segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mais poesia do que argumentos - Por Betina Pilch


Cresci ouvindo que contos de fadas não existem. Que eu era romântica demais, sonhadora demais, tudo em demasia. Que eu precisava crescer, amadurecer, parar de acreditar que o príncipe encantado ia chegar. Cresci abraçando utopias, me entregando aos sentimentos, me machucando com a realidade. Cresci, mas permaneci pequena, sem perder minha fé, a minha liberdade.
E aí, você apareceu. Todo razão, cheio de argumentos e eu parei pra te admirar. E você me notou. E a gente se encontrou na esquina da tua racionalidade. E eu te peguei pela mão e te conduzi à estrada da minha sensibilidade. E aí nada mais fez sentido. Só sabíamos sentir.
Você disse que eu era um anjo e eu lembrei que tinha asas. Mas você também disse que não fomos feitos pra voar, por isso odiava viajar de avião. Então caminhamos de mãos dadas em terra firme, com a alma pendurada num balão.
Compreendi que as pessoas estavam certas, contos de fadas não existem. Não dá pra confiar em histórias de amor que começam com o verbo no passado. Porque amor é presente. E o nosso é cheio de laços que eu nunca vou desatar.
Príncipes encantados não existem e que bom!, porque eu não acredito em monarquia mágica. Prefiro um camponês comunista militante do amor. Existe algo mais intenso e bonito que isso?
E eu me apaixonei. E você acendeu aquele cigarro pra mim depois de uma dose de uísque compartilhada. E eu despejei minhas dúvidas embriagadas em cima de você e você respondeu que me amava. E eu quis te beijar com intensidade, porque sabia que você era o amor dos meus sonhos concretizado na minha realidade. E eu sorri. E meu sorriso nunca foi tão infinito e sincero.
Perdi a noção de tempo e espaço quando te senti fisicamente. Esqueci as fórmulas que nunca aprendi e pelos meus cálculos a gente nasceu pra dar certo. E eu não estou nem aí se sou péssima com números, tenho fé no que sinto e não preciso de respostas lógicas pra acreditar em nós.
Porque eu sou poeta. E você é músico. E não existe música sem poesia e nem poesia sem melodia. E eu já não sei o que é ser eu sem você e não quero imaginar você sem mim, porque é tão bonito ver nossos sorrisos rimando em uníssono a cada batida sincronizada dos nossos corações.
Você é minha poesia preferida. E hoje está imortalizado em cada palavra minha. Ninguém mandou você despertar em mim o verbo amar. Esqueci toda a gramática que me ensinaram, agora é só esse verbo que eu sei conjugar.
Eu amo. Tu amas. Nós amamos. E ele, ela, vós, eles e elas amam ver a gente se amar.

sábado, 18 de junho de 2016

Áspera espera – Por Betina Pilch


Ela se despiu das suas roupas, ficou nua diante do espelho, acendeu um cigarro, bebeu uma dose de uísque e vestiu suas angústias e seus medos.
Desejou tragar a morte para dentro de si, mas tudo que tinha era aquela nicotina barata que já não a anestesiava mais. Foi pra baixo do chuveiro e ficou imóvel, estática, enquanto a água escorria por todo o seu corpo. Desejou que aquela água lavasse todas as suas misérias e que todos os seus fardos escorressem pelo ralo pra nunca mais voltar.
Mas a água lavava o seu corpo e a alma permanecia intocada, imunda, pútrida. O coração continuava sangrando e cheirando a morte e nada no mundo era capaz de limpar aquela imundice toda.
Tudo doía. Cada aresta e ângulo do lado de dentro. Doía-lhe viver. Doía-lhe respirar, porque era obrigada e isso a torturava. Não lhe agradava não ter pleno domínio das coisas.
Encarou seu reflexo no vidro do box do banheiro e, ainda estática, apenas movia seus lábios e empurrava a voz para fora de si dizendo que nem tudo é esperança. Às vezes é só uma espera agonizante que nos faz perguntar se a morte não está atrasada ou se chegou adiantada demais.
Sentia-se morta em frações. Queria morrer por inteiro.
Saiu do banheiro, foi para o seu quarto ainda nua, dispensando qualquer toalha. Não queria se secar. Já se sentia seca demais por dentro.
Ela sabia que só se sentiria livre quando não pertencesse mais a esse mundo e então se libertou.
Sua alma finalmente estava tão nua quanto aquele corpo deitado na cama forjando um sorriso. Aquela alma estava livre de qualquer vestimenta feita de carne, ossos e pele. Então foi para onde nenhum vivo jamais terá acesso. E sentiu-se viva pela primeira vez.
No dia seguinte, os vivos abriram a porta do quarto e encontraram aquele corpo lavado de sangue e com um sorriso estampado na face. Sentiram angústia com aquele sorriso da morte. A felicidade dos mortos é desconfortável.
Houve alguém que disse "morreu com o mesmo sorriso que sempre viveu" e resolveram sorrir também. Porque é isso que os vivos fazem, vestem suas máscaras pra não expor a nudez da alma na face. Porque o maior atentado ao pudor é permitir que vejam suas intimidades mais internas.
Aquele corpo lavado de sangue sorria porque finalmente a alma estava excitada com a vida, os pulmões não eram mais obrigados a nada e o coração estava livre das impurezas. Não sangrava mais. Dormia. Pra sempre.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Entre palavras e paredes – Por Betina Pilch


Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Por que parede se chama parede? Essa palavra não faz sentido pra mim.
Parede. Parede. Parede.
Por que parede se chama parede e não chão?
Para com isso, Betina. Deixa eu dormir. Eu não quero pensar sobre isso. Você está fazendo as palavras perderem o sentido, dizia minha prima já irritada com a minha tagarelice no meio da madrugada.
E eu continuava pensando...
Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Sério, pensa comigo. Realmente não faz sentido.
Cala a boca! Chega! Deixa eu dormir.
Poxa vida. Eu não estava fazendo as palavras perderem o sentido. Pelo contrário, estava buscando um sentido para elas. Mas é claro que nenhuma criança de sete anos teria paciência para acompanhar minha curiosidade. Sim, desde pequena as palavras me intrigavam, encantavam, espantavam...
Sempre fui uma grande esquizofrênica das letras. Elas ecoavam no meu pensamento com sua sonoridade singular e sua grafia ficava dançando na minha mente até eu ficar tonta. Quando as letrinhas resolviam escolher um par e formar silabas para, depois, fazerem amor e dar a luz às palavras, eu ficava inquieta. As palavras tinham muito poder. Eram um conjunto de letras de mãos dadas que formavam sons e imagens. Sim, imagens. Eram as imagens que me intrigavam. Quem é que determinou que aquela família de letrinhas formariam a imagem de algo?
Por que a palavra parede dava luz à imagem de algo duro e frio que dividia os cômodos da minha casa? Antes de parede ser parede era o que?
Mãe, por que parede se chama parede e não chão?
Não sei, filha. As palavras são o que são.
Ah, não! Então alguém saiu por aí dando nome para as coisas, sem pensar num sentido pra isso?
Aquilo me aborrecia. Me aborrecia tanto que eu precisava dar uns tapinhas na minha cabeça e implorar para pensar em outra coisa. Mas não adiantava. Bastava um pouco de silêncio e tédio para as letrinhas voltarem a dançar dentro da minha cabeça. Peguei certa birra da palavra parede. Ela nunca fez sentido pra mim. Eu batia nela e perguntava "por que você se chama parede?" e logo em seguida ria ironicamente pensando, você não fala, por que estou falando com você?
De repente, achei engraçado querer que a parede soubesse o porquê do seu nome. Eu mesma não sabia por que me chamava Betina.
Mãe, por que meu nome é Betina?
Porque significa "promessa de Deus".
Ué, como assim?
Vem do hebraico. E o significado é esse.
Foi aí que comecei a entender a origem das palavras e aquilo era mágico pra mim. Mais tarde fui entender o que era prefixo, radical e sufixo. Nossa! As palavras eram realmente encantadoras.
Cresci e me assumi uma grande amante das palavras. Difícil não precisava ser difícil se podia ser complexo. Beleza não precisava ser beleza se podia ser venustidade. Então passei a buscar pelos sinônimos mais bonitos de todas as palavras que eu conhecia.
Textos e mais textos. Como era bom escrever por escrever. Até que um dia percebi que não escrevia apenas por prazer, escrevia por necessidade.
Quando o buraco aqui dentro me consumia, eu escrevia na tentativa de preencher.
Quando as coisas aqui dentro me afogavam, eu escrevia para transbordar os acúmulos.
Escrever era alívio. Era salvação. Era liberdade.
Escrevia para matar e imortalizar, e foi assustador perceber que imortalizei certas mortes.
Escrever tem esses paradoxos. Escrever é magia pura. É preciso ter cuidado com o poder das palavras.
Cresci odiando paredes. Essa palavra ainda não faz sentido pra mim. Eu não consigo gostar daquilo que não sente. Tudo que não tem sentimentos, não faz sentido pra mim. Porque, pra mim, sentido sempre foi fruto de alguma conjugação do verbo sentir e nada mais.
Paredes dividem. E eu odeio separações e matemática. A criança que eu fui (e que ainda mora aqui dentro de mim) estava certa em não confiar nas paredes. E hoje sei responder a sua pergunta insistente. Por que parede se chama parede e não chão?
Se parede fosse chão, seria caminho e não empecilho. Seria continuidade e não limitação. Seria liberdade e não prisão.
Continuo não gostando de paredes. Mas aprendi que é possível fazer essa palavra provar do próprio veneno. Aprendi que posso construir uma parede entre as silabas das palavras e formar outras. Pa|rede pode ser rede a me balançar pelos ares ou a me lançar na imensidão do mar.
Hoje não sou construtora de palavras. Sou demolidora de silabas. Transformo amar|gor em amar. Lament|ação em ação. Lou|cura em cura. E assim me tornei uma sobrevivente de mim mesma salva pelas letras. E nada desperta em mim o medo de viver - porque sei que as páginas sempre irão me socorrer.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Amei, amém – Por Betina Pilch


