Texto inspirado no livro "Boca do Mundo" de Dia Bárbara Nobre
- da necessidade de sentir Urânia, Abigail e as demais personagens mais um pouquinho.
Depois
que Hermínia partiu pela segunda vez, a casa ficou diferente. Não vazia. As
casas nunca ficam vazias quando aprendem os nomes de quem passou por elas. O
que mudou foi o peso do ar.
Durante
anos me acostumei a ouvir presenças caminhando pelos corredores. Algumas eram
lembranças. Outras não. Havia passos que pertenciam à madeira, passos que
pertenciam ao vento e passos que pertenciam aos mortos. Depois que abracei
minha filha e a senti dissolver-se entre meus braços feito água devolvida ao
rio, alguma coisa encontrou repouso. Até os silêncios passaram a respirar de
outro jeito.
Eu
mesma já não carregava os dias como quem transporta pedras dentro do peito. A
dor não foi embora. A dor nunca vai. Acontece que ela envelhece junto da gente.
Aprende a sentar na varanda. Aprende a olhar a chuva. Aprende a ficar quieta.
Foi
nessa época que Teresa e Bamila decidiram se casar.
Urânia
inteira pareceu florescer. As mulheres passaram semanas costurando tecidos,
preparando vinhos e pendurando fitas nas árvores do vale. Eu observava tudo
sentada sob a sombra das videiras. Os cachos amadureciam lentamente acima da
minha cabeça enquanto as duas atravessavam os dias com aquele brilho que só
existe quando alguém encontra um lugar seguro para descansar a própria alma.
Na
manhã do casamento, Teresa chorou antes mesmo de vestir o vestido. Disse que
não acreditava merecer tanta felicidade. Bamila segurou seu rosto entre as mãos
e respondeu que felicidade não era prêmio. Ainda hoje me lembro da forma como o
sol atravessava seus cabelos. Algumas pessoas nascem com uma espécie de
claridade dentro dos olhos. Bamila era assim.
Quando
as vi trocando alianças diante das mulheres de Urânia, tive a estranha sensação
de estar assistindo a uma porta se fechar. Não uma porta ruim. Uma dessas
portas antigas que se fecham devagar quando a tempestade finalmente passa.
Meses
depois chegou a menina. Pequena. Magra. Os joelhos sempre ralados. Os cabelos
cresciam em todas as direções possíveis. Foi Teresa quem a encontrou primeiro,
abandonada numa estrada de barro depois de uma enchente. Quando a criança
chegou à cidade, ninguém perguntou de onde vinha. Em Urânia, às vezes as
pessoas simplesmente chegam. Como as chuvas. Como os pássaros. Como as sementes
carregadas pelo vento. Bamila a pegou no colo. A menina segurou um pedaço do
seu colar e não soltou mais. Foi assim que escolheu a própria família. Chamaram-na
Hermínia. Algumas mulheres acharam cedo demais. Eu não. Certos nomes não
pertencem aos mortos. Pertencem ao caminho.
A
nova Hermínia cresceu correndo pelos mesmos lugares onde sua avó um dia correu.
Mas havia diferenças. A terra repetia seus gestos sem repetir seu destino. Ela
conversava sozinha perto do rio. Via coisas que mais ninguém via. Encontrava
objetos perdidos enterrados havia anos. Sabia quando alguém chegaria antes de
qualquer notícia. Às vezes acordava durante a madrugada para descrever sonhos
que ainda não tinham acontecido.
Quando
completou sete anos, apareceu na minha varanda trazendo uma serpente desenhada
num pedaço de papel.
—
Ela pediu para eu fazer, bisa.
Meu
coração reconheceu o desenho antes dos olhos.
A
Encantada.
—
E o que ela disse?
A
menina me olhou demoradamente e, em seguida, com um sorriso me abraçou dizendo:
—
Que você anda preocupada demais, viu dona Abigail?
Ri.
Mesmo depois de tantas décadas, aquela criatura continuava me vigiando. Ou me
amando. Talvez fosse a mesma coisa.
Os
anos seguiram passando. As videiras envelheceram. Eu envelheci junto delas.
Muitas mulheres chegaram. Muitas partiram. Algumas deixaram filhas. Outras
deixaram histórias. Urânia continuava crescendo feito raiz de árvore. Não para
cima. Para dentro. Foi assim que entendi o segredo daquela cidade: não éramos
uma comunidade - éramos memória criando morada.
