sábado, 3 de maio de 2014

Desaber

Eu já não sei de mais nada. O saber se perdeu em meio as minhas confusões desde que você apareceu.
E desculpa, mas eu realmente não sei falar dos meus sentimentos sem ser piegas, sem ser extremamente chata, cheia de mimimi e melosa até acabar o doce que existe dentro de mim.
Sempre sonhei com alguém sensível, compreensivo, elegante, sedutor. Amante das palavras, da poesia, das rimas, dos sentimentos, do amor. Sempre sonhei com alguém assim: nada a ver com o que você é. E percebo que desde que você chegou meu coração resolveu ser rebelde e ir contra todos os sonhos que a minha mente havia criado. Você veio para me desestruturar, para demolir minhas idealizações e construir em cima dos destroços uma realidade palpável que eu não conseguiria imaginar se não estivesse convivendo diariamente com você. 
É, eu me apaixonei por um pseudo-ogro - e se você fosse metade do que o Shrek é já seria ótimo, mas não. Você tenta ser um homem das cavernas, sentimentalismo é "baitolice", minhas frases são vomitáveis e a cada julgamento besta seu sobre as coisas eu tenho vontade de quebrar essa máscara que você carrega e libertar esse príncipe que você tenta aprisionar dentro de você. Mas já era! Eu descobri tudo. Eu te desvendei. Eu te conheço, você sabe bem.
Sei do valor que você dá às palavras e justamente por isso não diz "eu te amo" - você enaltece tanto o amor que não se acha capaz de amar. 
Sei do par de alianças de namoro dos seus pais que você guarda à espera da menina certa para colocar no dedo anelar. 
Sei que você é mais sentimental que eu - você já me deixou conhecer seus momentos de melancolia.
Sei da sua paixão pela natureza, pelas árvores, pela vida.
Sei que você é o menino mais homem que já conheci. 
Sei que você é romântico, paciente, carinhoso mesmo que tente fingir.
E eu que já não sabia de mais nada, de repente, sei tantas coisas...
Ah cara, eu queria escrever o que sinto por você de uma forma que você não lesse e pensasse: "nossa, estou com vontade de vomitar." Mas eu te conheço bem o bastante pra saber que você se quer leria isso até o final se não soubesse que é pra você.
Queria que soubesse que te odeio, te odeio com todo o meu amor, porque você me deu tudo que eu precisava, mas está tirando de mim aquilo que eu mais dava valor. Já não consigo escrever como eu escrevia, a poesia evapora a cada dia, porque ao invés de idealizar o que eu sinto eu vivo: vivo sentindo o novo sentido que você traçou pra mim. 
                                                                                                                     - Betina Pilch.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Estação instável – Por Betina Pilch

Então acordei naquela primeira manhã de outono e sorri um sorriso triste. Senti uma tristeza que sorria. Uma felicidade deprimida. Uma depressão eufórica. Uma euforia mórbida. Uma morbidez vívida.
Fechei os olhos, enchi meus pulmões de ar e dentro de mim, então, só existia aquele oxigênio inspirado. 
Vasculhei minha caixinha de sonhos e percebi que eles estavam secos como as folhas das árvores que caíam. Talvez fosse culpa da estação ou talvez tenha sido culpa desse meu coração asmático e árido. Não sei. Na verdade o não saber era só o que restava em minha mente.
Uma lágrima escorreu da minha alma e meu coração gemeu. Meu ser então suspirou e pro céu olhou. As nuvens escuras estavam chorando comigo e nesse momento derramaram uma gota de tinta cinza em meus olhos, desde então eu só enxergava um mundo acinzentado.
Curitiba era cinza. São Paulo era cinza. A Suíça era cinza. Até o Rio de Janeiro, de repente, acinzentou. E os amores já não tinham nenhuma cor. Aquela pequena gota de tinta fez da minha vida um imenso degradê de cinza. 
O (arpoa)dor agora tinha a ver com a dor de um passado distante que jamais seria presente novamente.
Aquela música do Passenger já não me levava a sonho nenhum, mas era como aquele desperta-dor que me acordava justo quando eu não queria viver. 
Curitiba estava mais cinza do que o normal e estava tão torturante quanto seus ônibus às 6h da manhã. 
São Paulo continuava distante, mas agora já não existia esperança de aproximação.
E meu coração, que já transbordou e bordou o amor, apenas esvaziava um nada que matava e bordava uma dor que apagava qualquer cor que quisesse aparecer. 
Olhei para frente e em meio ao cinza e sépia do outono um vento soprou bem perto de mim. Soprou e sussurrou que assim como ele o outono também iria embora. Que viria mais uma estação para esfriar os ferimentos ardentes do meu coração e depois dela viria aquela que todos chamam de Primavera. 
A amante das cores, das flores, dos amores traria o sol do Arpoador novamente. A melodia apaixonante da música do Passenger. Traria vida para Curitiba. Ressuscitaria os sonhos paulistas. 
Então diante dessa pequena esperança eu pisquei. Aquela tinta cinza ainda estava encalacrada no meu olhar, mas lembrei que meu sorriso ainda era branco e de repente sorri, porque eu sabia que a Primavera viria e coloriria tudo de novo.
Mas no momento só o que me restava era a lembrança dessas memórias mórbidas que pouco a pouco evaporavam. E só a solidão é presença enquanto os sonhos se ausentam e ficam longe de mim.
                                                                                                         

