eu nunca tenha sentido...
Balanço minha cabeça negativamente tentando espantar essas indagações e conclusões hipotéticas que me torturam, mas elas apenas se espalham se tornando ainda mais confusas.

A alegria, de repente, se apaga. Acende o medo. Cresce a dor.
Eu costumava dizer que minha mente era cinza devido as lembranças que se apagaram e que meu coração era colorido, porque as cores do amor nunca desbotavam. Mas a verdade é que meu coração só possui o vermelho escarlate do sangue que bombeia e o arco-íris ridículo cheio de cores que não ornam é pintado por minha mente que insiste em fantasiar o azul gélido inerente a minha alma - eu tampouco posso ser cinza, porque nunca conheci a dor de ser incendiada por uma chama.

O azul gélido, de súbito, começa a derreter, espalhando gotículas por minha face perdida em uma expressão de horror ao se deparar com seu reflexo descrito nas palavras que vê sendo construídas bem a sua frente.

Céus! Preferia que só o seu azul fizesse parte dessa aquarela esquizofrênica da minha vida. E quem me dera meu arco-íris fosse tão real quanto o seu... Mas a minha imensidão não passa de uma ilusão fajuta que agora sofre uma metamorfose horrível que eu preferia não ter que encarar.

Olho para dentro de mim e vejo apenas amores de papel rasgados pela realidade que nunca soube escrever.
Eu nunca amei com o coração, talvez eu nem saiba para que serve esse órgão que pulsa dentro de mim. Sempre inventei os sentimentos com a razão criativa que foi-me dada. E, com dor na alma, agora escrevo sobre as outras tantas palavras que já escrevi. Porque eu cansei de ser assim, tão teórica. Romancista de palavras quentes e coração frio.
Cansei da ausência de cores no meu mundo real. Cansei dessa traição a poesia que sempre me foi tão leal. Cansei, cansei, cansei...
E agora caminho por essa estrada, deixando para trás meu livro cheio de nada, a espera de encontrar nessa caminhada algo que me ensine a viver pela primeira vez.
                                                                                                                   - Betina Pilch.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Das breves poesias da vida – Por Betina Pilch


Certa tarde, dessas cheias de luz, eu vi a poesia voar, carregada por pássaros e  
borboletas azuis. Seu voo era conduzido por melodias cheias de rimas e as mensagens repletas de sinas faziam eu me sentir andaluz.

Meu coração, que era feito alabastro, foi marcado por rastros de um amor.
Um sentimento diferente, um pouco incoerente, que de forma inerente se entrelaçou com a cor... que voou por ali. 

Colibri... Era o pássaro que marcava o compasso da literatura cheia de ternura que por ali dançou. E de dentro pra fora, sem pretensão de hora, o meu eu de mim desabrochou.
                                                                                  

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pro-lixo – Por Betina Pilch

As primeiras horas da manhã anunciavam um colorido dilucular que malaxava todo e qualquer coração. Cada cor narrava o paroxismo dos amores perenes, cada flor adornava o jardim dos sentimentos solenes e a vida incitava o mundo a recitar poesia em cada minudência, causando instantes de ardência na alma que acolhesse os poemas que a natureza ousava recitar.

(Acalento em meio ao tormento pesar do pensar. Distração que entibiava a constrição da alma causada pelas chamas de uma paixão em ascensão).

Mas, em minha pérfida lucidez, vazios anidridos faziam morada. E a poesia, quase calada, sussurrava para o nada que gritava, tentando melodiar os brados ensurdecedores que orquestravam dores desafinadas. Em meio a essa vazia sinfonia, presenciei a mortificação incauta do sentido da vida. E, destarte, entre uma lacuna e outra fui sendo aniquilada pelo nada que inundava os poros da minha existência frívola.

O que é a vida se não essas mortes disfarçadas de ínfimas anestesias?                                           
O que é a morte se não a queda das esdrúxulas máscaras que usamos para camuflar a pútrida caveira que somos?                                                                                                                            
(Só sei que não sei nada sobre tudo, porque estou sob um nada ofuscada pelo escuro).

