quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cicatriz alada - Por Betina Pilch



O som da despedida ecoava. O céu quase escuro. A fumaça recém acesa escoava, vozes por todos os lados manifestavam risos estimulados pelo sangue jovem dos primeiros capítulos sendo escritos. Eu já estava na metade da história, mas me sentia em um novo começo. O começo de uma vida inteira, que precisou de um passado pra começar a ser reescrita.

Sentei no degrau da escada, vislumbrei um futuro que outrora sonhei e parecia tão distante — agora, olhando pra trás, o ontem parece tão longe… A fumaça pairou no ar, as chamas me chamavam e eu ia sem o temor de me queimar. Já fui queimada tantas vezes que aprendi a sentir o fogo arder em mim sem doer, sem me apagar.

Subi as escadas, entrei no elevador, nono andar, onde tudo parece começar agora. E as portas se abrem, sempre se abriram pra mim: a vermelha, a proibida, a do fim do corredor, a que me fez correr, a que eu perdi a chave e não me deixou fugir. Passagens livres, prisões arquitetadas. Eu atraente, eu atraída, eu traída, eu corrompida.

E a garganta que outrora gargalhava, foi arranhada, quase estrangulada, e quando sufocada estava e não mais aguentava, eu gritava contra a fronha bordada e salgada que só me silenciava. Preparei a fuga, arrumei a mala e vazia ela estava; tudo tinha sido tirado dali, tirado de mim. Recolhi cada gota salgada do travesseiro e fiz delas minha bagagem pesada.

A bagagem que carrego já não é mais a mesma, muito mais leve e ao mesmo tempo tão maior, sutilmente imensa, cheia de tudo que recolhi ao me acolher. Aos quase 30 anos, já me aproprio dessa nova década, abraço e me sinto tão pertencente — à década e a mim mesma. Olho no espelho, me reconheço. Encontro no reflexo alguém que gosto de enxergar. E me enxergo todos os dias tantas vezes.

Dedilho as minhas cordas vocais, a garganta não arranha mais. Olho pra frente, não há mais sinais. Outrora, esquecia de mim. Olhava e me via de fora, vagando por lugares que ainda não me cabiam porque — talvez — naquele capítulo virado, eu já percorria as linhas da história que eu ainda ia escrever.

Antes era eu o sangue jovem que ardia no mundo a rir sob o céu prestes a escurecer. E o sangue respingava no livro e dançava decorando a história que depois seria manchada. Agora, tateando as páginas limpas que ontem almejei, escrevo aliviada. Apesar do cansaço que carrego no corpo, a alma flutua se permitindo voar.

Abro minhas asas outrora machucadas que sangravam sonhos podados, vejo as marcas do fio afiado que tentou fechar meu livro e ver os capítulos encerrados. Olho pra capa, sorrio para as páginas surradas que ao serem viradas sopraram vento pra dentro de mim e me elevaram, me jogando para um novo horizonte que só existia na fantasia de uma vida quebrada.

E eu voo, com todas as cicatrizes daquelas feridas que já não doem mais, batendo as asas que acreditei estarem atrofiadas, e percebo que agora são a fortaleza que sempre precisei para existir. Existo e gozo da existência que já não resiste mais: apenas se desnuda e dança ao som da despedida que anuncia um novo viver.

  

A mulher que mancava - Por Betina Pilch




Querida narradora que outrora me deu vida,

Escrevo-te com o peso do asfalto ainda impregnado na alma, mas com os olhos, finalmente, lavados pelo céu.

Tu me viste como uma aparição manca, um vulto obstinado que ignorava a própria carne exposta ao chão. Mas o que viste naquela esquina não era uma mulher — era um projeto de obediência. Durante décadas, eu fui o eco de vozes que nunca tiveram rosto. "Chegue lá", diziam. "Ande reto", ordenavam. E eu, na minha estranha cegueira de quem só olha para baixo, acreditava que a estrada era o meu destino, quando, na verdade, a estrada era apenas a minha punição.

Acostumei-me à cicatriz circular, ao mofo da memória, ao sangue coalhado, à coreografia do cansaço, a tudo aquilo que já não surpreendia.

Queres saber quem sou, além daquela que te fez encarar os próprios pés?

Eu sou a filha da urgência. Herança do invisível.  Cresci em uma casa onde o agora não era seguro, porque quando se nasce da urgência, o presente é apenas um obstáculo entre tu e a próxima fuga. 

Vim de lá, onde o silêncio era uma regra de etiqueta e o desejo era um pecado que se escondia debaixo do tapete. Meus pés sempre foram "grandes demais", como eu te disse. Grandes para os sapatos que me compravam, grandes para os espaços que me permitiam ocupar, grandes para as expectativas estreitas de quem me criou. 

Tentei, por muito tempo, amputar partes de mim para caber nos sapatos de outras pessoas. Tentei caminhar a marcha dos outros e senti o hálito quente do prazo, a febre do passo, o deserto da espera. 

Aquele caminhar manco, Betina, não era dor. Era anestesia. Eu me acostumei tanto com o "precisar" que o "querer" morreu de inanição dentro de mim. O sapato que tu seguravas com tanto zelo — aquele fetiche de perfeição interrompida — nunca poderia ser meu. Ele era delicado demais para a minha brutalidade de sobrevivente.

Sabe o que senti quando sentei ao teu lado e olhei para cima? Senti o susto de perceber que o mundo não tem teto. Olhar para os buracos da rua era seguro; o buraco é previsível, ele tem fim. O céu, não. O céu exige que a gente tenha prumo, e eu só tinha desequilíbrio. Mas ao sentar ao teu lado, naquela calçada diante da rua esburacada, senti a fratura na minha fantasia e submergi do efeito de toda anestesia. 

“Eu sou”, pensei. Não apenas existo, sobrevivo e manca caminho. “Eu sou, mas quem?”. E ao lembrar do meu ser e questioná-lo, te vi, te enxerguei. 

E eu te devolvi o sapato porque percebi, naquele instante, que tu estavas tão ocupada em curar a minha ferida que não tinhas sentido o sangue escorrendo dos teus próprios calcanhares. É mais fácil carregar o sapato alheio do que admitir que estamos descalças, não é? Tu te tornaste a minha guardiã para não ter de ser a tua própria guia.

Hoje, não sei se cheguei a "algum lugar". A verdade é que parei de andar pelas mesmas ruas que outrora eu conheci. 

Descobri que meus pés grandes gostam da grama, do frio da pedra e, principalmente, do direito de não sair do lugar. A liberdade não é a estrada; a liberdade é a cadeira na esquina, o riso do próprio absurdo e a coragem de dizer: eu não vou a lugar nenhum porque eu já estou aqui.

Espero que o sapato vermelho te sirva, Betina. Mas espero, mais ainda, que um dia tu tenhas a audácia de arrebentá-lo de novo, só para ver como é caminhar sentindo o mundo de verdade. E que se for preciso parar, que tu aprendas a vestir as pausas.

Com carinho e com a aspereza de quem abandonou a si mesma numa esquina para se reencontrar em uma nova estrada,

A Mulher que Mancava.