segunda-feira, 17 de março de 2014

Vultos ocultos dentro de mim – Por Betina Pilch


A música toca e inevitavelmente você vem em minha mente com aquele seu jeito evolvente e perversamente inocente.
Fecho meus olhos e te encontro sem hora marcada, sem data estipulada nem nada, porque você sempre gostou de chegar sem avisar. E de repente já é tarde demais pra guiar meu pensar, meu coração dilata e quase me mata por querer sair do meu peito e beijar cada pulsar que salta de dentro de você.
A gente fala de lágrimas com um riso sarcástico no rosto e a contragosto assumimos que nos parecemos mais do que deveríamos nos parecer. 
Você me abraça, me enlaça e no espaço de seus braços tudo que era pedaço torna-se inteiro.
Enlouqueço e quase me esqueço que nossa proximidade está cercada de impossibilidades e que nesse momento em meu peito você não passa de um forasteiro passageiro que só chegou para me bagunçar e despertar uns desses sentimentos que não nascem pra vingar.
Permaneço colada em teu corpo e sofro por não poder permanecer assim. A gente se demora, mas sei que a qualquer hora você vai embora e eu degustarei o fim.
Silenciamos diante do nosso desânimo e ficamos parados escutando nossa respiração acelerar. Sabemos que não nascemos pra felicidade, somos cheios de complexidade, que tudo que passa é brisa leve e não vento forte capaz de nos fazer voar.
Meus pés pesam no chão e no meu coração sinto uma voz gritar dizendo que não quer te largar e pedindo pra você me a(ni)mar.
Você me a(ni)ma e me mima, fala que sou sua menina e promete que nunca vai me deixar. Eu calo sua boca com um beijo, digo que promessas costumam falhar. Salgo minha face com lágrimas e de repente meus olhos começam se abrir. Retorno a realidade e mesmo sem querer me obrigo a te ver partir.
                                                                                                          

sábado, 15 de março de 2014

Me mate, só não acabe com a minha vida – Por Betina Pilch


Eu não sei o que está acontecendo comigo, até porque nunca me entendi. Quem me explicava era sempre você. No entanto, nesse momento, me explicar seria explicar você mesmo e nesse caso quem sempre te entendeu fui eu. 
Percebo que quanto mais me des-vendo, mais te encontro. E me revelando descubro que os segredos eram apenas alguns embaraços causados por nós que eu atei sem você saber.
(Trans)bordo palavras e me afogo em sentimentos (bor)dados pra você. Então te sufoco com o meu sentimentalismo e foco onde está tudo desfocado. Você tosse e se engasga enquanto bebe minhas loucuras a goles sôfregos tentando respirar sem pirar diante de tanta (ins)piração sem nexo. 
Sua loucura sempre se pareceu com a minha, mas talvez eu tenha ultrapassado os limites e não nos parecemos mais. Talvez minha loucura já não seja agradável ao seu paladar. Talvez eu lhe cause náuseas. Talvez você vomite. Talvez você queira me amar(rar) em uma camisa de força enquanto lhe peço encarecidamente que seja o meu psiquiatra. "Não fuja de mim diante da minha loucura!" - grito enquanto você me observa. Eu rio diante de tanta insanidade e pareço ainda mais louca. Então você ri também. É, a gente sorri. Só ri. Porque o que nos resta é isso: só (r)ir. 
Peço que me entenda, não me deixe e me ignore o máximo de vezes possível também. Não faço sentido, vivo sentindo e grito insistindo pra que me mande calar a boca e voltar ao normal. Calo a boca e percebo que normal eu nunca fui. Então continuo sendo louca. Louca por você. 
Você não entende nada e pensa: "Não sei lidar. Não sei lhe dar." e, lendo seus pensamentos, eu respondo: "Não lide, não ligue, não me dê nada."
Porque o que (não) temos me basta e é pelo que (não) temos que morro de amor. Só não fuja de mim, mesmo que eu mesma fuja de mim às vezes.
Uma vida morrendo é uma vida. Uma vida sem morte, é apenas uma morte camuflada. Prefiro morrer de amor do que viver sem amar - então espero que você continue me (m)atando.

                                                                                                                                    

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Não sei titular e isso já é um título


Eu não queria refletir, mas só o fato de eu não querer entrar em reflexão já é refletir sobre algo que não quero e se não quero algo já é um querer que algo não aconteça.
Eu não queria me perder, mas já estou perdida e só o fato de eu saber estar perdida já é uma forma de me encontrar. E eu me encontro e me perco em mim mesma, e ao me perder dentro de mim mesma já não encontro mais nada.
Eu me conheço bem o bastante para saber que não conheço nada sobre mim e o fato de saber o que não sei me inquieta e me atormenta.
Evitei o silêncio, porque meus silêncios sempre foram gritantes demais e esse emudecer estridente sempre me ensurdeceu. Só escuto o som de um nada cheio de vazios que fazem minha mente girar sem sair do lugar. Tenho vivido esse eterno permanecer sem nunca estar.
Céus! Para onde vou?
Já não sei o que sou, nem onde estou, tampouco o que farei a partir daqui. Apenas imploro a Deus que me guie, porque eu já não tenho nenhum sentido e não sei para onde ir. 
                                                                                                                                          - Betina Pilch.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Enfim, completa

Sempre fui sonhadora, do tipo que inspira romantismo e expira esperança. Que perde o sono, porque não é preciso dormir para sonhar.
Sempre tive os sonhos como meus melhores amigos e eles nunca me abandonaram. Muitas vezes desisti de sonhar, mas felizmente os sonhos nunca desistiram de mim.
Há quem diga que quem sonha demais acaba se frustrando, e é verdade. Muitas vezes tive a decepção e frustração como companhia. Muitas vezes me afoguei em lágrimas por achar que meu destino era negligente e esquecia de me dar um pouco de felicidade, porque para mim tal sentimento sempre estava em falta.
Mal eu sabia que o meu destino se importava muito comigo, a ponto de achar que eu não merecia metades, que eu não merecia doses homeopáticas de felicidade. Ele preferiu guardar cada dose até ter certeza que eram suficientes para curar todas as minhas enfermidades. Então finalmente o destino resolveu me dopar, me fez tomar tantas doses de felicidade que a cura foi instantânea.
Há quem diga que não vale a pena acreditar nos sonhos que se tem, quão pobres são tais pessoas.
O “Era uma vez” pode sim transformar-se em um “É dessa vez!”. A história pode sim virar um conto de fadas. E o “felizes para sempre” pode sim ser distante o bastante para a história ser escrita de forma tão bela e detalhada que possa futuramente ser lida como a Bíblia do Amor.
Histórias não são contos fadas pela capacidade dos personagens serem príncipes e princesas. Contos de fadas têm a ver com a capacidade dos personagens terem coragem o suficiente para rejeitarem o papel de coadjuvante, para enfim terem acesso ao enredo dos protagonistas. Está na capacidade dos personagens viverem a história intensamente e aceitarem Deus como escritor.
Achamos que nunca viveremos uma fantasia cinderelesca, mas de repente a vida samba em nossa cara e ri nos dando o livro embrulhado para presente. Quando lemos nosso nome escrito no livro nem acreditamos, achamos que logo o despertador irá tocar nos acordando do sonho. Mas aí a gente acorda e vê que dormimos abraçados com o livro e quando abrimos nosso livro nosso nome ainda está escrito lá. E então sorrimos, sorrimos porque pela primeira vez a vida sorri pra gente.
Sim, a vida é engraçada e gosta de nos torturar um pouquinho. Nos dá provas de fogo só para ter certeza se somos merecedores do que ela, com muito carinho, nos reserva.
Sim, o mundo pertence aqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos. E hoje o mundo me pertence, eu consigo abraça-lo, porque finalmente sou completa. Meus braços já não são curtos demais, porque a vida com muito amor me tornou infinita.
                                                                                                           - Betina Pilch.