Desfaleci sob as tênues linhas do viver e sobreviver.                                                                           
Cobri a vida ao invés de ser coberta por ela, vivi com cortinas sobre janelas abertas. Fiquei enclausurada pelas ciladas que eu mesma criei. Até deixei cinza o laranjado astro rei.               
As mechas bruxuleantes da vida hesitaram em se apagar, mas na involução da chama à faísca, as labaredas do encanto resolveram se ocultar.

(Prolixei a vida e pro lixo irei, pintei tudo de cinza e com as cinzas me batizarei).

Me acorde quando setembro findar, porque a primavera acabou de chegar, mas as cores desbotaram dentro de mim. E já não há recomeço, nem meio ou belo desfecho diante do fim que escolhi esculpir aqui.
                                                                                                      

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Despertar – Por Betina Pilch

Foi numa daquelas manhãs nada propícias à vida que eu acordei. Mas não foi um acordar de abrir os olhos, foi um acordar de abrir a alma e enxergar o mundo que, durante tanto tempo, eu ocultei.
Acho que todo mundo, vez ou outra, se perde nesse labirinto que é a vida. Mas ao acordar eu percebi que cabia só a mim escolher se queria ficar parada, perdida, ou continuar caminhando até encontrar a saída. Então eu resolvi levantar, caminhar, viver... Porque ficar inerte nada mais é do que uma maneira de enterrar os caminhos que nos são dados para não sermos obrigados a caminhar por eles - e eu estava completamente disposta a desenterrar e conhecer esses caminhos dessa vez.
Coloquei aquela música em inglês que eu nunca li a tradução, porque o importante era que eu gostava da batida, e ri ao perceber que algumas coisas não precisam ser descobertas completamente para serem apreciadas. A música não estava em sincronia comigo, ela tinha uma batida alegre, porém pausada, e meu coração estava completamente acelerado e eufórico. Não, a música não tinha nada a ver comigo, ainda bem. Porque quando uma música veste bem em alguém quer dizer que a vida não está muito fácil. Então eu resolvi descomplicar tudo e comecei a cantar a tal música de um jeito totalmente errado e ri do meu inglês fajuto inventado. Comecei a pular e desafinar e melodiar a vida que estava silenciosa há dias, abri a porta do meu quarto e saí saltitando pelo corredor. Parei diante da porta da cozinha e com um andar totalmente confiante caminhei até a garagem e, por fim, até o portão. 
A manhã estava cinza e fria, dessas que sussurram pedindo para ficarmos na cama até o sol resolver dar sinal de vida. Mas eu calei a manhã, abracei os sinais de morte cinza e gritei que iria colorir o mundo com a aquarela que descobri dentro de mim. 
Saí rindo totalmente sem rumo e pouco me importando com isso - porque ficar sem direção quando estamos presos é horrível, mas ficar sem direção quando somos livres é a melhor sensação. 
A vida é feitas de escolhas. Alguns escolhem viver, outros morrer ou apenas sobreviver. Eu escolhi viver, porque finalmente enxerguei que a vida é viva - de tanto me prender nas estrelinhas esqueci de perceber o óbvio. Descobri que cobrir a vida com detalhes mórbidos é um ato de covardia, porque morrer é tão fácil, mas viver, ah! Viver sim exige de nós muita coragem.
Caminhamos nesse meio-fio-do-mundo-nosso, entre linhas tênues bambas que nos fazem temer e tremer, mas percebi que olhar para o chão não é a melhor visão a se encarar. Há uma imensidão acima de mim e finalmente descobri que posso alcançá-la - basta eu abrir minhas asas e libertar meus pés dos grilhões que eu mesma criei.
Então saí por aí, por ali, acolá, cá e me perdi na minha própria liberdade. E não estou preocupada, porque agora sou livre para encontrar muitas saídas, entradas, janelas abertas, portas trancadas, e abraçar a vida que eu tanto ignorei. 
                                                                                                           

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Uma taça de vinho tingida de solidão – Por Betina Pilch


