quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Andar com som - Por Betina Pilch



Eu nunca mais escrevi textos em prosa. Toda a inspiração se derramava em versos fragmentados - eu havia perdido a capacidade de dialogar comigo e não havia alguém para me ouvir. E a cada poesia manifestada, eu me sentia perdida e casada de (versi)ficar.

Quando você chegou, eu era resquícios de uma poesia insistente que teimava em existir quando nada mais existia e, diante da inexistência de tudo, eu me habituava a ser verso pulsando num ritmo solitário - eu me recusava a não ser poema mesmo diante do vazio.

Você bateu à porta. À porta do vazio. E eu, que não tinha mais nada a perder, abri. Quando te vi, uma voz me dizia que não era a primeira visita - e de forma alguma seria a última. Eu já te conhecia e sabia que era você - e, por isso, te convidei a entrar. 

Tua voz me falava da vida que um dia eu esqueci de viver. Teus olhos carregavam humanidades que um dia eu lutei para não perder. Teu sorriso cantava a melodia que outrora eu mesma compus. Tua existência era o encontro há tanto tempo por mim esperado.


Naquela noite eu lembrei que visita você não era. Você não havia chegado. Você havia voltado - para morar em mim. E quando você quis se despedir, eu te dei a chave da minha alma através de um beijo (e você agradeceu).

A poesia floresceu. Olhei para cada verso e vi um jardim de metamorfoses - se apresentou como ceifador, mas transformou cada morte em vida. 

E a vida sorriu pra mim - ela havia nos preparado um para o outro. Ela havia semeado nosso grande (re)encontro. E eu sorri pra vida quando sorrimos juntos. 


E ri ao lembrar que um dia eu me recusei a ver beleza no “era uma vez”, critiquei o verbo no passado e achava que se era, não podia ser mais. Mas, depois de tantos contos de fadas lidos e sonhados, finalmente eu entendi. Era uma vez. Era - porque foi. Sempre foi você. Do passado para o presente rumo ao futuro: sempre foi você. Você é a minha vez de ser feliz. De ser feliz pra sempre. 

Entendi a verdadeira magia dos clichês repetitivos dos contos de fadas quando ouvi teu nome. Quando ouvi teu nome e percebi que a poesia que você é começava ali: no caminho que você trilhou até mim. 

E por isso teu nome carrega os sons do verbo andar: você andou uma vida cantando em busca de mim. E cada passo distante ecoou melodias que ritmaram todas as minhas poesias que te ouviam mesmo sem você saber. 


E hoje, andando ao seu lado, ouço a melodia do seu coração e escrevo nossa história sabendo que você nunca mais irá embora - porque cada passo gerou o compasso que faz nossa alma dançar. E nessa dança eu te abraço e me desarmo em teus braços sabendo que não vou me machucar.

Escrevo sobre você e sobre seu andar cheio de som e agradeço por poder ser poesia que finalmente alguém sabe ler. 


Eu nunca mais escrevi textos em prosa - até ter você para prosear uma vida comigo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Vivemos - Por Betina Pilch

 


Era quase meia noite quando eu precisei ir,

mas ainda era cedo quando decidi ficar.

Era anos oitenta quando você chegou 

e não fazia sentido eu estar lá.

Você sorriu sem me olhar nos olhos,

eu estava atenta ao seu olhar.

Naquela noite em que eu nem nascera 

você me deu o primeiro abraço, 

e eu que achava meu coração de aço 

senti que sangrava vitalidade mais uma vez.

E por isso voltei ao mesmo lugar 

duas noites depois para encontrar 

a vida que se perdera nas noites em que não dormi.

Mas, desperta naquela noite, 

te reconheci

de vidas passadas 

onde ainda não morri 

onde ainda não morremos.

Sobrevivemos 

ao tempo.

Habitamos 

novamente esse espaço.

E em meio a tantos caos e cacos 

sangramos sorrisos inteiros 

porque só sangra e sorri quem vive. 

Porque sorriso é uma cicatriz feliz

aberta na face de quem ainda acredita

apesar de tudo.