Então você se foi e restou apenas o seu embora e o seu porém que nunca me convenceram, apesar de me vencer.
Prometi a mim mesma que esqueceria todas as vezes que você, com sentimentos e ações, me aqueceu. Mas esquecer não me aquecia e ao me aquecer era impossível ser uma pessoa esquecida. E entre me enlouquecer com as lembranças e morrer de frio, eu preferia ser uma enlouquecida aquecida com seus beijos e carícias guardados aqui, sob esse edredom de memórias póstumas de uma alma cadavérica que se partiu ao ver você partir. 

Partidas são essas partes de nós que resolvem ir. Perdas são essas pedras que a vida joga na gente. Vazio é esse buraco que era cheio, mas o que tinha dentro vazou. E tudo gera impacto e faz da gente um cacto aguado de lágrimas. 

O amor gerado se foi. O desamor gelado ficou. E com a minha teimosia tentei não morrer de hipotermia amorosa. E, através da prosa entre mim e o meu eu, resolvi forjar nosso amor novamente. A mente ajudou a criar. O coração ajudou a sentir. Eu fui ficando sem ar. E precisei me despedir. 
Disse adeus, amor que dói. E Deus pegou a dor, levou pro céu e deixou o amor pra me aconchegar. Então me amei, sem (ir) embora e sem porém. Me amei como quem ama pela primeira vez. E apaixonada preenchi meus nadas com amores e amém. Amores pelas cores da minha alma que resolveram refletir em tudo que eu resolvia olhar. Amém para todas as preces em que implorei para amar sem me machucar. 

E você se foi. E eu fiquei.
Livrei-me de todo mal, me amei e disse amém.

                                                                                                        