Resolvi tirar a madrugada de saudade. Saudade de você, saudade daquilo que nunca existiu, saudade de nós que nunca atamos. Então ouço aquela música que sempre me leva pra perto da gente que vive tão longe e tinjo meus lábios de roxo com um vinho tinto que me embriaga levemente.
Você está no quarto ao lado e eu permaneço aqui na calçada da sua solidão a espera de que você abra a porta para eu entrar. Espera frustrada. Você permanece aí e eu aqui, ambos bailando abraçados com a solidão que nos entorpece e nos domina por inteiro.
Você dança tão silenciosamente que mal consigo te ouvir. Sempre tão sutil e discreto - penso enquanto encho minha taça pela segunda vez. E então faço da solidão uma piada e começo a rir ironicamente, porque infelizmente ela não tem a mínima graça. 
Saboreio mais alguns goles dessa tinta roxa e penso que sua boca quente combina bem mais com os meus lábios do que essa taça de vidro fria. Meu batom manchando sua boca seria muito melhor do que esse roxo pintando meus lábios, mas infelizmente são as cores que nos escolhem e não nós que escolhemos as cores. 
Então fortifico a única cor que foi-me dada em meio a essa madrugada fria e na terceira taça de vinho a solidão não só dança comigo como também canta em meus ouvidos uma melodia tão triste que me obriga a chorar - e o meu vinho que era seco, agora é molhado pelas lágrimas que suavemente escorrem pela minha face antes maquiada pra você. 
Lentamente observo tudo se esvaziar: a garrafa de vinho, minha taça e minha alma agora derramada sobre tudo aquilo que esvaziei. Então olho para o fundo da taça levemente tingida de roxo, semelhante aos meus lábios, e suspiro ao encontrar o vazio ali dentro me esperando - me esvaziei dos vazios e eles continuam transbordando. Então bebo essa solidão que agora está desafinada demais para continuar cantando em meus ouvidos e, a goles sôfregos, dou um fim nela. Me sinto completamente embriagada - e ainda assim ciente de que no dia seguinte a ressaca será eterna. Porque no fim estou sempre só - só comigo. Sozinha. Sem você.
                                                                                                        

sábado, 19 de julho de 2014

Sonhos no frio de um inverno – Por Betina Pilch


"Por favor, não me deixe ir, porque, se eu for, temo nunca mais voltar." - eu dizia desesperadamente olhando em seus olhos que transbordavam medo.
Era noite de lua cheia, uma noite incrivelmente clara e estávamos em um lugar sombrio indecifrável. Você segurava uma vela vermelha enquanto muitos incensos eram acesos e no meio desse cenário eu me sentia completamente perdida e fraca. Enquanto eu aparentava fragilidade, você agia com bravura, estava destemido, como se tudo aquilo fosse natural. Mas quando minhas energias foram sugadas e eu estava prestes a cair, sua postura mudou completamente. Eu pronunciava aquelas palavras em tom de súplica e via seu olhar sendo tomado pelo sentimento de impotência, era como se você não pudesse me livrar do que estava acontecendo - talvez eu estivesse sendo condenada por mim mesma e nesse caso só eu poderia me salvar, não sei. O fato é que eu sentia a morte me atraindo para perto dela e seu rosto, de repente, nada mais era do que um doce borrão. Eu já estava me entregando às sombras que dilaceravam a luz quando, de súbito, senti um sopro de vida me resgatar - era você me abraçando fortemente pela cintura e sussurrando em meu ouvido que não ia me deixar. Nunca deixaria - você enfatizou por três vezes consecutivas. E, incrivelmente, isso não me surpreendeu. Era como se eu já soubesse que isso ia acontecer. Dentro de mim eu possuía a certeza de que você me resgataria dos braços da escuridão e faria eu retornar à luz que sempre pertenci.
Vida e morte. Luz e trevas. Coragem e medo. 
Você iluminou minha vida e corajosamente me livrou da condenação. Consigo lembrar nitidamente de como você me fez sentir segura enquanto sustentava toda a minha fraqueza em seu corpo forte e trêmulo e, mesmo fraca, tudo que eu queria era te deixar ciente da minha gratidão.
Eu estava completamente debilitada quando você me deitou sobre um banco de madeira e acomodou minhas pernas em seu colo. Você olhava para mim com seus olhos cheios de preocupação e me dava um sorriso cheio de tranquilidade - e esse foi o momento em que mais amei suas contradições. Mesmo sem proferir nenhuma palavra, eu sabia que você estava ali para cuidar de mim e, como se estivesse lendo meus pensamentos, você ousou dizer "para sempre".
Sua aura não estava mais cinza, encoberta por nuvens e névoa que me impediam de te decifrar. Sua aura estava verde, forte, se atrevendo a mostrar sua completude em meio a toda essa confusão.
E então eu acordei. Acordei com meu coração repleto de paz, porque, de certa forma, nossas almas se encontraram essa noite. E você me salvou. Me salvou de mim mesma e dos meus vazios mais uma vez.
                                                                                                           