Te guardei nos raios de sol

Ao acordar ela abriu as cortinas que escureciam o seu quarto e através do vidro da janela ela viu o Sol surgir por entre a neblina que embaçava todo o seu horizonte de visão. Logo tudo estaria claro, nítido e o dia ficaria lindo, mas as sombras do passado ainda habitavam sua mente deixando rastros de escuridão.
Ela ignorou as sombras e manteve seus olhos focados no presente. Encheu o pulmão de ar e suspirou balançando a cabeça de olhos fechados "Hoje não será um dia nostálgico, só hoje eu não quero sentir saudades." - Pensou ela.
Pegou o seu livro de cabeceira e apertou contra o peito, como se as palavras ali escritas fossem penetrar seu coração. "A ficção de um romance detalhado é a única coisa capaz de me manter longe da tristeza e hoje eu preciso de doses de felicidade, mesmo que utópicas." - Refletiu.
Mas as sombras começaram a se engrandecer, cresciam tão rapidamente que nem mesmo a leitura de seu romance favorito foi capaz de iluminar todo aquele cinza que habitava a sua mente. "Uma mente cinza cheia de lembranças e um coração colorido cheio de amor." - Ela riu da ironia.
O Sol entrava janela adentro iluminando toda a dimensão de seu aconchego, mas sua mente era à prova de claridade e nitidez.
O Sol, pensava ela, lembrava os olhos iluminados dele. O frio daquela manhã sendo aos poucos extinto pelos raios da estrela maior lembrava seu coração no dia em que ela havia visto ele pela primeira vez.
Sua boca de repente trouxe aos ventos aquela verdade: "Ele trouxe calor para esse deserto gelado e hoje vivo com essa seca em meu coração rachado."
Todas as lembranças cresciam, cresciam tanto que já não eram mais lembranças dentro dela, e sim ela dentro das lembranças. E de repente todo o sentimento foi exposto em seu rosto a contragosto através das lágrimas.
O dia ficaria lindo, mas não ficou. O Sol ia raiar por horas, mas não raiou. Não havia previsão de chuva, mas a tempestade despencou. Pelo menos em seu interior foi isso que ela presenciou.
Era três de Junho de 2013, "Dois anos, três meses e cinco dias" - Ela lembrou. "O relógio nunca pareceu tão vivo, lembro tão nitidamente da primeira vez que ele me beijou." - Ela lembrava tão nitidamente que quase conseguia sentir-se beijada novamente.
Ela olhou o relógio: meio-dia. O Sol estava em seu auge e tudo que ela desejava era que os raios penetrassem seu coração aquecendo-o, nem que só por alguns minutos. Aquele buraco frio que ela carregava em seu peito ainda doía e a falta que o amor vívido fazia era tão fria que às vezes ela pensava que ia morrer de hipotermia.
Lembranças vívidas de um passado mórbido era tudo que ela possuía, e a saudade que ela sentia dele era o único tom de cinza em seu dia. "Acontece que às vezes esse tom de cinza é tão escuro que consegue camuflar todo o colorido da minha vida." - Lamentou.
Mas as suas artérias bombeavam romantismo e sua alma era vestida de esperanças, mesmo que isso a machucasse e torturasse um pouco às vezes, ela gostava de amar o seu primeiro amor. Ela amava com todas as suas forças e lutava para que nenhum detalhe daqueles dias coloridos que ela viveu ao lado dele morressem, e com o tempo as lembranças se tornaram imortais de tanto que ela relembrava.
Ela piscou os olhos, olhou pela janela novamente: 17h. O Sol já estava se escondendo e ela passou o resto dos minutos ali admirando aquele encanto que brilhava e aquecia sem precisar de ninguém. "Tão solitário, mas tão feliz... Ah sol, você também me lembra ele. Vou guardar em você cada lembrança que cultivo do meu garoto e toda vez que eu te olhar, estarei olhando pra ele também. Aqueça minhas lembranças, não as deixe morrer de frio, já faz um tempo que meu coração não sabe o que é ficar febril. Aqueça minhas lembranças, assim como o abraço dele me aquecia, mantenha minhas memórias vivas assim como ele me fazia sentir viva. Tão solitário, mas tão feliz... Assim também é o meu garoto, aquele que partiu meu coração e hoje habita cada cicatriz."
O Sol enfim se pôs levando consigo todas aquelas lembranças, mas ela sabia que no dia seguinte ao amanhecer cada lembrança retornaria, dessa vez menos frias, dessa vez menos mortas, porque ela encarregou o Sol de iluminar aquela sombra que há tempos ela carregava dentro de si.
                                                                                                         - Betina Pilch.

Insuficiência Poética

Olhei para o céu e busquei pelas estrelas: Elas haviam se escondido.
Olhei para o meu coração e busquei pelo amor: Ele havia desaparecido.
Tentei encontrar todo aquele grito silenciado: Ele já estava contido.
Tentei buscar inspirações nos meus infinitos clichês: Tudo havia sumido.
Abro e fecho meus olhos em busca de uma explicação, 
mas para o que sinto agora não existe definição.
Algumas rimas soltas e pobres ficam vagando sem rumo, sem saber onde se encaixar. 
Estou perdida junto com essas palavras, já não sei quais sentimentos irão me acompanhar.
Abri as grades do meu coração, libertei todo o amor que em mim vivia. 
Tudo voou para longe e fugiu-me a poesia.
                                                                                                              - Betina Pilch.

