quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aquela que vinga - Por Betina Pilch

 Texto inspirado no livro "Boca do Mundo" de Dia Bárbara Nobre

- da necessidade de sentir Urânia, Abigail e as demais personagens mais um pouquinho.


Depois que Hermínia partiu pela segunda vez, a casa ficou diferente. Não vazia. As casas nunca ficam vazias quando aprendem os nomes de quem passou por elas. O que mudou foi o peso do ar. 

Durante anos me acostumei a ouvir presenças caminhando pelos corredores. Algumas eram lembranças. Outras não. Havia passos que pertenciam à madeira, passos que pertenciam ao vento e passos que pertenciam aos mortos. Depois que abracei minha filha e a senti dissolver-se entre meus braços feito água devolvida ao rio, alguma coisa encontrou repouso. Até os silêncios passaram a respirar de outro jeito.

Eu mesma já não carregava os dias como quem transporta pedras dentro do peito. A dor não foi embora. A dor nunca vai. Acontece que ela envelhece junto da gente. Aprende a sentar na varanda. Aprende a olhar a chuva. Aprende a ficar quieta.

Foi nessa época que Teresa e Bamila decidiram se casar.

Urânia inteira pareceu florescer. As mulheres passaram semanas costurando tecidos, preparando vinhos e pendurando fitas nas árvores do vale. Eu observava tudo sentada sob a sombra das videiras. Os cachos amadureciam lentamente acima da minha cabeça enquanto as duas atravessavam os dias com aquele brilho que só existe quando alguém encontra um lugar seguro para descansar a própria alma.

Na manhã do casamento, Teresa chorou antes mesmo de vestir o vestido. Disse que não acreditava merecer tanta felicidade. Bamila segurou seu rosto entre as mãos e respondeu que felicidade não era prêmio. Ainda hoje me lembro da forma como o sol atravessava seus cabelos. Algumas pessoas nascem com uma espécie de claridade dentro dos olhos. Bamila era assim.

Quando as vi trocando alianças diante das mulheres de Urânia, tive a estranha sensação de estar assistindo a uma porta se fechar. Não uma porta ruim. Uma dessas portas antigas que se fecham devagar quando a tempestade finalmente passa.

Meses depois chegou a menina. Pequena. Magra. Os joelhos sempre ralados. Os cabelos cresciam em todas as direções possíveis. Foi Teresa quem a encontrou primeiro, abandonada numa estrada de barro depois de uma enchente. Quando a criança chegou à cidade, ninguém perguntou de onde vinha. Em Urânia, às vezes as pessoas simplesmente chegam. Como as chuvas. Como os pássaros. Como as sementes carregadas pelo vento. Bamila a pegou no colo. A menina segurou um pedaço do seu colar e não soltou mais. Foi assim que escolheu a própria família. Chamaram-na Hermínia. Algumas mulheres acharam cedo demais. Eu não. Certos nomes não pertencem aos mortos. Pertencem ao caminho.

A nova Hermínia cresceu correndo pelos mesmos lugares onde sua avó um dia correu. Mas havia diferenças. A terra repetia seus gestos sem repetir seu destino. Ela conversava sozinha perto do rio. Via coisas que mais ninguém via. Encontrava objetos perdidos enterrados havia anos. Sabia quando alguém chegaria antes de qualquer notícia. Às vezes acordava durante a madrugada para descrever sonhos que ainda não tinham acontecido.

Quando completou sete anos, apareceu na minha varanda trazendo uma serpente desenhada num pedaço de papel.

— Ela pediu para eu fazer, bisa.

Meu coração reconheceu o desenho antes dos olhos.

A Encantada.

— E o que ela disse?

A menina me olhou demoradamente e, em seguida, com um sorriso me abraçou dizendo:

— Que você anda preocupada demais, viu dona Abigail?

Ri. Mesmo depois de tantas décadas, aquela criatura continuava me vigiando. Ou me amando. Talvez fosse a mesma coisa.

Os anos seguiram passando. As videiras envelheceram. Eu envelheci junto delas. Muitas mulheres chegaram. Muitas partiram. Algumas deixaram filhas. Outras deixaram histórias. Urânia continuava crescendo feito raiz de árvore. Não para cima. Para dentro. Foi assim que entendi o segredo daquela cidade: não éramos uma comunidade - éramos memória criando morada.