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Carta aos cuidados da chuva – Por Betina Pilch


Querido Sam, 
Está chovendo lá fora e eu me pergunto como você está. É provável que você esteja sendo um dos você apropriado para o momento, afinal você tem uma máscara certa para cada ocasião. Ou talvez você não esteja preocupado com isso e, nesse momento, só haja um Sam perdido em seus próprios devaneios, imerso em sua aura cinza que vive nublada para que ninguém consiga enxergar o que realmente há nela. 
Ah, menino mistério, você me confunde tanto...
Estou escrevendo essa carta, porque assim como você se esconde atrás das máscaras, eu me escondo por trás das palavras e nas entrelinhas vou me despejando. Ambos temos nossa maneira de fugir da vida, talvez. Mas o fato é que tenho esperanças de que um dia essas palavras cheguem até você e finalmente eu me livre desse segredo que me tortura há mais de um ano, porque está cada vez mais insuportável esconder o que eu sinto.
Meu coração é feito de fragmentos que tentam se juntar para transformar toda essa fração em um número inteiro e, apesar de toda essa matemática, ele jura que é poesia. Não sei como é possível acreditar em algo que venha do meio de toda essa confusão, mas meu coração jura que te ama. Talvez ele esteja embriagado de paixão e por isso fica bradando essas coisas malucas no compasso de cada pulsar, mas o fato é que ele não me deixa esquecer o que sente. Aí toda vez que eu olho pra você eu lembro dele dizendo que te ama e que você é o único que pode ajudar ele a se restaurar de vez. Sim, eu já disse pra ele parar com essa besteira - você não deveria depositar em alguém essa responsabilidade que na verdade é sua - eu vivo dizendo, mas ele não me ouve e, pra piorar a situação, começa a gritar seu nome igual um doido. 
Não sei por que diabos ele escolheu você, justo você que é tão complicado, justo você que é tão impossível. Mas ele escolheu e não há céu nem inferno que o faça mudar de ideia.
Confesso que houve um tempo em que eu fazia tudo que meu coração pedia, mas depois de tantas quedas a gente começa a ter mais cautela na hora do impulso e hoje eu prefiro não saltar mais rumo a ilusão nenhuma. Então vivemos essa eterna descomunhão: eu sendo razão e meu coração sendo coração mesmo. 
Meu coração diz uma coisa, eu finjo que acredito em outra só por teimosia. Ele grita o seu nome, eu começo a cantar a música que você mostrou pra mim só pra não ouvir o que ele está dizendo. Meu coração começa a cantar a música que sempre imaginei você cantando no nosso casamento e eu na maior cara de pau digo que isso é impossível - mesmo sabendo que o impossível nunca teve vez na minha vida.
Enfim, a verdade é que eu discuto com o meu coração só pra ter a ilusão de que ele não me governa, mas no fundo eu sei que ele é o meu guia, e talvez seja por isso que vivo desnorteada. O fato é que concordo com ele, estou prostrada diante de tanto amor e não sei mais o que fazer.
Então me responda Sam, o que eu faço com esse sentimento? 
Eu já tentei de tudo. Já tentei ignorar ele pra ver se ele se suicidava. Já fingi que ele não existia até eu acreditar na minha própria mentira. Já tentei não alimentá-lo até que ele, enfim, morresse. Mas quando eu vi, você já tinha alimentado ele com sorrisos, com batatas e panquecas e sei lá onde foi parar o sentido de tudo isso. 
É, nada disso faz sentido. Na verdade, nunca fez sentido algum e é por isso que eu nunca soube qual é o nosso destino, porque talvez não haja destino nenhum. Acho que não vamos para lugar algum, porque estamos perdidos - perdidos em nossa própria confusão. E quem sabe, no meio dessa bagunça toda, a gente acabe se encontrando e se ajeite de vez.
                                                                                                