Coleciona(dor)a de cicatrizes

Ela queria transbordar sua dor em palavras, mas já não existiam palavras dentro dela e a falta da escrita era a pior de suas ausências.
As marcas estavam voltando a incomodar e novas feridas estavam começando a ser desenhadas. Era questão de tempo para todos os espacinhos dela serem preenchidos com a dor, nenhum cantinho sairia ileso. Ela sempre fora uma colecionadora de cicatrizes.
Dizem que tudo que é bom dura pouco, então ela estava esperando pelo fim desde o começo, mas ir embora era tão difícil. Ela nunca foi boa com pontos finais, sempre dava um jeitinho de transformar em reticências, mas ela já deveria saber que não é preciso escrever o ponto final para uma história ter um fim.
Ela nunca foi boa com máscaras, sempre teve tendência à transparência e por esse motivo não conseguia ignorar suas dores, precisava enfrenta-las. Mas ela estava tão cansada de lutar, ainda mais quando precisava ser uma guerreira sozinha. Ela lutava apenas para manter seu sorriso intacto, mas ele sempre se partia.
Por mais acostumada que estivesse com o Sol deveria estar preparada para a tempestade, porque ela sabia que era questão de tempo para o céu desmoronar novamente, e seu coração sempre foi influenciado pelo clima.
Seu interior esteve ensolarado por um bom tempo, mas o cinza sempre predominava e estava retornando mais uma vez. E quando as gotas de chuva começaram a escorrer do céu, as lágrimas resolveram deslizar por sua face também.
O sorriso dela se pôs junto com o Sol e a escuridão trouxe consigo aquela velha tristeza. Ela tinha perdido as cores do seu arco-íris mais uma vez e termia não encontrar lápis de cor suficientes para (re)colorir o seu céu novamente.
                                                                                                          - Betina Pilch.

Um terror chamado amor

Sempre caminhei sozinha na contramão da vida, percorrendo uma estrada cheia de utopias. Sempre sem direção certa, desgovernada em minhas andanças, porque sou feita de contradições e inconstâncias. 
Gosto de caminhar para frente, correndo rumo a uma estrada nova, mas vez ou outra preciso voltar para trás e resgatar alguns momentos na estrada da memória. 
E voltando eu me perco e me perdendo eu me encontro. São nos contrários de mim que mora o encanto. 
Não sou feita de medidas exatas, ainda não aprendi a me dosar. Sou muito, sou tudo, é tanto Eu que preciso me doar.
Uma louca desvairada que caminha calma e desesperada. Me encho de tudo, me encho de nada, e vou transbordando meus acúmulos e vazios no decorrer da estrada. 
São nas dúvidas que encontro minhas certezas. É através do cinza que começo a pintar um arco-íris. É na dor e na solidão que encontro o amor e a paixão. Uma explosão de contradição, é assim que pulsa o meu coração.
A menina que em mim habita nunca fez sentido, mas sempre foi mestre na arte de viver sentindo. Se na faculdade da vida ela só tivesse que amar, com certeza seria uma aluna exemplar. Mas, infelizmente, na matéria de fazer as coisas darem certo ela acabou de reprovar. 
Ela já foi muito corajosa, destemida, inquieta e se os sentimentos fossem esportes radicais ela seria uma grande atleta. Mas o amor é semelhante ao bungee jump e ela já sofreu alguns acidentes. Feriu seu coração e traumatizou a sua mente. 
A menina que caminhava sozinha na contramão da vida hoje caminha perdida, com medo, querendo mudar a direção, desejando percorrer uma estrada sem curvas e sem nenhuma frustração. A matéria de amar ela desistiu de estudar e de bungee jump ela não tem mais coragem de pular. 
É que a pobre menina bebeu doses de complexidade altas demais para uma só vida e os fardos da realidade lhe causaram muitas feridas. 
Hoje ela já não se arrisca sem temor, porque a menina tem mais medo do amor do que de filme de terror.
                                                                                                             - Betina Pilch.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre aquilo que não sei sobre mim


Você não sabe nada sobre nós, apesar de saber tudo sobre mim. 
Você não entende meus sentimentos, apesar de saber tudo que sinto e senti. 
Você não sabe nada, apesar de saber tudo. 
Talvez de tanto eu camuflar, meus sentimentos tenham ficado ocultos no escuro. 
Você ouviu tudo mesmo sem escutar uma só palavra. 
Você não conhece os inquilinos do meu coração, porque eu nunca quis te cobrar nada.
Te escrevi uma carta em segredo na esperança de abafar os gritos dos meus sentimentos quando lacrasse aquele envelope e guardasse no fundo daquela caixa. Mas eles gritam e pulam, nenhuma palavra naquela carta se encaixa. 
E nada permanece para sempre apesar de nada ir embora. 
E tudo fica em minha mente, apesar de tudo mudar a cada instante, a cada hora. 
E a sua voz talvez seja minha memória favorita. 
E você talvez seja mais do que uma linda poesia. 
Começo achar que você é aquele desenho confuso que eu fazia quando criança e aos olhos adultos parecia sem sentido. Aquele desenho que só eu entendia e guardava por achar lindo.
Você não sabe o que sei sobre nós atados num laço que jamais será desfeito. 
Você não sabe que a fita que enfeita o nosso presente é o que torna ele tão perfeito.
Você não sabe nada sobre você e eu sei tanto sobre ti. 
Você não sabe nada sobre nós e eu já não sei nada sobre mim.
                                                                                                                                - Betina Pilch.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Senti(n)do