Acreditamos.

E por acreditar,

Vivemos.

Mesmo verbo.

Dois tempos verbais.

Dois sujeitos.

Passado.

Presente.

Eu.

Você.

Nós 

Entrelaçados 

num relógio que conta as horas errado.


Era quase meia noite quando precisei ir,

mas ainda era cedo quando decidi ficar.

Olhei nos teus olhos 

Te vi me olhar 

E após um beijo

virei as costas, 

mas todos os dias escolho voltar - 

e ficar

e ficar

e ficar

mais um dia

mais uma noite

mais uma vez.

Afinal,

era uma vez

dois sujeitos 

uma história

uma narrativa. 

Que agora apenas 

tecem realidades 

tragam memórias 

bebem prazeres

suspiram sentimentos.

E nessa introdução real 

se perguntam:

É dessa vez?


Era quase meia noite quando precisei ir.

Mas ainda é cedo pra eu pensar no fim. 


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Crenças - Por Betina Pilch


Ela já não acreditava mais em nada

Apesar de acreditar em muita coisa.

Abraçava suas crenças 

E alimentava suas descrenças 

Na mesma medida.

Se dizia crente

Em si mesma e em tudo.

Mas era ateia 

De tudo aquilo que a distanciava de si.

Queria não acreditar,

Mas por instinto acreditava.

Queria acreditar 

Mas por acaso não conseguia.

Dizia que não teria mais fé

Naquilo que pudesse lhe fazer sofrer.

Mas acreditava que a dor 

Humanizava 

E não se permitia acreditar 

Que um dia se desumanizaria.

Então,

Em lapsos de insanidade 

Atravessava a cidade 

E se humanizava

Sem medo do que a humanidade significava.

Acreditava que era melhor ficar fechada,

Mas desacreditava que pudesse ser algo

Além de liberdade escancarada.

E por isso se abria 

como porta sem fechadura 

E não temia os assaltos 

Nem as varreduras. 

Levantava os braços e se rendia 

E como mulher destemida

Sorria com ousadia 

Permitindo que levassem o melhor de si.

Se por loucura ou consciência 

Quisessem lhe devolver o que foi levado 

Saberiam o endereço do destinatário,

Mas caso preferissem se desfazer 

Falta não faria.

De onde abriu as portas 

Muita mais ela tinha 

Pra dar.

Que lhe roubassem o que vissem:

O mais valioso não era tão fácil enxergar.

Por isso, mesmo diante das violências,

Não se munia de nada 

Além da sua verdade.

Se despia 

Ficava nua 

Transparente 

Indefesa

E atravessava a rua 

O aparente 

Escoltada por si mesma.

Nada além de si.

Porque não acreditava mais em nada.

Mas era preciso continuar acreditando em tudo.

E por isso se jogava no escuro:

sendo luz, 

sem medo de se perder,

- com medo de se prender - 

a espera de nada 

para se surpreender. 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Desejo - Por Betina Pilch

 


A bola 8 foi encaçapada e ela riu - pois havia perdido a partida. E de perdas ela entendia bem. De partidas também. 

Perdia a hora, a noção, o juízo, o limite. E, cada vez que perdia, ela ria, porque havia aprendido que o choro deveria ser guardado para ocasiões especiais. 

O riso não.


O riso poderia ser dado, distribuído, desperdiçado. Sempre haveria mais uma dose de sorriso para ser experimentada. Algo dentro dela lhe dizia que a fonte de sorrisos era inesgotável. Por isso ela não poupava, não economizava. Gostava de sorrir e fazer todos a sua volta rirem com ela também. 

E, naquele bar, ao som de Iron Maiden, ela riu ao perceber que sabia fazer muitas coisas, mas que jogar sinuca não era uma delas.


Olhou para os seus amigos que a desejavam. Encarou todos os homens que ali estavam. E num diálogo com a própria mente se perguntou quem era, aonde estava e o que desejava naquela noite. 


Desejo. 