domingo, 13 de julho de 2014

(C)or-do-sol – Por Betina Pilch

Aquele seu riso exibido de erro percebido me fez sorrir deliciosamente. Você tem esse dom de me encantar, enquanto canta com a aquela pose de moço sedutor e olhar envolvente. Mas eu realmente gosto quando sua pose despenca e o que resta é aquele simples menino oculto em sua essência. A complexidade transforma a brisa em vendaval, a garoa em tempestade, a calmaria em tormento. Já a simplicidade torna tudo mais leve e suave. Então, quando você errou aquela simples nota e sorriu, eu queria aplaudir seu riso em pé, porque – de fato – sua alma sendo exposta através daquela expressão risonha tinha sido a melhor parte do seu show teatral. E tudo isso justo naquela noite!
Aquela noite que chegou após uma tarde linda e cheia de melancolia. É, eu tenho essa mania de misturar todos os tipos de sentimentos em um único dia. Mas aquele dia… Ah! Era um daqueles dias em que não namorar o céu parecia um tremendo absurdo. Meus olhos beijavam cada cor celeste e me faziam sentir a delícia de degustar aquelas cores que devastavam o cinza. Admirando a imensidão, eu via o sol rasgando e queimando o horizonte, para dizer adeus à tarde e dar lugar à noite.
Ah! O Sol… Sempre tão humilde, eu pensava comigo. E, enquanto ouvia o adeus, meus olhos, que antes beijavam o céu, agora – taciturnos – olhavam pro sol, porque sabiam que os sabores das cores iriam se pôr junto à luz ofuscante. As cores estavam indo embora e eu, na minha ignorância, achava que a poesia também, mas logo fui beijada por um milhão de rimas. Caiu a noite e a pose dele despencou. Isso me fez pensar em como algumas quedas podem ser incrivelmente bonitas. Eu, que vivo caindo em pranto, despencando dos sonhos, levando tombos, nunca tinha percebido a beleza de uma queda. Justo eu, que coleciono garoas, cascatas e cachoeiras de lágrimas, nunca havia notado que toda queda ou gera sentimentos ou é gerada por eles – e eu nunca gostei de cair. Nunca gostei do roxo que as quedas deixavam.
Ah! As cores que me perdoem. Eu reclamava do cinza e, quando era colorida com tons de roxo, ficava brava. Quando as cores eram obrigadas a se pôr com o sol, eu me entristecia. Ah, menina indecisa! Mas o fato é que as cores do céu no final da tarde eram minha anestesia. Meu artifício inventado para fugir da vida. E, toda vez que o sol ia embora e levava consigo sua caixinha de lápis de cor, eu olhava para mim e lembrava que eu não passava de um contorno em preto e branco. E, quando a noite caiu e eu vi que ele sorriu, descobri nele o arco-íris que sempre almejei – e apenas desejei que, um dia, quem sabe – num final de tarde –, ele refletisse em mim.
                                                                                       
(Texto publicado originalmente no blog Retratos da Alma:

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Reminiscência – Por Betina Pilch