"Estou tentando encontrar algum defeito em você." Eu respondi quando você me perguntou "O que foi?" após ficar constrangido com meu olhar fixo em você. E desde então tenho cada vez mais certeza de que você é perfeito.
Engraçado como você me dá um chão seguro quando me abraça, o céu quando me beija e as estrelas quando sorri. Você me dá tantas coisas, mas me tira as palavras e eu sempre achei que minhas palavras fossem o meu bem mais precioso, mas isso foi até eu te conhecer.
Você calou minhas palavras e me mostrou que a mais linda poesia se esconde no silêncio. A mais bela poesia não precisa ser recitada, ela é simplesmente sentida e eu tenho sentido tanto.
Dizem que as melhores coisas acontecem por acaso, mas você não foi um acaso, você foi o destino que eu sempre quis chegar. 
Você não me deu um conto de fadas, você me deu uma história real muito melhor que as dos livros. Dentre tantas histórias a nossa tem sido a mais bem escrita e me ler em você e te ler em mim tem sido a melhor coisa do mundo.
Não sei explicar o que sinto quando penso em você e sorrio. Sorrio, porque pela primeira vez eu não estou em busca de certezas. Sorrio, porque você é a minha certeza mais incerta e eu nunca gostei tanto de estar naufragada em um mar de contradições como agora.
E eu sinto e me perco em meio a tantos sentimentos. E nesses sentimentos eu te encontro e em você me perco mais uma vez. E enquanto estou perdida em você me abandono em seus braços e me perco mais ainda em seus beijos. Você fez eu me perder e me perdendo eu me encontrei.
Você já faz parte de mim, e se eu gosto de você e você faz parte de mim eu começo a gostar de mim mesma. Gosto de você pelo que você é, mas gosto principalmente do que eu sou quando estou com você.
E espero que você goste de ser gostado, porque não quero chamar isso de paixão ou amor. Todas as vezes que dei esses títulos aos meus sentimentos eles foram efêmeros e com você estou disposta a conhecer a veracidade.
Desculpa se me calo diante daquela frase composta por três palavras, mas foi você quem me emudeceu e me ensinou a apreciar os versos intensos de cada silenciar. Quando lhe dou meu silêncio estou lhe entregando todas as minhas rimas. Tento responder suas perguntas com meus beijos e quando minha boca se fecha é para deixar os olhos falarem. 
Tenho certeza de que isso é o começo de algo bom e sinceramente já não me importo como isso irá acabar. Eu já não sei o que fazer e prefiro nem saber. Os melhores momentos são aqueles que não são vestidos com expectativas. Tudo é melhor quando a gente para de se preocupar e aprende a viver sem pensar demais. Já não racionalizo o que sinto, porque finalmente aprendi que os sentimentos não são feitos de teorias.
Não me peça pra fazer sentido, estou ocupada demais sentindo. E o culpado é você, só você.
                                                                                                          - Betina Pilch.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Plural eu, singular nós


Ainda lembro do dia em que te vi pela primeira vez e nesse dia eu já sabia que a paixão platônica seria inevitável. É difícil ver alguém do sexo oposto lendo e não me apaixonar - e aquele livro em suas mãos era um adorno tão lindo. Eu não tinha dúvidas: ler realçava a beleza das pessoas. 
E não importava se eu ia conversar com você um dia, se um dia eu ouviria a sua voz ou saberia o seu nome, eu gostava mesmo era de idealizar você nas minhas melhores imaginações. Gostava de imaginar sua voz, que eu nunca tinha ouvido, lendo os trechos dos meus livros favoritos para mim. Gostava de imaginar sua mão entrelaçada a minha e a gente sorrindo um para o outro. Gostava de imaginar qualquer coisa com você. Eu nunca coube no plural, sempre fui adepta do singular, mas você me fez acreditar que era possível um sujeito composto conjugar o verbo amar. Sem eu perceber você já era o meu enredo, meu clímax e a cada capítulo dos meus sonhos eu rezava para que você não fosse o meu fim.
Eu já tinha escrito muitos capítulos da nossa história quando ouvi sua voz pela primeira vez e naquele momento eu sabia que teria que editar cada trecho que eu já havia escrito, porque sua voz era ainda mais linda do que nas minhas imaginações. Sua voz passou a ser a minha melodia favorita e essa melodia sempre fez meu coração dançar, mas infelizmente o meu coração dançava sozinho na falta de um par.
Seu coração sempre foi um tanto misterioso e nunca quis ter um dedo de prosa com o meu, então meu coração conversava sozinho, cantava e dançava a fim de chamar sua atenção, mas o pobrezinho nunca conseguiu.
Dizem que só atraímos aquilo que somos e talvez esse fosse o preço que eu tinha que pagar por ser apaixonada por romances complexos em que as coisas só dão certo no penúltimo capítulo e no último a protagonista morre. Meu romance sempre seria um verdadeiro drama.
Eu sempre soube que era perigoso trazer o abstrato para a realidade, é extremamente não recomendado concretizar nossas idealizações, mas era tarde para ouvir a razão. Eu já tinha conversado com você, já tinha ouvido sua voz e sabia o seu nome. Eu sabia quem você era mesmo sem saber nada sobre você, e o que era platônico passou a ser real. Mesmo sem eu querer a mutação aconteceu e a paixão virou amor. 
Eu passei a idealizar em palavras esse sentimento também, mas a realidade já era uma intrusa assídua nas minhas poesias e esse amor eu só conseguia rimar com dor. A reciprocidade estava ausente, querer ser plural não era poder. Talvez eu tenha nascido para ser singular e mudar seria incoerente. Ainda assim tentei fazer parte da sua história, mas não era boa o suficiente para nenhum papel. Tornei-me mera figurante. E foi nessas indagações sobre o porquê de te amar, foi nessa de escrever pra não chorar que descobri o que realmente significava o que eu sentia. Aprendi que amor não é aquilo que te completa. Amor é aquilo que te destrói e faz você descobrir que ser pedaços é o melhor jeito de viver.
Embora fosse difícil te ver todos os dias e fingir que esse sentimento não existia, eu não desisti de te amar. Passei a amar em silêncio. Escrever em segredo. Já não publicava meus textos porque o amor que sentia por você era sincero e transparente demais para ser camuflado em palavras cujos significados são indiretos. E era nas entrelinhas que eu despejava tudo o que sentia. Por detrás de cada palavra eu escondia os meus sentimentos. Mas a verdade é que eu já não queria esconder mais nada. 
A história que escrevi pra gente estava monótona demais e entediaria qualquer leitor. Eu queria gritar pro mundo inteiro ouvir o quanto eu amo você e não importava se fossem me chamar de louca, eu nunca tive medo de ouvir a verdade e a verdade é que sou completamente louca por você, mas o cansaço das batalhas verbais sempre me impediu de mudar o rumo do desfecho.
Pausei a escrita da nossa história, porque eu estava sempre diante de um travessão, mas você já não tinha mais nenhuma fala. Você ficou escondido atrás daquela vírgula, porque nunca quis se explicar. Você sempre fora um mistério calado e nunca permitiu que ninguém tentasse te desvendar.
De narradora personagem, passei a ser observadora, mas infelizmente não serei onisciente. Você não me permite saber o que pensa e muito menos o que sente.
O livro está aberto cheio de reticências pra quando você quiser protagonizar, mas guardei-o na estante, porque já não consigo mais ter criatividade e continuar.
Tentei matar tudo o que sinto, mas sou romancista e não serial-killer. Tentei desvendar seus mistérios, mas não sou a Agatha Christie. Então resolvi deixar o amor vivo aqui dentro de mim, simplesmente porque ainda não aprendi a usar o ponto final para escrever o nosso fim.