Na última noite da minha vida, a chuva veio mansa. Daquelas chuvas finas que parecem cair apenas para lembrar que o céu existe. Eu já não conseguia levantar da cama. Minhas mãos haviam ficado leves demais e meu corpo parecia uma roupa antiga prestes a ser dobrada e guardada. A pequena Hermínia dormia ao meu lado. Tinha treze anos. Os cabelos espalhados pelo travesseiro pareciam raízes procurando terra. Teresa e Bamila cochilavam numa cadeira perto da janela, vencidas pelo cansaço de vigiar alguém que amavam. Fiquei observando as três. E pela primeira vez em muitos anos não procurei os mortos, nem os ausentes.

Passei boa parte da vida conversando com lutos. Meu pai. Meu filho. Hermínia. As mulheres que a terra havia guardado antes de mim. Havia dias em que eu sentia suas presenças mais claramente do que sentia o próprio vento atravessando as videiras. Durante muito tempo a saudade foi uma espécie de casa onde morei.

Mas naquela noite meus olhos encontravam apenas os vivos.

Talvez fosse esse o verdadeiro milagre: não carregar mais o passado como quem carrega um corpo nos braços, mas como quem carrega uma semente.

Foi então que a vi.

Sentada no canto do quarto.

A Cabocla Encantada.

Como sempre.

Como desde o começo.

Como antes mesmo de mim.

Não precisei perguntar se era hora. As mulheres da minha família sempre souberam reconhecer quando a noite vinha buscá-las.

Olhei para a menina adormecida. Depois para a Cabocla.

Pedi que não a deixasse sozinha.

Minha voz saiu baixa, quase um sopro, mas ela ouviu.

Disse que a menina precisaria dela. Que herdaria muita coisa. As visões. A memória. Os caminhos. Os nomes. Pedi apenas que não herdasse os nossos pesos.

A Encantada permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois sorriu. Era um sorriso pequeno. Antigo. Um sorriso que parecia existir desde antes das montanhas, desde antes dos rios encontrarem seus leitos. E naquele instante compreendi algo que me escapara durante toda a vida: nenhuma geração recebe exatamente a mesma herança.

A terra ensina.

A água modifica.

O tempo lapida.

A Boca do Mundo se abre a novas narrativas.

A menina carregaria nossos nomes, mas pisaria na terra com os próprios pés. Carregaria nossas histórias, mas escreveria as próprias. O sangue não é um espelho. É um rio. E nenhum rio passa duas vezes pelo mesmo lugar.

A Encantada se levantou e caminhou até a cabeceira da cama. Com uma delicadeza que jamais vi nos seres humanos, pousou a mão sobre os cabelos da criança.

Lá fora, ouvi as videiras balançando. Ou talvez fossem vozes. Nunca aprendi a distinguir. Pensei em tudo que havia perdido ao longo da vida. Pensei no filho que não cresceu. Na filha que precisei devolver ao mundo para que pudesse descansar. Nas mulheres que enterrei. Nos anos que a vida arrancou de mim sem pedir licença. E pela primeira vez não senti vontade de chamar nada de volta. Porque, olhando para aquela menina adormecida, compreendi que nenhuma dessas coisas havia desaparecido. Tinham apenas mudado de forma.

As perdas que me atravessaram agora corriam adiante de mim. Estavam nos olhos daquela criança. Nas mãos de Teresa. Na coragem de Bamila. Nas videiras que continuariam dando frutos quando eu já fosse apenas lembrança. Estavam na terra de Urânia, que aprendera a guardar nomes sem transformá-los em ruínas.

Fechei os olhos. E pela primeira vez não senti medo de desaparecer, afinal percebi que as pessoas não permanecem através dos corpos. Nem através das fotografias. Nem através das lápides. Permanecem através daquilo que continuam semeando umas nas outras.

Quando meu último suspiro deixou o peito, a chuva ainda caía sobre Urânia.

E em algum lugar do vale, uma menina sonhava com uma serpente de fogo abrindo caminho entre as estrelas.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cicatriz alada - Por Betina Pilch



O som da despedida ecoava. O céu quase escuro. A fumaça recém acesa escoava, vozes por todos os lados manifestavam risos estimulados pelo sangue jovem dos primeiros capítulos sendo escritos. Eu já estava na metade da história, mas me sentia em um novo começo. O começo de uma vida inteira, que precisou de um passado pra começar a ser reescrita.