Quando eu era pequena gostava de ficar em silêncio para prestar atenção nas batidas do meu coração. Eu imaginava que meu coração era um quarto com um cubinho dentro que ficava batendo nas paredes. Naquela época eu não imaginava nenhum hóspede dentro dele. Pra falar a verdade, nas minhas imaginações de criança, o tal quarto era cinza e vazio, talvez suas janelas refletissem um dia nublado e por isso a iluminação que eu via era tão sombria, mas o fato é que aquele cômodo que eu chamava de coração só tinha um cubinho que ficava se debatendo nas paredes - e eu sentia cada impacto no meu peito em um compasso regular.
Hoje eu resolvi ir até esse quarto, fiquei olhando pra ele um bom tempo e senti medo. Se eu tivesse que passar o resto da minha vida num lugar como aquele eu não suportaria.
Senti saudade de mim - acho que sou minha maior falta.
Quando eu era criança não tinha medo daquele quarto, meu sonho era conseguir sentar naquele cubinho enquanto ele se jogava de um lado pro outro. Eu não tinha medo da solidão. Eu era minha melhor companhia. Mas hoje, por mais louca que eu seja, não acho que mereço uma solitária - eu não me suportaria. É, é isso. Aquele quarto parecia uma solitária e, talvez, isso explique todas as esquizofrenias do meu coração.
Nunca entendi o que eu sinto, até porque nunca achei certo transformar os sentimentos em conceitos a serem explicados. Prefiro viver sentindo do que viver com sentido e talvez seja por isso que sempre vivi perdida num mar de confusão. 
Às vezes eu me enchia de nada e logo transbordava os vazios para me livrar dos ecos da solidão. Mas quando tentava me preencher novamente me perdia num labirinto de dúvidas que me deixava sem direção.
Sempre evitei ficar vazia, porque meu coração não gosta de ficar sozinho e tem medo do escuro, por isso ele vive buscando por sentimentos que possam colorir e iluminar tudo aquilo que escurece e acinzenta. Meu coração sempre foi um grande artista. Quando não encontrava cores, ele mesmo pintava as suas paredes com as fantasias que criava - e aí ele era pintor. Quando não encontrava iluminação, ele imaginava a luz e dessa luz sempre nascia poesia - e aí ele era poeta. Quando ele precisava de provas concretas de que algum momento de felicidade existiu, ele vasculhava o passado até achar - e aí ele era um arqueólogo de sentimentos. E nessas buscas incansáveis por luzes e cores e sentimentos ele encontrou você - e aí ele se tornou um grande astrônomo. Porque eu tenho certeza que ele te buscou no céu e trouxe pra mim.
E agora que te encontrei, retorno àquele quarto que imaginava quando era criança e dentro do cubinho que bate contra a parede eu vejo você. Te vejo com toda a luz que você nem imagina que tem e me ilumino por inteiro.
E toda essa luz me faz lembrar das suas fases lunáticas, do seu anoitecer sombrio, dos seus cacos que ferem, da sua mente perdida, e da sua complexidade que sempre se dissolve num sorriso. E então sorrio, porque o menino que você é, de certa forma, acaba de se encontrar com a menininha que eu fui.
Talvez você desperte o que tenho de melhor em mim e a menininha feliz que eu fui um dia resolveu acordar e mexer nas minhas memórias mais bonitas até eu notá-las, porque sabia que nessas memórias eu te encontraria.
E após escrever tudo isso me sinto anestesiada. Não sinto meu corpo direito, talvez ele tenha silenciado pra deixar a alma falar.
Toda vez que mergulho em mim, me afogo - me afogo na imensidão de sentimentos que você gerou em mim e desejo te inundar.
Meu coração de menina encontrou o menino que você esconde dentro de si e eles resolveram se afogar. Só espero que você ouça os gritos deles logo e resolva transbordar para, enfim, me encontrar.
                                                                                                            