                                                      - Betina Pilch.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Carta(da) da Razão


Eu não voltaria pra você porque sinto medo. Sinto medo dos seus olhos tristes, eles entristecem toda e qualquer alma, e eu sempre soube o que existia por detrás deles.
Sinto medo das suas palavras, palavras que você nunca fracionou, nunca dosou, sempre transbordou e alagou a vida de quem se aproximava. Suas palavras são dicotômicas, elas podem ser colmadas e confortar, mas também podem ser afiadas e dilacerar até mesmo o mais insensível dos corações. Eu nunca achei certa a forma de você lidar com a vida, mas você nunca me ouviu.
Também sinto medo da sua dor exposta no amor que sente, até mesmo seus melhores sentimentos possuem sofrimento. Você nunca soube ser inteiramente feliz, seu tempero principal sempre fora a melancolia. 
Sinto medo dos seus receios que transformam qualquer chão firme em areia movediça, você vive afundada neles.
Sinto medo da sua loucura, dos seus dramas, dos seus surtos. Eu nunca aceitei ser manicômio e pra ser sincera, você é digna de solitária. Você combina com a solidão, ela veste bem em você. 
Seus silêncios sempre foram gritantes, mas os meus gritos sempre foram silenciosos demais. Você preferiu a melodia de cada pulsar ao invés de me ouvir, e essa melodia sempre me emudeceu.
Eu sinto medo de você, menina. E por isso me libertei. Fui embora, porque seus sentimentos me escravizavam e eu cansei de contraria-los e ganhar chibatadas. Hoje eu já não habito sua mente, fugi para longe, lhe deixei abandonada. Perceba que eu era sua melhor conselheira e desde que te abandonei todas as suas atitudes são erradas.
Seu conselheiro é um psicopata com tendências suicidas e vive caindo no erro de amar. Mas você preferiu ser influenciada por ele ao invés de me escutar.
Me despeço através dessa carta para lhe mostrar o que você fez: não bastou revirar sua vida, me enlouqueceu de vez. 
Era eu que sempre estava, ali, te freando. E agora veja o que estou fazendo: poetizando.
Suas rimas sempre me atormentaram, sempre achei desafinadas, mas você não cansava de entoar. Eu me importava com você, mas passei a te odiar.
E não me venha com sentimentalismos baratos dizendo que o ódio é uma das facetas do amor, porque eu sou racional, feita de teorias valiosas e não sentimentos sem valor. 
É menina, você podia ser genial, mas preferiu ser uma inútil romântica sentimental. 
Adeus, menina doida, adeus. Você preferiu seu coração a mim, e isso gerou o nosso fim. 
Hoje me despeço com muita exaltação. Essas são as últimas palavras daquela que já foi a sua Razão.        

Divagando, só.


E talvez os manicômios de que Alvaro de Campos falava fossem o próprio mundo. E se, hoje, sou digna de camisa de força por amar a sensualidade da dúvida e da indagação ao invés da companhia desses doidos malucos cheios de certezas, que me mandem para a solitária de um hospício. (Em uma sala fechada estarei imune a loucura do mundo e entorpecida apenas com a minha própria loucura. Tendo a solidão como melhor amiga, ouvindo ela cantar o som do silêncio com a mais linda melodia inspirando minhas rimas).
Que eu seja uma louca digna de camisa de força que grite com os médicos questionando o porquê de me prenderem. E não uma doida maluca presidiária de um mundo com pessoas que nada questionam e dizem viver corretamente.
Que eu seja escrava da minha indagação e não dona de uma falsa razão. Que eu seja uma desvairada cheia de dúvidas em minha mente e não uma doida maluca cheia de certezas deprimentes. 
"Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas. Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?" E se eu for a menos certa, que os mais certos não me corrijam.
                                                                                                                                      - Betina Pilch.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Diálogo sobre a felicidade