Sentei no degrau da escada, vislumbrei um futuro que outrora sonhei e parecia tão distante — agora, olhando pra trás, o ontem parece tão longe… A fumaça pairou no ar, as chamas me chamavam e eu ia sem o temor de me queimar. Já fui queimada tantas vezes que aprendi a sentir o fogo arder em mim sem doer, sem me apagar.

Subi as escadas, entrei no elevador, nono andar, onde tudo parece começar agora. E as portas se abrem, sempre se abriram pra mim: a vermelha, a proibida, a do fim do corredor, a que me fez correr, a que eu perdi a chave e não me deixou fugir. Passagens livres, prisões arquitetadas. Eu atraente, eu atraída, eu traída, eu corrompida.

E a garganta que outrora gargalhava, foi arranhada, quase estrangulada, e quando sufocada estava e não mais aguentava, eu gritava contra a fronha bordada e salgada que só me silenciava. Preparei a fuga, arrumei a mala e vazia ela estava; tudo tinha sido tirado dali, tirado de mim. Recolhi cada gota salgada do travesseiro e fiz delas minha bagagem pesada.

A bagagem que carrego já não é mais a mesma, muito mais leve e ao mesmo tempo tão maior, sutilmente imensa, cheia de tudo que recolhi ao me acolher. Aos quase 30 anos, já me aproprio dessa nova década, abraço e me sinto tão pertencente — à década e a mim mesma. Olho no espelho, me reconheço. Encontro no reflexo alguém que gosto de enxergar. E me enxergo todos os dias tantas vezes.

Dedilho as minhas cordas vocais, a garganta não arranha mais. Olho pra frente, não há mais sinais. Outrora, esquecia de mim. Olhava e me via de fora, vagando por lugares que ainda não me cabiam porque — talvez — naquele capítulo virado, eu já percorria as linhas da história que eu ainda ia escrever.

Antes era eu o sangue jovem que ardia no mundo a rir sob o céu prestes a escurecer. E o sangue respingava no livro e dançava decorando a história que depois seria manchada. Agora, tateando as páginas limpas que ontem almejei, escrevo aliviada. Apesar do cansaço que carrego no corpo, a alma flutua se permitindo voar.

Abro minhas asas outrora machucadas que sangravam sonhos podados, vejo as marcas do fio afiado que tentou fechar meu livro e ver os capítulos encerrados. Olho pra capa, sorrio para as páginas surradas que ao serem viradas sopraram vento pra dentro de mim e me elevaram, me jogando para um novo horizonte que só existia na fantasia de uma vida quebrada.

E eu voo, com todas as cicatrizes daquelas feridas que já não doem mais, batendo as asas que acreditei estarem atrofiadas, e percebo que agora são a fortaleza que sempre precisei para existir. Existo e gozo da existência que já não resiste mais: apenas se desnuda e dança ao som da despedida que anuncia um novo viver.

  

A mulher que mancava - Por Betina Pilch




Querida narradora que outrora me deu vida,

Escrevo-te com o peso do asfalto ainda impregnado na alma, mas com os olhos, finalmente, lavados pelo céu.

Tu me viste como uma aparição manca, um vulto obstinado que ignorava a própria carne exposta ao chão. Mas o que viste naquela esquina não era uma mulher — era um projeto de obediência. Durante décadas, eu fui o eco de vozes que nunca tiveram rosto. "Chegue lá", diziam. "Ande reto", ordenavam. E eu, na minha estranha cegueira de quem só olha para baixo, acreditava que a estrada era o meu destino, quando, na verdade, a estrada era apenas a minha punição.

Acostumei-me à cicatriz circular, ao mofo da memória, ao sangue coalhado, à coreografia do cansaço, a tudo aquilo que já não surpreendia.

Queres saber quem sou, além daquela que te fez encarar os próprios pés?

Eu sou a filha da urgência. Herança do invisível.  Cresci em uma casa onde o agora não era seguro, porque quando se nasce da urgência, o presente é apenas um obstáculo entre tu e a próxima fuga. 

Vim de lá, onde o silêncio era uma regra de etiqueta e o desejo era um pecado que se escondia debaixo do tapete. Meus pés sempre foram "grandes demais", como eu te disse. Grandes para os sapatos que me compravam, grandes para os espaços que me permitiam ocupar, grandes para as expectativas estreitas de quem me criou. 