Ela sempre ouvia os próprios desejos. Aprendera desde cedo a não passar vontade de nada. Se pudesse realizar, realizaria. 

Mas Freud dizia que a realização do desejo só era possível na fantasia. Na realidade não passava de histeria. 

E ela ria - como histérica que era. 


Naquela noite ela ria porque sabia o que desejava. 

Ele.

Ela desejava ele. 

E ela ria, porque até aquela noite ela nunca imaginara esse desejo.

Ele, de quem ela nunca se aproximara até aquele momento.

Esse desejo nunca habitara as fantasias da sua psique e, subitamente, o desejo estava ali - numa fantasia nascida em sua mente, dentro de um bar, após um longo expediente de trabalho. 


Desceu as escadas. Pegou um chopp. Viu ele rindo. E riu novamente. 

Entendera que o desejo havia surgido do riso. Do riso que surgia dele. 

Ele gostava muito de sorrir. Seu sorriso o precedia. O iluminava. E, naquela noite, rindo com ele, entendeu que queria os lábios dele nos dela.


Uma noite regada a cerveja e sorrisos. Álcool e gargalhadas. Beijos e cigarros. Loucuras e diálogos. 

Uma noite. Uma mulher. Um homem. Alguns caras. 


Um carro cheio de gente. 

Gentes com desejos. 

Realidades histéricas. 


E do que se sucedeu ela não lembra muito bem. Sabia apenas que o desejo não fora possível apenas na fantasia. Porque sua vida era uma grande histeria com possibilidades absurdas. 


Não passara vontades. 

Seguia sendo ela.

Desobedecendo ou comprovando Freud.

Se era desejo ou histeria?

Fazia tanto que tanto fazia. 


Mas acordou rindo - ao lado de quem ela desejara. 

sábado, 23 de julho de 2022

Caçadora - Por Betina Pilch



Depois do vermelho, havia o verde. Pontos de vista diferentes. O verde não enxergava o incêndio, nem sangue, nem dor. Tampouco chamas e medos. Apenas caminhos. Caminhos repletos de pássaros que passavam. Passáros que nem sempre eram animais. Pássaros que nem sempre saiam voar ou pousar.

E o verde olhava tudo, apreciava tudo. E, de repente, viu uma caçadora de poesia.

Quando era um ser masculino ele olhava e pensava: caçador, aquele que caçava dores. Mas quando viu aquela menina caçadora, percebeu que dor, de repente, terminava diferente, lembrava mais dourado do que dor. E ela caminhava, caminhava tanto e começou a perceber a sua força. Não para destruir ou causar medo, mas para enfrentar e apreciar cada feixe de luz, cada caminho aberto e, até mesmo, cada caminho fechado.

Ela passava por todos os cantos, por todos os ângulos, por todas as arestas, e se deparava com muitos poemas. Nem sempre traçados em versos, nem sempre estruturados em linhas e, na  maioria das vezes, nem rimas tinham. E se manifestavam  naquelas pernas fracas, que davam três passos e precisavam se sentar. Pernas que não eram dela, mas a inspiravam. Porque  quando se sentavam, não deixavam de caminhar, porque aquelas pernas estavam cansadas, mas a alma continuava disposta, disposta a continuar caminhando.

Às vezes, aquela alma observada alçava voos tão altos, que a caçadora acreditava que não podia alcançar de fato. Pensava que era preciso caminhar muito mais para um dia ter tanta força nas pernas, tanta força nas asas, como aquelas poesias com as quais ela se deparava em meio aquele verde que a cercava. Só os anos, só o tempo, só a experiência de toda uma vida, só as dores que um dia os caçadores tentaram caçar ali, fariam com que as pernas e as asas tivessem firmeza e persistência para continuarem caminhando e voando.

E a caçadora sorria, sorria com cada bom dia, com cada dia bom. Sorria porque, em meio a todo aquele verde, a vida era bonita, mais bonita do que o sol que brilhava, mais bonita do que as árvores que a olhavam, mais bonita do que a estrada que ela percorria.