—  moça, você conhece a felicidade?
—  Uma vez ouvi dizer que a felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico. Mas de durável eu só conheço a melancolia. E de equilíbrio eu nunca entendi.
—  eu conheci a felicidade. durou pouco tempo. meses pra ser exato. mas sobrevivi. por isso não recomendo.
ela parece vírus, sabe? suga tudo de você. e o que sobra? só isso que você é. tristeza.
—  Não parece boa…
A felicidade sempre foi uma personagem fictícia que eu nunca quis conhecer. Dizem que ela te faz experimentar o gostinho do paraíso e se imortaliza num inferno que lança pelos ares chamas de lembranças.
Parece um tanto demoníaca essa tal felicidade. Um adorno que as pessoas usam para ocultar sua verdadeira essência.
—  você tem total razão. sabe, dizem que o que mais atrai felicidade é o amor, mas sempre duvidei, já que esse sempre rimou perfeitamente com dor. 
— Se a felicidade é uma das facetas do amor, eu não a conheci. Comigo o amor nunca foi dicotômico.Sempre foi clichê e desprovido de poesia. Dizem que não se fazem poemas com uma só rima.
—  felicidade é névoa. é chuva passageira. daquelas finas que a gente pensa que vai refrescar, mas na verdade vai só molhar e fazer subir a aridez da vida, nos dando dor na garganta.
—  Se a felicidade é tão ilusória assim, isso só me confirma quão iludidas as pessoas são. Todos cavalos com rédeas e viseiras, inibidos de visão.
—  sim, felicidade é um corpo estranho em cada retina. não nos adaptamos a ela. pelo jeito a forçamos a fazer parte de nós. tentamos encaixar um circulo em um quadrado. mas é de nós mesmos, almas insatisfeitas. se nosso natural fosse a felicidade, buscaríamos a tristeza como nômades sedentos por água. temos essa ambição de ser algo que não somos, de ter sempre algo que não temos. queremos, não importa se sirva, se encaixa. vai parecer roupa com número maior, que sempre estaremos erguendo, ajeitando pra não cair, mas está na moda e, por mais ridículo que seja, todos querem usar. ser feliz está na moda.
—  Se a felicidade está na moda, o mundo está alienado. Os que não podem ter, morrem sem ter conquistado. Aqueles que conquistaram, deixam-na jogada num lado.
Está na moda vestir essa máscara e ocultar sua verdadeira essência, mas meu amigo, ainda bem que eu nunca fui ligada a tendências.
—  nem eu. minha única tendência é permanecer. mas veja, tem salvadores em cada esquina. tem livros de auto ajuda, sites de relacionamentos, curas, métodos, segredos para a felicidade aos montes. sair na rua é afogar-se no desejo dos outros de ser feliz. de te fazer feliz. e nós, náufragos da melancolia. são as mesmas pessoas que postergam o que tem dentro de si inerentemente. substituem, ou tentam, seu cinza peculiar pelas cores vivas das promessas. felicidade é ignorar? é não pensar? é deixar de lado o que está diante de seus olhos e abrir essa cicatriz no rosto que chamam de sorriso ante tudo o que tenta te fazer esquecer?
—  Ser feliz é essa eterna tentativa frustrada. Tentamos trocar o nosso cinza pelas cores vivas das promessas mesmo sabendo que essas cores sempre desbotam.
Já me deixei iludir, acho que a felicidade quase me pegou uma vez.
Mas hoje, por mais acostumada que eu esteja com o sol, sempre estarei à espera da tempestade. Eu sou cinza, moço. Eu sou cinza. E tudo que é cinza já conheceu a dor de ser incendiado por uma chama. Isso explica os meus traumas.
Tenho medo de tudo que brilha demais, tem cores demais. Por isso sempre coloco minhas mãos em posição de defesa e fecho meus olhos quando a felicidade se aproxima. Porque meu arco-íris moço, é um degradê de cinza.
—  felicidade seria esquecer de mim. eis ai minha impossibilidade de ser feliz. eis nossa impossibilidade de ser felizes. não importa o que tentemos usar pra aliviar. estamos sós. sempre estamos sós.

                                                                                              - Betina Pilch e Hemerson Miranda.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Alvorada voraz


Não sei lidar com a realidade. Não sei lidar com a verdade. Não sei lidar com a vida. Minhas cicatrizes ainda estão vivas demais para eu suportar novas feridas.
Vivi tanto tempo imersa em sonhos que quando me deparo com o mundo real ele transmuta-se em pesadelos. Levanto-me da cama e o que me espera é somente desespero.
O campo concreto é muito assustador para quem viveu tempo demais anestesiada com o abstrato, a realidade é sólida demais para quem sempre foi apegada a tenuidade da fantasia e minhas artérias se entopem de pânico quando vejo fatos palpáveis invadindo minhas utopias.
Saí do meu mundinho efêmero e meus pés já ponteiam o precipício da veracidade, logo estarei em queda livre sem segurança alguma caindo na realidade.
A adrenalina pré-salto toma conta do meu sistema nervoso, as dúvidas tomam conta da minha mente e as angústias em meu peito doravante serão frequentes.
Cuspo no papel palavras brutas que pouco a pouco vão sendo lapidadas, bebo sentimentos a goles sôfregos e pouco a pouco minha alma vai sendo afogada. 
Visto a máscara que oculta meus verdadeiros sentidos e nessa queda vai me faltando o ar. Preferia ter chumbo nas asas do que ser livre e ser obrigada a voar.
                                                                                                                                  - Betina Pilch.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Um conto real


Fico rindo ao pensar em você. É que além de você ser um palhaço fez um capítulo da minha vida ser uma grande comédia, cheia de lembranças boas que me despertam sorrisos. Fico imaginando eu contando para as minhas filhas e netas como foi que conheci o meu primeiro namorado: "Eu o conheci numa viagem que fiz ao Rio de Janeiro, posso dizer que foi amor à primeira vista mesmo que naquele primeiro momento eu não quisesse ouvir os sussurros cansados do coração. Mas quando o amor chega, mesmo que o coração esteja cansado e sem voz, ele brada tão alto que é impossível não ouvir, e do alto do arpoador, vendo o sol nascer, eu descobri que estava apaixonada. Mas nesse mesmo dia eu viria embora para Curitiba e senti um medo gigantesco ao pensar que talvez eu nunca mais fosse vê-lo, e tendo o sol e as águas como testemunhas da minha desolação eu chorei. Não deixei com aquele moço apenas as minhas palavras marcadas em uma carta, deixei também meu coração naquele abraço de despedida. Porém nenhum sentimento é em vão, o destino gosta de pregar peças e brincar com a gente, mas gosta de deixar marcas independente do tom sarcástico que usa nos acontecimento da nossa vida. Então, dezenove dias depois que eu voltei para casa, ele me pediu em namoro e foi o momento mais emocionante da minha vida até aquele dia. Sempre achei que sonhos não tinham relação com a realidade, que fantasias não podiam sair do campo abstrato para o concreto, mas o destino,  que sempre adorou deixar marcas em mim, me provou o contrário. A partir daí eu comecei a escrever um milhão de poesias pra ele, mas ele nunca leu uma palavra se quer. Comecei a sufocar ele com o meu sentimentalismo e quem quase morreu de falta de ar fui eu mesma. É, não durou. Namoramos a distância durante um mês e cinco dias, mas resolvi ser corajosa e não maquiar o ponto de final de reticências. Escrevi o ponto final e fim. Terminei nossa história, porque estava enlouquecendo tanto eu quanto ele. Foi melhor assim. Nunca vou esquecê-lo, ele foi um capítulo bonito da minha história. Ele era um príncipe que não virou sapo, mas nossa história não era um conto de fadas para ter um final feliz. Porque contos de fadas não existem e se existissem eu não seria destinada princesa. Nunca nos beijamos, não tivemos um namoro comum, mas eu sempre fugi dos padrões mesmo e meu primeiro namoro foi a minha cara. Perfeito pra mim. Foram trinta e cinco dias de muita paixão, de sentimentalismo em excesso, eram dias que transbordavam, declarações, músicas e dois corações batendo no mesmo compasso. Fomos tão intensos quanto Romeu e Julieta, mas antes que um de nós nos matasse resolvi transformar o drama em comédia romântica. E por fim nossa história até pareceu um pouco com as minhas histórias de livro." As menininhas ainda ingênuas e inocentes, sem cicatrizes e frustrações, sorririam com os olhos brilhando e cresceriam com a certeza de que uma história não precisa ter um final feliz ou um "felizes para sempre" para ser intensa e bonita.                                                                                                                                                                                                                                                                       - Betina Pilch.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Rimas deslocadas