Tentei, por muito tempo, amputar partes de mim para caber nos sapatos de outras pessoas. Tentei caminhar a marcha dos outros e senti o hálito quente do prazo, a febre do passo, o deserto da espera. 

Aquele caminhar manco, Betina, não era dor. Era anestesia. Eu me acostumei tanto com o "precisar" que o "querer" morreu de inanição dentro de mim. O sapato que tu seguravas com tanto zelo — aquele fetiche de perfeição interrompida — nunca poderia ser meu. Ele era delicado demais para a minha brutalidade de sobrevivente.

Sabe o que senti quando sentei ao teu lado e olhei para cima? Senti o susto de perceber que o mundo não tem teto. Olhar para os buracos da rua era seguro; o buraco é previsível, ele tem fim. O céu, não. O céu exige que a gente tenha prumo, e eu só tinha desequilíbrio. Mas ao sentar ao teu lado, naquela calçada diante da rua esburacada, senti a fratura na minha fantasia e submergi do efeito de toda anestesia. 

“Eu sou”, pensei. Não apenas existo, sobrevivo e manca caminho. “Eu sou, mas quem?”. E ao lembrar do meu ser e questioná-lo, te vi, te enxerguei. 

E eu te devolvi o sapato porque percebi, naquele instante, que tu estavas tão ocupada em curar a minha ferida que não tinhas sentido o sangue escorrendo dos teus próprios calcanhares. É mais fácil carregar o sapato alheio do que admitir que estamos descalças, não é? Tu te tornaste a minha guardiã para não ter de ser a tua própria guia.

Hoje, não sei se cheguei a "algum lugar". A verdade é que parei de andar pelas mesmas ruas que outrora eu conheci. 

Descobri que meus pés grandes gostam da grama, do frio da pedra e, principalmente, do direito de não sair do lugar. A liberdade não é a estrada; a liberdade é a cadeira na esquina, o riso do próprio absurdo e a coragem de dizer: eu não vou a lugar nenhum porque eu já estou aqui.

Espero que o sapato vermelho te sirva, Betina. Mas espero, mais ainda, que um dia tu tenhas a audácia de arrebentá-lo de novo, só para ver como é caminhar sentindo o mundo de verdade. E que se for preciso parar, que tu aprendas a vestir as pausas.

Com carinho e com a aspereza de quem abandonou a si mesma numa esquina para se reencontrar em uma nova estrada,

A Mulher que Mancava.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Noite solar - Por Betina Pilch

 


Um livro aberto na memória do ser. 

Livro este que um dia fora fechado e enterrado num bosque de esperanças mortas. Esperanças que outrora verdejaram na paisagem que aqueles olhos, vestidos com lentes de poesia, tanto vislumbraram.

Olhos que liam a alma dos sonhos e escreviam na terra molhada capítulos que ainda sonhava viver.

Terra que carregava páginas de um corpo caído, prostrado e ferido, que numa noite ensolarada, cansara de escrever.

Uma mulher cansada que rasgou todas as páginas que escrevera - não enxergava mais beleza no livro que um dia ousara fantasiar.

Uma mulher. Um livro. Um bosque. Uma vida com tantas mortes causada pelos recortes de mãos que um dia ela se dispôs a afiar. 

Naquele bosque, numa noite de lua cheia, jurou que podia ouvir a sinfonia desafinada dos cortes que um dia sofrera. E do sangue fez tinta. E desenterrou o livro em tantas partes rasgado. E pintou cada folha sorrindo como criança que sorri diante de um livro de colorir. 

Um livro aberto na memória do ser. Livro escrito na terra molhada por um céu que chora ao ser queimado pelas chamas que iluminam a noite. Uma noite solar. Uma noite solar que sola as sinfonias das páginas rasgadas que, agora pintadas, emitem novos sons. Melodias pintadas. Páginas cifradas.

Páginas cifradas um dia tocadas por quem foi capaz de ser tocado por cada nota entoada. 

Uma canção cantada na memória do ser.

Canção essa que um dia fora silenciada e esquecida num quarto de inércias desordenadas. Inércia que outrora confortara aquele, cujos olhos, vestidos de crenças, estavam cansados, mas não deixaram um segundo sequer de acreditar. Olhos que ouviam cada esperança enterrada, apesar da canção silenciada, esquecida no quarto ao lado. Quarto que guardava toda a bagunça que ele carregava dentro de si. Bagunça que ele nunca desistiu de arrumar. 