A vida era feita de encontros. E esses encontros faziam a vida valer a pena, faziam as trilhas serem mais iluminadas, mesmo quando não havia sol nenhum. Mesmo quando o único sol só poderia raiar dentro dela mesma. Mesmo quando só havia o brilho da poesia que ela enxergava, da poesia que ela apreciava, da poesia que ela caçava.

E, mesmo cansada, mesmo ofegante, ela caminhava. Ela não desistia de caminhar, porque ela era caçadora. Buscava pelo dourado. Pelo lindo dourado. Um dourado que não se via, um dourado que não se caçava. Um dourado que apenas se sentia.

E ela sentia tanto, que começou a sorrir e não conseguia conter o riso. Assim, percebeu que o dourado estava ali: nos lábios, nos dentes, no sorrir. Um sorrir que não era mais só ir. Um sorrir em que ela finalmente encontrara o “R” que faltava. E ela entendeu que era isso que ela procurava. Caçadora: caçava o dourado. E o dourado era o “R” que faltava naquele imenso quebra-cabeça que era a vida. Era a pecinha que se encaixava e fazia tudo fazer sentido. E sentido era apenas a conjugação do verbo sentir.

E ela se sentou pela primeira vez, depois de tanto percorrer, igual aquelas pernas que ela havia apreciado no começo dos passos. Igual aquele caminhar que se sentava para deixar a alma voar. Ela finalmente se sentou - mas não cansada, e sim satisfeita por ter encontrado aquilo que precisava.

E, pela primeira vez, a caçadora voou e alcançou a si mesma.


terça-feira, 19 de julho de 2022

Era uma vez nem sempre tem finais felizes - Por Betina Pilch

 


Era uma vez uma floresta e um vermelho flamejante com potência para incendiá-la. Havia um vermelho que desejava ter essa potência, mas não enxergava isso em si mesmo.

E na floresta havia sol e noite. Luz e escuridão. Bastava apenas escolher o caminho para onde queria ir. O vermelho temeu a luz, mas não sabia por que. A origem do medo nunca era clara, apesar da chama que o vermelho carregava em si.

Naquele vermelho havia medos e coragens. Mas o medo camuflava tudo que pudesse destruí-lo - camuflava porque sabia que não tinha capacidade para exterminar o que ele temia.

O vermelho caminhava pela floresta. Preferiu a noite. Preferiu a escuridão. Lhe parecia mais atrativo, mais desafiador, mais misterioso. Na luz as coisas eram mais visíveis - o vermelho não quis enxergar. 

Fugia de enxergar até a si mesmo. Quebrava espelhos, destruía casas, devorava os perigos - exterminava com seu fogo tudo aquilo que pudesse lhe mostrar quem era, sem perceber que agindo assim, se deparava cada vez mais consigo mesmo. 

E o vermelho continuava caminhando, mesmo não enxergando nada. E havia lágrimas e sorrisos por toda aquela trilha, por todos aqueles caminhos, por todas aquelas árvores. Chorava de medo do que ia encontrar. E sorria pelo mesmo motivo. O desconhecido lhe instigava, mas também paralisava tudo. Era feito de contradições, de dicotomias. E quando nada se compreendia, sentia acalento. Explicar-se era exaustivo demais. Preferia as indagações sem respostas, afinal ouviu certa vez que problema sem solução, solucionado está. 

O vermelho ficou estático. Percebeu que tinha se perdido. Não queria reconhecer sua luz. Preferiu abraçar a cegueira do que iluminar o próprio caminho. Não sabia mais para onde caminhar. Só havia árvores e mais árvores, nenhum caminho onde pudesse pisar. E naquele momento desejou ter escolhido a luz. Não escolheu. Perdeu-se a si mesmo. E as lágrimas começaram a lhe apagar. Da potência para incendiar a floresta não sabia e, caso soubesse, não o faria com medo de se culpar. Era melhor salvar tudo do que a si mesmo - pensava. Era menos pesado apagar a si mesmo, do que flamejar e destruir tudo que lhe fazia se perder. Da sua potência para se salvar não sabia, mas a destruição da qual era capaz conhecia bem.