Na
última noite da minha vida, a chuva veio mansa. Daquelas chuvas finas que
parecem cair apenas para lembrar que o céu existe. Eu já não conseguia levantar
da cama. Minhas mãos haviam ficado leves demais e meu corpo parecia uma roupa
antiga prestes a ser dobrada e guardada. A pequena Hermínia dormia ao meu lado.
Tinha treze anos. Os cabelos espalhados pelo travesseiro pareciam raízes
procurando terra. Teresa e Bamila cochilavam numa cadeira perto da janela,
vencidas pelo cansaço de vigiar alguém que amavam. Fiquei observando as três. E
pela primeira vez em muitos anos não procurei os mortos, nem os ausentes.
Passei
boa parte da vida conversando com lutos. Meu pai. Meu filho. Hermínia. As
mulheres que a terra havia guardado antes de mim. Havia dias em que eu sentia
suas presenças mais claramente do que sentia o próprio vento atravessando as
videiras. Durante muito tempo a saudade foi uma espécie de casa onde morei.
Mas
naquela noite meus olhos encontravam apenas os vivos.
Talvez
fosse esse o verdadeiro milagre: não carregar mais o passado como quem carrega
um corpo nos braços, mas como quem carrega uma semente.
Foi
então que a vi.
Sentada
no canto do quarto.
A
Cabocla Encantada.
Como
sempre.
Como
desde o começo.
Como
antes mesmo de mim.
Não
precisei perguntar se era hora. As mulheres da minha família sempre souberam
reconhecer quando a noite vinha buscá-las.
Olhei
para a menina adormecida. Depois para a Cabocla.
Pedi
que não a deixasse sozinha.
Minha
voz saiu baixa, quase um sopro, mas ela ouviu.
Disse
que a menina precisaria dela. Que herdaria muita coisa. As visões. A memória.
Os caminhos. Os nomes. Pedi apenas que não herdasse os nossos pesos.
A
Encantada permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois sorriu. Era um
sorriso pequeno. Antigo. Um sorriso que parecia existir desde antes das
montanhas, desde antes dos rios encontrarem seus leitos. E naquele instante
compreendi algo que me escapara durante toda a vida: nenhuma geração recebe
exatamente a mesma herança.
A
terra ensina.
A
água modifica.
O
tempo lapida.
A
Boca do Mundo se abre a novas narrativas.
A
menina carregaria nossos nomes, mas pisaria na terra com os próprios pés.
Carregaria nossas histórias, mas escreveria as próprias. O sangue não é um
espelho. É um rio. E nenhum rio passa duas vezes pelo mesmo lugar.
A
Encantada se levantou e caminhou até a cabeceira da cama. Com uma delicadeza
que jamais vi nos seres humanos, pousou a mão sobre os cabelos da criança.
Lá
fora, ouvi as videiras balançando. Ou talvez fossem vozes. Nunca aprendi a
distinguir. Pensei em tudo que havia perdido ao longo da vida. Pensei no filho
que não cresceu. Na filha que precisei devolver ao mundo para que pudesse
descansar. Nas mulheres que enterrei. Nos anos que a vida arrancou de mim sem
pedir licença. E pela primeira vez não senti vontade de chamar nada de volta. Porque,
olhando para aquela menina adormecida, compreendi que nenhuma dessas coisas
havia desaparecido. Tinham apenas mudado de forma.
As
perdas que me atravessaram agora corriam adiante de mim. Estavam nos olhos
daquela criança. Nas mãos de Teresa. Na coragem de Bamila. Nas videiras que
continuariam dando frutos quando eu já fosse apenas lembrança. Estavam na terra
de Urânia, que aprendera a guardar nomes sem transformá-los em ruínas.
Fechei
os olhos. E pela primeira vez não senti medo de desaparecer, afinal percebi que
as pessoas não permanecem através dos corpos. Nem através das fotografias. Nem
através das lápides. Permanecem através daquilo que continuam semeando umas nas
outras.
Quando
meu último suspiro deixou o peito, a chuva ainda caía sobre Urânia.
E
em algum lugar do vale, uma menina sonhava com uma serpente de fogo abrindo
caminho entre as estrelas.
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