Um homem que compôs histórias melódicas regadas pelas próprias lágrimas que humanizavam aquela alma por tanto tempo torturada que por sentir demais, não sabia como sentir. 

Um homem. Uma canção. Um quarto. Uma vida de tanta espera e busca pelo infinito de si mesmo. Infinito que lhe esperava bem ali, naquele bosque. 

Um bosque. Um homem. Uma mulher. 

Um livro aberto e uma canção cantada na memória do ser. 

Seres que finalmente eram. Eram dois em um numa noite de sol pintada com estrelas e notas musicais. 

Finalmente viviam uma história contada, uma canção entoada, que nunca imaginaram ler ou escutar. 

Eram vida - vivendo a possibilidade de ser. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Julgamento Vulgaris - Por Betina Pilch.

 


Era tarde de finados quando ela anunciou sua liberdade. Despiu-se dos medos, rasgou a hipocrisia, arrancou suas máscaras, quebrou as verdades nas quais não acreditava mais e vestiu-se de coragem, calçou sapatos vermelhos e correu antes que lhe amputassem os pés.

Nua de passado, ela enfrentou a vida sem fugir – e viveu intensamente tudo que era direito de uma pessoa viva viver.

Vestida de presente, ela dançou sobre os cacos da própria alma quebrada. A cada passo, a cada compasso, a cada ritmo, sentia sua alma afiada sendo enfiada em si mesma. Alma quebrada, gestada fora do corpo, sendo restaurada a cada movimento, ansiando invadir aquela carne que um dia fora sua. Um parto ao contrário.

E ela dançou tantas vezes sozinha. E ela dançou com tantos pares. E ela dançou tanto quanto podia dançar. E quem não ouvia a música, julgava seus passos descontrolados. Seus passos que mais corriam do que caminhavam. Seus passos cheio de cortes e recortes. Seus passos cortados que colavam cada parte de si que um dia fora pisada.

No avesso do parto de si, a dor gritava, gemia e chorava por dentro dela. E enquanto ela se contraía e se dilatava, era chamada de vulgar por quem não entendia que se acolher depois de se expulsar de si exigia movimentos desconfortáveis. Era julgada vulgar por quem não sabia que etimologicamente isso significa ser comum. Por quem não sabia que, apesar dos esforços, não há nada de especial em quem julga o outro para aliviar o incômodo de não poder sê-lo. Que julgar também é vulgar – comum a todo ser humano. 

Julgamento vulgaris.

E, então, condenada ela foi liberta.
Coberta de si descobriu a si mesma.
Ensurdecida de dor, vociferou alívios.
Paralisada de medo, impulsionou coragens.
Expelida para fora de si, se resgatou.
Abortada, às avessas nasceu.
E das cinzas renascidas, incendiou e nunca mais morreu.

Agora caminhava sobre cicatrizes que não doíam nem feriam mais.
Caminhava segura dentro de si mesma. Cheia de alma. Vestida de fogo que ardia e acendia as intensidades da própria vida.
E continuava correndo para que não lhe amputassem os pés.
E continuava dançando – para não esquecer o que um dia gestou para hoje poder existir.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Vivemos - Por Betina Pilch

 


Era quase meia noite quando eu precisei ir,

mas ainda era cedo quando decidi ficar.

Era anos oitenta quando você chegou 

e não fazia sentido eu estar lá.

Você sorriu sem me olhar nos olhos,

eu estava atenta ao seu olhar.

Naquela noite em que eu nem nascera 

você me deu o primeiro abraço, 

e eu que achava meu coração de aço 

senti que sangrava vitalidade mais uma vez.

E por isso voltei ao mesmo lugar 

duas noites depois para encontrar 

a vida que se perdera nas noites em que não dormi.

Mas, desperta naquela noite, 

te reconheci

de vidas passadas 

onde ainda não morri 

onde ainda não morremos.

Sobrevivemos 

ao tempo.

Habitamos 

novamente esse espaço.

E em meio a tantos caos e cacos 

sangramos sorrisos inteiros 

porque só sangra e sorri quem vive. 

Porque sorriso é uma cicatriz feliz

aberta na face de quem ainda acredita

apesar de tudo.

Acreditamos.

E por acreditar,

Vivemos.

Mesmo verbo.

Dois tempos verbais.

Dois sujeitos.

Passado.

Presente.

Eu.

Você.

Nós 

Entrelaçados 

num relógio que conta as horas errado.