Chorou. Chorou muito. E naquele momento não sabia que, um dia, toda chama - se não tiver como se reacender - precisa conhecer a dor de se transformar em cinza. 

O vermelho foi se apagando. O que era flamejante agora era apenas fagulhas que não sabiam como se acender novamente - afinal, o vermelho nunca quis conhecer a si mesmo.

Ele escolheu a escuridão. Ele escolheu ser mera sombra de si mesmo. Ele não percebeu sua potência. E se apagou para sempre - sem chance de um dia se reconhecer. 

Era uma vez um vermelho que agora não é  mais.


quinta-feira, 14 de julho de 2022

Embora - Por Betina Pilch

 


Ela se abriu 

Escancarou 

Escarrou 

E errou 

Quando deixou 

Ele entrar.

Ela ia embora 

Ele disse que 

Embora 

ela quisesse ir

Ele não deixaria.

Queria ela ali 

em sua vida

vivificando quem 

ele era.

Ela disse que não 

havia era uma vez.

Ele insistiu

disse que ela 

seria feliz

ao lado dele.

Ela insistiu 

disse que ele

não seria feliz

ao lado dela.

Ele não ouviu

quando ela gritou.

Ela ouviu

cada grito dele.

Três gritos.

Três silêncios.

Ela ainda insistia 

em dizer 

que ele não saberia

o que fazer

quando a tempestade 

chegasse.

Ele insistia 

em dizer

que não tinha

medo de chuva.

Ela sabia que

quando ele se molhasse

fugiria pra se proteger.

E ela 

ficaria ali

ao relento

sem acalento

de alguém

que insistiu que ela ficasse

quando ela tentou fugir 

e ir

embora.

Não importava os emboras,

os poréns,

as conjunções 

adversativas 

ou conclusivas.

Ela sabia que 

estavam destinados

a um ponto final.

E ela

que era escritora 

fechou o livro.

Cansou de escrever

para alguém

que nunca soube ler.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Esquinas vermelhas - Por Betina Pilch


Um sapato arrebentado na esquina. Mas não qualquer sapato: um sapato vermelho. Mas não um par de sapatos, apenas um sapato vermelho arrebentado na esquina.

Quando o vi, me perguntei de quem era. Mas não apenas de quem era, mas a qual mulher pertencia. E por que um sapato de salto vermelho tão bonito estava arrebentado. Não apenas arrebentado, mas arrebentado e abandonado em uma esquina. 


Uma mulher passava por ali olhando para o chão daquela rua esburacada. Mas não qualquer mulher: a mulher dona do sapato de salto vermelho arrebentado. Mancava com um pé calçado e o outro descalço. Mancava desconfortável, mas alheia ao desconforto. Olhava para os buracos da rua, não levantava a cabeça. Olhava para o chão, mas não para os próprios pés. 

Ela passou por mim. Ela passou pelo sapato. Ela não enxergou nada além da rua e seus buracos. 

Abaixei-me. Peguei o sapato de salto vermelho arrebentado. Olhei para a mulher. Chamei-a - ela não me ouviu. 

Continuou caminhando, mancando, olhando para o chão. Ela andava como quem esquece que manca. Andava como se nunca tivesse perdido um de seus sapatos. Andava como se o desconforto fosse familiar. Andava como se estivesse acostumada à falta, à ausência.

Corri. Parei em sua frente. Parei segurando o sapato vermelho que ela perdera. Ela desviou e, ainda assim, não me olhou. 

Corri novamente. Parei em sua frente. Parei segurando o sapato vermelho que ela perdera. Coloquei o sapato diante do seu pé descalço. Ela passou por cima. Não o enxergou. 


Sentei naquela esquina com o sapato vermelho diante de mim. Inquieta me questionava por que a mulher rejeitara o sapato. Por que a mulher não desejara calçá-lo no pé descalço. Fui além: questionei por que aquela mulher continuava com um dos sapatos nos pés e o outro descalço, mancando por ruas esburacadas, olhando para o chão sem levantar a cabeça. 