sexta-feira, 21 de março de 2014

Estação instável – Por Betina Pilch

Então acordei naquela primeira manhã de outono e sorri um sorriso triste. Senti uma tristeza que sorria. Uma felicidade deprimida. Uma depressão eufórica. Uma euforia mórbida. Uma morbidez vívida.
Fechei os olhos, enchi meus pulmões de ar e dentro de mim, então, só existia aquele oxigênio inspirado. 
Vasculhei minha caixinha de sonhos e percebi que eles estavam secos como as folhas das árvores que caíam. Talvez fosse culpa da estação ou talvez tenha sido culpa desse meu coração asmático e árido. Não sei. Na verdade o não saber era só o que restava em minha mente.
Uma lágrima escorreu da minha alma e meu coração gemeu. Meu ser então suspirou e pro céu olhou. As nuvens escuras estavam chorando comigo e nesse momento derramaram uma gota de tinta cinza em meus olhos, desde então eu só enxergava um mundo acinzentado.
Curitiba era cinza. São Paulo era cinza. A Suíça era cinza. Até o Rio de Janeiro, de repente, acinzentou. E os amores já não tinham nenhuma cor. Aquela pequena gota de tinta fez da minha vida um imenso degradê de cinza. 
O (arpoa)dor agora tinha a ver com a dor de um passado distante que jamais seria presente novamente.
Aquela música do Passenger já não me levava a sonho nenhum, mas era como aquele desperta-dor que me acordava justo quando eu não queria viver. 
Curitiba estava mais cinza do que o normal e estava tão torturante quanto seus ônibus às 6h da manhã. 
São Paulo continuava distante, mas agora já não existia esperança de aproximação.
E meu coração, que já transbordou e bordou o amor, apenas esvaziava um nada que matava e bordava uma dor que apagava qualquer cor que quisesse aparecer. 
Olhei para frente e em meio ao cinza e sépia do outono um vento soprou bem perto de mim. Soprou e sussurrou que assim como ele o outono também iria embora. Que viria mais uma estação para esfriar os ferimentos ardentes do meu coração e depois dela viria aquela que todos chamam de Primavera. 
A amante das cores, das flores, dos amores traria o sol do Arpoador novamente. A melodia apaixonante da música do Passenger. Traria vida para Curitiba. Ressuscitaria os sonhos paulistas. 
Então diante dessa pequena esperança eu pisquei. Aquela tinta cinza ainda estava encalacrada no meu olhar, mas lembrei que meu sorriso ainda era branco e de repente sorri, porque eu sabia que a Primavera viria e coloriria tudo de novo.
Mas no momento só o que me restava era a lembrança dessas memórias mórbidas que pouco a pouco evaporavam. E só a solidão é presença enquanto os sonhos se ausentam e ficam longe de mim.
                                                                                                         

segunda-feira, 17 de março de 2014

Vultos ocultos dentro de mim – Por Betina Pilch


A música toca e inevitavelmente você vem em minha mente com aquele seu jeito evolvente e perversamente inocente.
Fecho meus olhos e te encontro sem hora marcada, sem data estipulada nem nada, porque você sempre gostou de chegar sem avisar. E de repente já é tarde demais pra guiar meu pensar, meu coração dilata e quase me mata por querer sair do meu peito e beijar cada pulsar que salta de dentro de você.
A gente fala de lágrimas com um riso sarcástico no rosto e a contragosto assumimos que nos parecemos mais do que deveríamos nos parecer. 
Você me abraça, me enlaça e no espaço de seus braços tudo que era pedaço torna-se inteiro.
Enlouqueço e quase me esqueço que nossa proximidade está cercada de impossibilidades e que nesse momento em meu peito você não passa de um forasteiro passageiro que só chegou para me bagunçar e despertar uns desses sentimentos que não nascem pra vingar.
Permaneço colada em teu corpo e sofro por não poder permanecer assim. A gente se demora, mas sei que a qualquer hora você vai embora e eu degustarei o fim.
Silenciamos diante do nosso desânimo e ficamos parados escutando nossa respiração acelerar. Sabemos que não nascemos pra felicidade, somos cheios de complexidade, que tudo que passa é brisa leve e não vento forte capaz de nos fazer voar.
Meus pés pesam no chão e no meu coração sinto uma voz gritar dizendo que não quer te largar e pedindo pra você me a(ni)mar.
Você me a(ni)ma e me mima, fala que sou sua menina e promete que nunca vai me deixar. Eu calo sua boca com um beijo, digo que promessas costumam falhar. Salgo minha face com lágrimas e de repente meus olhos começam se abrir. Retorno a realidade e mesmo sem querer me obrigo a te ver partir.
                                                                                                          