Era quase meia noite quando precisei ir,

mas ainda era cedo quando decidi ficar.

Olhei nos teus olhos 

Te vi me olhar 

E após um beijo

virei as costas, 

mas todos os dias escolho voltar - 

e ficar

e ficar

e ficar

mais um dia

mais uma noite

mais uma vez.

Afinal,

era uma vez

dois sujeitos 

uma história

uma narrativa. 

Que agora apenas 

tecem realidades 

tragam memórias 

bebem prazeres

suspiram sentimentos.

E nessa introdução real 

se perguntam:

É dessa vez?


Era quase meia noite quando precisei ir.

Mas ainda é cedo pra eu pensar no fim. 


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Crenças - Por Betina Pilch


Ela já não acreditava mais em nada

Apesar de acreditar em muita coisa.

Abraçava suas crenças 

E alimentava suas descrenças 

Na mesma medida.

Se dizia crente

Em si mesma e em tudo.

Mas era ateia 

De tudo aquilo que a distanciava de si.

Queria não acreditar,

Mas por instinto acreditava.

Queria acreditar 

Mas por acaso não conseguia.

Dizia que não teria mais fé

Naquilo que pudesse lhe fazer sofrer.

Mas acreditava que a dor 

Humanizava 

E não se permitia acreditar 

Que um dia se desumanizaria.

Então,

Em lapsos de insanidade 

Atravessava a cidade 

E se humanizava

Sem medo do que a humanidade significava.

Acreditava que era melhor ficar fechada,

Mas desacreditava que pudesse ser algo

Além de liberdade escancarada.

E por isso se abria 

como porta sem fechadura 

E não temia os assaltos 

Nem as varreduras. 

Levantava os braços e se rendia 

E como mulher destemida

Sorria com ousadia 

Permitindo que levassem o melhor de si.

Se por loucura ou consciência 

Quisessem lhe devolver o que foi levado 

Saberiam o endereço do destinatário,

Mas caso preferissem se desfazer 

Falta não faria.

De onde abriu as portas 

Muita mais ela tinha 

Pra dar.

Que lhe roubassem o que vissem:

O mais valioso não era tão fácil enxergar.

Por isso, mesmo diante das violências,

Não se munia de nada 

Além da sua verdade.

Se despia 

Ficava nua 

Transparente 

Indefesa

E atravessava a rua 

O aparente 

Escoltada por si mesma.

Nada além de si.

Porque não acreditava mais em nada.

Mas era preciso continuar acreditando em tudo.

E por isso se jogava no escuro:

sendo luz, 

sem medo de se perder,

- com medo de se prender - 

a espera de nada 

para se surpreender. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Par(t)ir - Por Betina Pilch

 


Eu preciso renascer 

De mim 

Pra me sentir nova

De novo

Fora do meu corpo 

E assim 

Me reconhecer 

Por dentro 

E ser 

Quem eu conheço

E desconheço 

Na mesma medida 

Porque eu me conheço

E sei 

Que não sei nada sobre mim

Mas quando acho que sei

Quando me conheço demais

E acho que já descobri tudo 

Me desconheço 

E preciso de um recomeço

Pra aceitar que sou

Mais mistério do que gostaria

De ser

Por isso

Se eu pudesse

Iria embora de mim 

Mas quanto mais me afasto

Mais perto fico

Do que quero fugir 

As fugas do eu 

São presentes de si

E a cada recomeço

Esqueço

Que há um fim

Pra mim 

Recomeço 

E reconheço 

Que não sei nada 

E quanto menos sei 

Mais me encaixo 

Desconfortável

Dentro de mim 

Renasço 

Porque caibo

Aqui dentro 

Meus gestos

Me gestam

E às vezes eu parto

Após o parto 

Mas sempre retorno

E olho pra mim 

Me perguntando 

Qual será a próxima vez

Que irei me parir. 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Desejo - Por Betina Pilch

 


A bola 8 foi encaçapada e ela riu - pois havia perdido a partida. E de perdas ela entendia bem. De partidas também. 

Perdia a hora, a noção, o juízo, o limite. E, cada vez que perdia, ela ria, porque havia aprendido que o choro deveria ser guardado para ocasiões especiais. 

O riso não.