“Estou olhando para baixo, olhando para o caminho que estou trilhando, é preciso cuidado para não tropeçar e cair. Eu preciso continuar, apenas isso. Eu preciso dar atenção à estrada. Eu preciso chegar a algum lugar, não posso desviar o olhar, caso eu me distraia, eu me perco” - ela disse, de repente, para si mesma. 

Fiquei encarando seu caminhar manco. Eu não compreendia. Mas ela não parecia precisar de compreensão alguma. Ela só precisava caminhar. Chegar a algum lugar. 


“Mas aonde quer chegar?” - perguntei.

“A algum lugar” - respondeu.

“Mas a qual lugar?” - questionei.

“Não sei. Apenas me disseram que eu precisava chegar a algum lugar” - confessou.


Disseram… Eles nos dizem tantas coisas… 

Mas quem será que dissera àquela mulher que ela precisava chegar a algum lugar? Que poder teria alguém para dizer isso e ela ouvir ao ponto de achar que era só isso que precisava? Ela disse que precisava… Precisava por quê?


Caminhei ao seu lado, em silêncio. Eu queria apenas compreender aquele caminhar. Aquele pé descalço que a fazia mancar. Mas eu não compreendia. Ainda assim, caminhei ao seu lado por algumas esquinas. Não a compreendia. Mas não queria deixá-la sozinha com aquela necessidade que era só dela, mas que nem ela questionava o porquê.


“O que você quer? O que, realmente, deseja?” - perguntei, interrompendo aquele silêncio repleto de incompreensão. 

“Desejo? O que eu desejo?” - perguntou.

“Sim! Você disse que precisa chegar a algum lugar. Mas você quer chegar a esse lugar?”

“Eu apenas preciso. Apenas me disseram que eu precisava. Mas eu estou tão cansada. Talvez… talvez eu queira parar. Sentar. Olhar pra cima. Não ter medo de cair…”


Não respondi. Ouvi e acolhi aquele singelo desejo. Sentei. Olhei para cima. E pela primeira vez ela desviou os olhos do chão e me olhou. Ela sorriu e sentou ao meu lado. Olhou para cima. E sorriu novamente.


“Seu sapato… pegue!” - falei entregando-lhe aquele sapato vermelho arrebentado que um dia eu encontrara na esquina. 

Ela me encarou com o olhar repleto de incompreensão. 


“Não é meu sapato. Veja… este é menor que meu pé. Não me serve. Na verdade, meus pés são grandes demais, apenas uma única vez encontrei um sapato que me cabia, mas seria pedir demais encontrar o par né?” E gargalhou, rindo de si mesma.

“Talvez seja seu” - disse ela apontando para os meus pés. 


Com estranheza olhei para baixo pela primeira vez e encarei meus próprios pés: um pé calçado e um pé descalço. 

Incrédula, analisei o sapato vermelho arrebentado e vesti: serviu. Era mesmo meu. Espantada eu me questionava quando havia perdido e por que eu não lembrava que me pertencia. Como pudera perceber a falta do outro e estar tão alheia à minha própria falta?

Como pudera preocupar-me tanto com o caminhar do outro e não sentir o meu próprio caminhar?


Meu sapato vermelho… Meu pé descalço… Meu caminhar manco… 


“E você? O que quer? O que deseja?” - A mulher manca me perguntou. 


E, olhando para os meus pés calçados, olhando para o meu sapato vermelho arrebentado, silenciei. 

Pela primeira vez eu entendera a necessidade de encarar os meus próprios desejos. 


sexta-feira, 27 de maio de 2022

O Barba Azul - Por Betina Pilch

Você está disposta a sentir a violência com que os homens amam?


Havia uma mulher que chorava. Chorava o luto de um marido perdido pra morte. Chorava e não se conformava por ele ter ido embora desse mundo. Chorava e orava, dizia estar num poço sem fundo. 


Havia outra mulher que ouviu o choro da viúva e lhe disse que a entendia. Três anos se passaram desde que seu marido falecera e ela ainda sofria com o vazio da solidão que ele deixara. 