sábado, 15 de março de 2014

Me mate, só não acabe com a minha vida – Por Betina Pilch


Eu não sei o que está acontecendo comigo, até porque nunca me entendi. Quem me explicava era sempre você. No entanto, nesse momento, me explicar seria explicar você mesmo e nesse caso quem sempre te entendeu fui eu. 
Percebo que quanto mais me des-vendo, mais te encontro. E me revelando descubro que os segredos eram apenas alguns embaraços causados por nós que eu atei sem você saber.
(Trans)bordo palavras e me afogo em sentimentos (bor)dados pra você. Então te sufoco com o meu sentimentalismo e foco onde está tudo desfocado. Você tosse e se engasga enquanto bebe minhas loucuras a goles sôfregos tentando respirar sem pirar diante de tanta (ins)piração sem nexo. 
Sua loucura sempre se pareceu com a minha, mas talvez eu tenha ultrapassado os limites e não nos parecemos mais. Talvez minha loucura já não seja agradável ao seu paladar. Talvez eu lhe cause náuseas. Talvez você vomite. Talvez você queira me amar(rar) em uma camisa de força enquanto lhe peço encarecidamente que seja o meu psiquiatra. "Não fuja de mim diante da minha loucura!" - grito enquanto você me observa. Eu rio diante de tanta insanidade e pareço ainda mais louca. Então você ri também. É, a gente sorri. Só ri. Porque o que nos resta é isso: só (r)ir. 
Peço que me entenda, não me deixe e me ignore o máximo de vezes possível também. Não faço sentido, vivo sentindo e grito insistindo pra que me mande calar a boca e voltar ao normal. Calo a boca e percebo que normal eu nunca fui. Então continuo sendo louca. Louca por você. 
Você não entende nada e pensa: "Não sei lidar. Não sei lhe dar." e, lendo seus pensamentos, eu respondo: "Não lide, não ligue, não me dê nada."
Porque o que (não) temos me basta e é pelo que (não) temos que morro de amor. Só não fuja de mim, mesmo que eu mesma fuja de mim às vezes.
Uma vida morrendo é uma vida. Uma vida sem morte, é apenas uma morte camuflada. Prefiro morrer de amor do que viver sem amar - então espero que você continue me (m)atando.

                                                                                                                                    

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Não sei titular e isso já é um título


Eu não queria refletir, mas só o fato de eu não querer entrar em reflexão já é refletir sobre algo que não quero e se não quero algo já é um querer que algo não aconteça.
Eu não queria me perder, mas já estou perdida e só o fato de eu saber estar perdida já é uma forma de me encontrar. E eu me encontro e me perco em mim mesma, e ao me perder dentro de mim mesma já não encontro mais nada.
Eu me conheço bem o bastante para saber que não conheço nada sobre mim e o fato de saber o que não sei me inquieta e me atormenta.
Evitei o silêncio, porque meus silêncios sempre foram gritantes demais e esse emudecer estridente sempre me ensurdeceu. Só escuto o som de um nada cheio de vazios que fazem minha mente girar sem sair do lugar. Tenho vivido esse eterno permanecer sem nunca estar.
Céus! Para onde vou?
Já não sei o que sou, nem onde estou, tampouco o que farei a partir daqui. Apenas imploro a Deus que me guie, porque eu já não tenho nenhum sentido e não sei para onde ir. 
                                                                                                                                          - Betina Pilch.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre aquilo que não sei sobre mim


Você não sabe nada sobre nós, apesar de saber tudo sobre mim. 
Você não entende meus sentimentos, apesar de saber tudo que sinto e senti. 
Você não sabe nada, apesar de saber tudo. 
Talvez de tanto eu camuflar, meus sentimentos tenham ficado ocultos no escuro. 
Você ouviu tudo mesmo sem escutar uma só palavra. 
Você não conhece os inquilinos do meu coração, porque eu nunca quis te cobrar nada.
Te escrevi uma carta em segredo na esperança de abafar os gritos dos meus sentimentos quando lacrasse aquele envelope e guardasse no fundo daquela caixa. Mas eles gritam e pulam, nenhuma palavra naquela carta se encaixa. 
E nada permanece para sempre apesar de nada ir embora. 
E tudo fica em minha mente, apesar de tudo mudar a cada instante, a cada hora. 
E a sua voz talvez seja minha memória favorita. 
E você talvez seja mais do que uma linda poesia. 
Começo achar que você é aquele desenho confuso que eu fazia quando criança e aos olhos adultos parecia sem sentido. Aquele desenho que só eu entendia e guardava por achar lindo.
Você não sabe o que sei sobre nós atados num laço que jamais será desfeito. 
Você não sabe que a fita que enfeita o nosso presente é o que torna ele tão perfeito.
Você não sabe nada sobre você e eu sei tanto sobre ti. 
Você não sabe nada sobre nós e eu já não sei nada sobre mim.
                                                                                                                                - Betina Pilch.