O riso poderia ser dado, distribuído, desperdiçado. Sempre haveria mais uma dose de sorriso para ser experimentada. Algo dentro dela lhe dizia que a fonte de sorrisos era inesgotável. Por isso ela não poupava, não economizava. Gostava de sorrir e fazer todos a sua volta rirem com ela também. 

E, naquele bar, ao som de Iron Maiden, ela riu ao perceber que sabia fazer muitas coisas, mas que jogar sinuca não era uma delas.


Olhou para os seus amigos que a desejavam. Encarou todos os homens que ali estavam. E num diálogo com a própria mente se perguntou quem era, aonde estava e o que desejava naquela noite. 


Desejo. 


Ela sempre ouvia os próprios desejos. Aprendera desde cedo a não passar vontade de nada. Se pudesse realizar, realizaria. 

Mas Freud dizia que a realização do desejo só era possível na fantasia. Na realidade não passava de histeria. 

E ela ria - como histérica que era. 


Naquela noite ela ria porque sabia o que desejava. 

Ele.

Ela desejava ele. 

E ela ria, porque até aquela noite ela nunca imaginara esse desejo.

Ele, de quem ela nunca se aproximara até aquele momento.

Esse desejo nunca habitara as fantasias da sua psique e, subitamente, o desejo estava ali - numa fantasia nascida em sua mente, dentro de um bar, após um longo expediente de trabalho. 


Desceu as escadas. Pegou um chopp. Viu ele rindo. E riu novamente. 

Entendera que o desejo havia surgido do riso. Do riso que surgia dele. 

Ele gostava muito de sorrir. Seu sorriso o precedia. O iluminava. E, naquela noite, rindo com ele, entendeu que queria os lábios dele nos dela.


Uma noite regada a cerveja e sorrisos. Álcool e gargalhadas. Beijos e cigarros. Loucuras e diálogos. 

Uma noite. Uma mulher. Um homem. Alguns caras. 


Um carro cheio de gente. 

Gentes com desejos. 

Realidades histéricas. 


E do que se sucedeu ela não lembra muito bem. Sabia apenas que o desejo não fora possível apenas na fantasia. Porque sua vida era uma grande histeria com possibilidades absurdas. 


Não passara vontades. 

Seguia sendo ela.

Desobedecendo ou comprovando Freud.

Se era desejo ou histeria?

Fazia tanto que tanto fazia. 


Mas acordou rindo - ao lado de quem ela desejara. 

domingo, 31 de julho de 2022

Cacos de mim - Por Betina Pilch

 


Não escreva, não escreva, não escreva…

Minha mente brada e insiste.

E eu tento. Eu me castro. Seguro meu punho, meus braços. E não contenho os dedos teimosos que gritam:

Escreva, escreva, escreva…

E meu caos me pergunta o porquê de tantas ordens e o porquê de tantas relutâncias.

E eu nada respondo, porque me mandaram não me explicar nem para os outros, nem para mim.

E minha alma silencia. Nada grita. Nada ordena. Nada impõe. 

E eu pergunto: 

Silêncio? Por quê?

E ninguém responde. 

Partes de mim só perguntam. 

Partes de mim não respondem.

E eu me perco. E na dúvida escrevo.

Escrevo para não responder. Escrevo para não perguntar. Escrevo por escrever. Escrevo para me legitimar.

E organizo minha mente. Abraço minha alma. Domino meus dedos. Respiro aliviada: sou dona de mim.

Quero escrever, quero escrever, quero escrever…

Eu mesma repito para mim.

Preciso escrever, preciso escrever, preciso escrever…

Sorrio enfim.

E me olho e me enxergo e me quero sendo eu. E eu me preciso de mim.

E em meio a tantos gritos e perguntas e respostas entendo que o barulho camufla o vazio. E a escrita preenche os buracos que não quero encarar.

E não sei mais se quero escrever.

Porque toda vez que escrevo, me mostro e me mostrando espanto quem lê. E a pessoa vai embora: porque me lendo, lê a si mesma, se encontra nas minhas linhas e se perde em mim.

Porque toda vez que escrevo, mostro o outro e o outro se mostrando, espanta quem escreve. E eu vou embora: porque lendo o outro, leio quem ele é, o encontro nas minhas linhas e me perco em outro alguém. 

E assim, vamos embora um sem o outro. Ficamos apenas com nós mesmos. Retornamos para onde pertencemos - porque no final não pertencemos a ninguém. 

E então eu lembro por que minha mente brada insistente:

Não escreva, não escreva, não escreva…

E também entendo por que meus dedos não contidos gritam:

Escreva, escreva, escreva…

Minha alma silenciou.