Moço, por que você não morre? – Por Betina Pilch



Moço, vem cá, me diz uma coisa... Por que você não morre?
Morre dentro do meu coração, dentro da minha mente, dentro da minha alma. Hein, moço? 
Por favor, vê se morre dentro de mim. Morre nas minhas lembranças. Porque se você não morrer, você vai continuar me matando e eu não estou mais suportando lidar com tantas sepulturas. É difícil ter que velar o próprio eu. Não quero mais esse luto, essa eterna luta, esse teu relutar. 
Dessa vez é melhor você morrer, moço. Sei que você vive tentando suicídio em mim e eu sempre te salvo. Não queria perder você. Mas toda vez que eu te salvo, você me apunhala pelas costas e me mata. Pega suas palavras e me enforca. Me asfixia com a tua indiferença. Arranca a minha cabeça fora com o teu desprezo. Então, por questão de segurança, você precisa morrer.
Morre, moço. Morre pra sempre e leva essa tua descrença contigo pro abismo dos que não voltam mais e não volte mesmo. Não ouse me assombrar. Não tente acreditar na vida depois que morrer. Por favor, moço. Deixe sua alma morta como sempre esteve. Não é justo você tentar encontrar a vida depois de tanto fugir dela. Então, se joga nos braços da morte e durma o sono eterno do silêncio e do vazio.
Morre, moço. Morre dentro de mim. Vai morrendo aos poucos, pra eu ir me acostumando com a sua ausência. Morre, vai morrendo devagarinho, até eu esquecer que você vivia aqui dentro de mim. Morre, moço. Pode morrer. Morre bem morrido pra quando eu for procurar o cadáver do meu amor eu encontrá-lo em cinzas.
Morre, moço. Morre agora. Morre já! Não quero ter que lidar com a culpa de ter que te matar.
Morre, moço. Morre logo. Por favor, chega de me maltratar.
Vê se morre, moço... Ou esteja preparado para me enterrar.

                                                                                                                

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Era uma vez, não é mais – Por Betina Pilch



Era uma vez, assim, no passado mesmo, bem clichê. Porque apesar do felizes para sempre na última página dos contos de fadas, nenhuma felicidade é presente eternamente e - às vezes - mal chega ao futuro.
Abra a página final. Perceba, "viveram". Isso quer dizer que não vivem mais. Passou. Acabou. Assim como todas as histórias de amor - que muitas vezes não se permitem nem ser estórias.
E que bom que as páginas viram e nós caminhamos. Todos os contos de fadas são tão angustiantes. O príncipe tem que salvar a princesa. E coitado desse cara que tem que dar conta da salvação. Tem que ter ação. Ser são. E pra que tanta sanidade?

Fada do céu! Você e todo mundo que me conhece sabe o quanto eu lutei, esperneei e fiz birra com a minha sina. Eu sou teimosa, tinhosa, orgulhosa e não queria uma história qualquer pra mim. Meu castelo sofria cada atentado que só os deuses sabem, mas eu nunca me prostrei diante dos destroços, sempre reergui e reconstruí tudo novamente.

É difícil não conseguir desistir. Existir. Ir.

Mas em meio a solidão de um castelo de sonhos distante da realidade, apareceu ele. Não, nada disso. Sem cavalo branco, espada ou bainha. Só ele, capaz de fazer rir. Ele - aconchego em meio ao caos. Ele - o próprio caos. Ele - solidão, ironia, pessimismo, vazio. Ele, porto seguro. Ele, alto mar.
Se apresentou como Bobo. Me chamou de Dama. Loucura. Cura. Socorro! Quem sou eu? Quem é você? Dúvidas. Vidas. Idas. E ele se escondeu. 
Cadê você? Procurei. Não achei. Chorei. Orei. Ó, rei! Por que? Volta aqui! E ele voltou. Me girou. E pelo amor dos deuses, moço! Para de me revirar. Virar. Irar. 
Prometeu de dedinho nunca mais me abandonar. 
Baita correria. E a gente ria. Até que quando olhei, o sorrir virou só ir. E ele foi indo, até não ser mais quem era.

Entre uma cambalhota e outra que demos de mãos dadas eu percebi que ele só queria brincar. E eu não queria cirandar. Talvez só andar. Não sei. Estava cansada demais. Ai.
Ele ficou, mas me partiu quando desistiu e nem sequer me comunicou que o nosso amor acabou antes mesmo de começar. Me esqueceu. Enlouqueceu. E sua loucura começou a machucar ao invés de curar. 
Cansei. Eu sei, já disse isso outra vez. Mas meu bem, veja bem, você que não soube permanecer. Nem ser. 

Era uma vez. Não é mais. Vivemos felizes. O para sempre ficou lá atrás. Talvez não tenhamos sorte nessa vida. Quem sabe tenhamos na morte. 
Mas é bom segurar a mão de alguém bem forte, porque essa Dama aqui cansou de ver como príncipe encantado quem só se prestava a ser bobo da corte.






E assim me despedi e fechei o livro - sem avisá-lo que era o 

FIM.