Certa vez suas palavras foram depositadas no mesmo lugar que as minhas e foi a partir desse instante que começamos a nos misturar. Nossa história já começou com um "boa viagem" e então você partia para um lugar bem distante de mim. Mas nessas distâncias íamos nos encontrando, nessas milhas íamos nos aproximando, nossas ausências eram presentes, nosso presente era eterno. Sua vida sempre pareceu história de livro e eu adorava vasculhar as páginas e ler cada capítulo que você me autorizava a conhecer.
Cada página amarelada me encantava e fazia minha alma estremecer. Suas aventuras com antigos amores, sua mania de galantear, seu mestrado em roubar corações, sua forma de me conquistar. 
Grifei minhas partes favoritas e pouco a pouco fui decorando cada sílaba.
Meu olhar era o seu favorito e por sua causa ele tinha mais brilho. Minha boca te inspirava e as palavras que saíam dela só de você falavam. 
Não tínhamos medidas, quanto mais exagero era melhor, quanto mais intenso, mais bonito era. Com você não existia invernos e outonos, era tudo primavera.
Os versos de nossa história formavam a mais linda poesia. E algumas vezes eu acreditava que você era o amor da minha vida. 
Você sabe que eu sempre fui louca, sempre tive muitas paixões, meu coração era grande demais e um só amor não dava conta de preenche-lo. Mas eu sempre voltava pra você, porque sem seu amor tudo era desespero.
Sempre fui feita de vazios e tinha muito medo deles, a verdade é que sempre tentei ao máximo ficar longe do fim. E você também sabe que nunca se contentou só com os meus carinhos e cuidados, sempre precisou de mais uma e mais outra. No fundo você sabe que sempre foi igual a mim. 
Você que já foi muralha, quando te conheci era apenas destroços de um ser que constantemente tentava se reconstruir.
E eu era mera incompreendida num mundo que gostava de me confundir. 
Mas comigo você era inteiro, era isso que eu sentia. Com você eu era compreendida, eu gostava de acreditar que você me entendia. 
Nunca fomos simples, éramos dois amantes da complexidade, amantes românticos, sonhadores que só buscavam a felicidade. Mas também éramos cheios de cicatrizes, cicatrizes que ainda nos feriam e nos lembravam que nossas dores, apesar de parecidas, não se completavam, mas nos afastavam cada vez mais do nosso amor inventado. E pouco a pouco aquele sentimento foi aumentando e se tornando um imenso deserto gelado.
Antes eu achava que era uma menina feliz frequentemente perseguida pela tristeza. Hoje sei que minha essência é triste, a felicidade é apenas um adorno. (E mesmo nesse a(dor)no há dor camuflada). A verdade é que minha marcha é fúnebre e não trilha sonora de um conto de fadas.
Eu ainda guardo a sua gravação de voz de locutor, ainda ouço e morro de amor. Ainda ouço você dizendo que "ainda bem que existem pessoas como eu..." ou apenas me dando boa noite e dizendo que me ama. Ainda penso em você toda noite quando deito em minha cama. 
Ainda guardo aquela flor que você me deu. Ainda sinto aquele beijinho especialmente pra mim. Ainda guardo você aqui, e evito aceitar o fim. 
Ainda lembro de todas as suas promessas e juras de amor, sim. Ainda leio os textos que você escreveu pra mim. 
Mas a nossa  trilha sonora já não é animada ou romântica, a nossa realidade não passa de uma mera lembrança. 
Cada vírgula concreta foi apagada. Os nossos rascunhos escreveram uma linda história de amor, mas infelizmente ela nunca será publicada. 
Perdoe os meus erros, meu bem, eu nunca fui princesa perfeita e hoje nosso amor não passa de poesia desfeita.
                                                                                                                            - Betina Pilch.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

As cortinas já fecharam


Pensando bem... Não. Não nascemos um para o outro. Eu nunca iria me tornar o que você queria que eu fosse e você nunca iria entender meu sentimentalismo e exagero doce. 
Talvez eu tenha sido doce demais, melada e você enjoou. Mas tudo bem, eu compreendo, acabou.
A gente nunca teve muito a ver. Você curte pop, eu MPB. Eu amo livros, você odeia ler. 
Você sempre apegado ao realismo, a praticidade, ao orgulho, ao individualismo. E eu sempre sonhadora, apegada aos detalhes, complicada, cheia de romantismo. 
Você amante da liberdade, eu presa aos grilhões do amor. Você sempre tão frio e eu cheia de dor. 
Eu tendo que lidar com meus sonhos e com o impossível. Você sem nenhuma ilusão vivendo sua realidade insensível.
Sempre quis experimentar  uma vida sem nenhum tormento, mas minha caixinha nunca foi preenchida com algum sentimento. Sempre gostei sozinha, fiz papel de palhaça. E quem foi o roteirista fez da vida uma piada que já perdeu a graça. 
A protagonista esqueceu o roteiro, você mudou o gênero, o público cansou e a cortina já fechou. 
Ninguém gostou, o público vaiou, a peça foi um fracasso e terminamos sem aplauso.
Talvez tenha sido melhor acabar com esse tal conto de fadas fajuto e infeliz. O que era pra ser um romance virou uma comédia sem fim.
                                                                                                                           - Betina Pilch.