Silenciou porque sabia que sou feita de escolhas.

Que não obedeço a ordem nenhuma.

Que sempre faço o que quero.

E escrevo até sem querer.

Escrevi. E chorei desesperada: dona do que?

Não quero escrever, não quero escrever, não quero escrever…

Desabo enfim.

Não quero me enxergar. Não me quero sendo eu. E ainda assim preciso de mim.

Me legitimei e silenciei: é hora de encarar meus buracos e o meu vazio.

sábado, 23 de julho de 2022

Caçadora - Por Betina Pilch



Depois do vermelho, havia o verde. Pontos de vista diferentes. O verde não enxergava o incêndio, nem sangue, nem dor. Tampouco chamas e medos. Apenas caminhos. Caminhos repletos de pássaros que passavam. Passáros que nem sempre eram animais. Pássaros que nem sempre saiam voar ou pousar.

E o verde olhava tudo, apreciava tudo. E, de repente, viu uma caçadora de poesia.

Quando era um ser masculino ele olhava e pensava: caçador, aquele que caçava dores. Mas quando viu aquela menina caçadora, percebeu que dor, de repente, terminava diferente, lembrava mais dourado do que dor. E ela caminhava, caminhava tanto e começou a perceber a sua força. Não para destruir ou causar medo, mas para enfrentar e apreciar cada feixe de luz, cada caminho aberto e, até mesmo, cada caminho fechado.

Ela passava por todos os cantos, por todos os ângulos, por todas as arestas, e se deparava com muitos poemas. Nem sempre traçados em versos, nem sempre estruturados em linhas e, na  maioria das vezes, nem rimas tinham. E se manifestavam  naquelas pernas fracas, que davam três passos e precisavam se sentar. Pernas que não eram dela, mas a inspiravam. Porque  quando se sentavam, não deixavam de caminhar, porque aquelas pernas estavam cansadas, mas a alma continuava disposta, disposta a continuar caminhando.

Às vezes, aquela alma observada alçava voos tão altos, que a caçadora acreditava que não podia alcançar de fato. Pensava que era preciso caminhar muito mais para um dia ter tanta força nas pernas, tanta força nas asas, como aquelas poesias com as quais ela se deparava em meio aquele verde que a cercava. Só os anos, só o tempo, só a experiência de toda uma vida, só as dores que um dia os caçadores tentaram caçar ali, fariam com que as pernas e as asas tivessem firmeza e persistência para continuarem caminhando e voando.

E a caçadora sorria, sorria com cada bom dia, com cada dia bom. Sorria porque, em meio a todo aquele verde, a vida era bonita, mais bonita do que o sol que brilhava, mais bonita do que as árvores que a olhavam, mais bonita do que a estrada que ela percorria.

A vida era feita de encontros. E esses encontros faziam a vida valer a pena, faziam as trilhas serem mais iluminadas, mesmo quando não havia sol nenhum. Mesmo quando o único sol só poderia raiar dentro dela mesma. Mesmo quando só havia o brilho da poesia que ela enxergava, da poesia que ela apreciava, da poesia que ela caçava.

E, mesmo cansada, mesmo ofegante, ela caminhava. Ela não desistia de caminhar, porque ela era caçadora. Buscava pelo dourado. Pelo lindo dourado. Um dourado que não se via, um dourado que não se caçava. Um dourado que apenas se sentia.

E ela sentia tanto, que começou a sorrir e não conseguia conter o riso. Assim, percebeu que o dourado estava ali: nos lábios, nos dentes, no sorrir. Um sorrir que não era mais só ir. Um sorrir em que ela finalmente encontrara o “R” que faltava. E ela entendeu que era isso que ela procurava. Caçadora: caçava o dourado. E o dourado era o “R” que faltava naquele imenso quebra-cabeça que era a vida. Era a pecinha que se encaixava e fazia tudo fazer sentido. E sentido era apenas a conjugação do verbo sentir.

E ela se sentou pela primeira vez, depois de tanto percorrer, igual aquelas pernas que ela havia apreciado no começo dos passos. Igual aquele caminhar que se sentava para deixar a alma voar. Ela finalmente se sentou - mas não cansada, e sim satisfeita por ter encontrado aquilo que precisava.

E, pela primeira vez, a caçadora voou e alcançou a si mesma.