Eu as ouvia e refletia sobre quão bons esses maridos foram para essas mulheres, ao ponto de elas não superarem o vazio de sua ausência. 


Minha história é muito triste, uma delas dizia. 

Se eu contar para vocês tudo que já vivi, vocês saem daqui chorando! 


A outra balançava a cabeça, assentindo. Pegava nas mãos daquela mulher e dizia: eu te entendo. Não queria entender, mas entendo. Minha história é sofrida também. 


E ali contavam suas angústias. 


A primeira vez que o marido levantou a voz.

O momento em que ele disse que ela só falava besteiras e a silenciou.

O primeiro insulto.

A voz que a chamava de chata, de feia.

O grito que a culpava pelas culpas que eram dele.

O sussurro manso que lhe dizia que ela não servia para nada.

O primeiro sumiço. O primeiro silêncio de tortura. A primeira falta de interesse, a indiferença.

A primeira traição. E a segunda. E a terceira.

A noite em que ela chegara cansada do trabalho e o marido desempregado a esperava sentado na sala para que ela fizesse o jantar. 

A tarde de domingo que ele espancou o filho.

A noite de quarta que ele ameaçou o genro.

O dia em que ele pegou um pé de cabra e ameaçou matá-la.


Mas ela e a outra sofriam. Sofriam pela perda desse homem. Desse homem que tanto lhes causou dor. 


Tudo é melhor do que a solidão, diziam. 

Até do barulho dos gritos eu sinto falta, falavam e riam. 

No final do dia, eu só queria ter morrido no lugar dele, afirmavam. 


E ali eu via a astúcia de um predador. O predador que devorou sua presa durante toda a vida e a deixou sem nada. Um esqueleto de si mesma. Ausência de vitalidade. 


Barba Azul - pensei. O Barba Azul que habita em todos os homens. 


Por que é que se ama quando não há motivos para amar, afinal? 

Porque só se conhece uma forma de amor: a violência com que os homens amam. E apega-se à única realidade conhecida. E não livram-se, porque em dado momento a donzela que foram sonhara com o amor. Mas ninguém lhe contara sobre a violência com que os homens amam. Não foram preparadas para lidar com a morte dos seus sonhos e idealizações. Não imaginavam que um príncipe podia ter barba azul e um porão de segredos sobre si. Um porão que guardava todas as mortes que ele causara em mulheres que acreditaram nele. 


Elas ouviram a história do Barba Azul. Ouviram, num primeiro momento, rindo, pois julgavam estar diante da infantilidade de um conto de fadas. E não eram mais crianças. Aquela história não faria sentido àquela altura da vida. 


“Só não abra o porão! Se abrir, conhecerá todas as consequências da minha cólera!” 

Diante da narrativa elas debochavam e riam durante a história. 


O porão foi aberto. Mulheres degoladas ali habitavam. 

E eu não sei mais se estou falando do conto de fadas ou da história que agora escrevo. 


Mas elas arregalaram os olhos. Assustadas com a violência. 


Uma interrompeu e disse:

Meu marido era o Barba Azul! 


E a outra:

O meu também! Meu Deus! Eu vivi tantos anos com o Barba Azul! O perigo que eu corri!


E os olhos se encheram de lágrimas. 

O príncipe nunca existira. O Barba Azul, sim. 


Eles predadores. Elas presas.


Por que é que eu sofro então? - uma se perguntava. 

Ele morreu, mas podia ter sido eu - a outra dizia.


No final das contas, elas morreram antes deles. Morreram a cada dia, diante de cada atitude. Quando eles se foram, elas já não se entendiam como gente viva. Não sabiam mais viver, tampouco amar. 

Porque um dia elas se dispuseram a conhecer a violência com que os homens amam e não houve uma pessoa sequer para lhes salvar. 


Agora o que lhes restava era encontrar a chave, sair do porão e sobreviver às cicatrizes de uma vida degolada, se dispondo a conhecer a resistência e persistência com que as mulheres vivem.