quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aquela que vinga - Por Betina Pilch

 Texto inspirado no livro "Boca do Mundo" de Dia Bárbara Nobre

- da necessidade de sentir Urânia, Abigail e as demais personagens mais um pouquinho.


Depois que Hermínia partiu pela segunda vez, a casa ficou diferente. Não vazia. As casas nunca ficam vazias quando aprendem os nomes de quem passou por elas. O que mudou foi o peso do ar. 

Durante anos me acostumei a ouvir presenças caminhando pelos corredores. Algumas eram lembranças. Outras não. Havia passos que pertenciam à madeira, passos que pertenciam ao vento e passos que pertenciam aos mortos. Depois que abracei minha filha e a senti dissolver-se entre meus braços feito água devolvida ao rio, alguma coisa encontrou repouso. Até os silêncios passaram a respirar de outro jeito.

Eu mesma já não carregava os dias como quem transporta pedras dentro do peito. A dor não foi embora. A dor nunca vai. Acontece que ela envelhece junto da gente. Aprende a sentar na varanda. Aprende a olhar a chuva. Aprende a ficar quieta.

Foi nessa época que Teresa e Bamila decidiram se casar.

Urânia inteira pareceu florescer. As mulheres passaram semanas costurando tecidos, preparando vinhos e pendurando fitas nas árvores do vale. Eu observava tudo sentada sob a sombra das videiras. Os cachos amadureciam lentamente acima da minha cabeça enquanto as duas atravessavam os dias com aquele brilho que só existe quando alguém encontra um lugar seguro para descansar a própria alma.

Na manhã do casamento, Teresa chorou antes mesmo de vestir o vestido. Disse que não acreditava merecer tanta felicidade. Bamila segurou seu rosto entre as mãos e respondeu que felicidade não era prêmio. Ainda hoje me lembro da forma como o sol atravessava seus cabelos. Algumas pessoas nascem com uma espécie de claridade dentro dos olhos. Bamila era assim.

Quando as vi trocando alianças diante das mulheres de Urânia, tive a estranha sensação de estar assistindo a uma porta se fechar. Não uma porta ruim. Uma dessas portas antigas que se fecham devagar quando a tempestade finalmente passa.

Meses depois chegou a menina. Pequena. Magra. Os joelhos sempre ralados. Os cabelos cresciam em todas as direções possíveis. Foi Teresa quem a encontrou primeiro, abandonada numa estrada de barro depois de uma enchente. Quando a criança chegou à cidade, ninguém perguntou de onde vinha. Em Urânia, às vezes as pessoas simplesmente chegam. Como as chuvas. Como os pássaros. Como as sementes carregadas pelo vento. Bamila a pegou no colo. A menina segurou um pedaço do seu colar e não soltou mais. Foi assim que escolheu a própria família. Chamaram-na Hermínia. Algumas mulheres acharam cedo demais. Eu não. Certos nomes não pertencem aos mortos. Pertencem ao caminho.

A nova Hermínia cresceu correndo pelos mesmos lugares onde sua avó um dia correu. Mas havia diferenças. A terra repetia seus gestos sem repetir seu destino. Ela conversava sozinha perto do rio. Via coisas que mais ninguém via. Encontrava objetos perdidos enterrados havia anos. Sabia quando alguém chegaria antes de qualquer notícia. Às vezes acordava durante a madrugada para descrever sonhos que ainda não tinham acontecido.

Quando completou sete anos, apareceu na minha varanda trazendo uma serpente desenhada num pedaço de papel.

— Ela pediu para eu fazer, bisa.

Meu coração reconheceu o desenho antes dos olhos.

A Encantada.

— E o que ela disse?

A menina me olhou demoradamente e, em seguida, com um sorriso me abraçou dizendo:

— Que você anda preocupada demais, viu dona Abigail?

Ri. Mesmo depois de tantas décadas, aquela criatura continuava me vigiando. Ou me amando. Talvez fosse a mesma coisa.

Os anos seguiram passando. As videiras envelheceram. Eu envelheci junto delas. Muitas mulheres chegaram. Muitas partiram. Algumas deixaram filhas. Outras deixaram histórias. Urânia continuava crescendo feito raiz de árvore. Não para cima. Para dentro. Foi assim que entendi o segredo daquela cidade: não éramos uma comunidade - éramos memória criando morada.

Na última noite da minha vida, a chuva veio mansa. Daquelas chuvas finas que parecem cair apenas para lembrar que o céu existe. Eu já não conseguia levantar da cama. Minhas mãos haviam ficado leves demais e meu corpo parecia uma roupa antiga prestes a ser dobrada e guardada. A pequena Hermínia dormia ao meu lado. Tinha treze anos. Os cabelos espalhados pelo travesseiro pareciam raízes procurando terra. Teresa e Bamila cochilavam numa cadeira perto da janela, vencidas pelo cansaço de vigiar alguém que amavam. Fiquei observando as três. E pela primeira vez em muitos anos não procurei os mortos, nem os ausentes.

Passei boa parte da vida conversando com lutos. Meu pai. Meu filho. Hermínia. As mulheres que a terra havia guardado antes de mim. Havia dias em que eu sentia suas presenças mais claramente do que sentia o próprio vento atravessando as videiras. Durante muito tempo a saudade foi uma espécie de casa onde morei.

Mas naquela noite meus olhos encontravam apenas os vivos.

Talvez fosse esse o verdadeiro milagre: não carregar mais o passado como quem carrega um corpo nos braços, mas como quem carrega uma semente.

Foi então que a vi.

Sentada no canto do quarto.

A Cabocla Encantada.

Como sempre.

Como desde o começo.

Como antes mesmo de mim.

Não precisei perguntar se era hora. As mulheres da minha família sempre souberam reconhecer quando a noite vinha buscá-las.

Olhei para a menina adormecida. Depois para a Cabocla.

Pedi que não a deixasse sozinha.

Minha voz saiu baixa, quase um sopro, mas ela ouviu.

Disse que a menina precisaria dela. Que herdaria muita coisa. As visões. A memória. Os caminhos. Os nomes. Pedi apenas que não herdasse os nossos pesos.

A Encantada permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois sorriu. Era um sorriso pequeno. Antigo. Um sorriso que parecia existir desde antes das montanhas, desde antes dos rios encontrarem seus leitos. E naquele instante compreendi algo que me escapara durante toda a vida: nenhuma geração recebe exatamente a mesma herança.

A terra ensina.

A água modifica.

O tempo lapida.

A Boca do Mundo se abre a novas narrativas.

A menina carregaria nossos nomes, mas pisaria na terra com os próprios pés. Carregaria nossas histórias, mas escreveria as próprias. O sangue não é um espelho. É um rio. E nenhum rio passa duas vezes pelo mesmo lugar.

A Encantada se levantou e caminhou até a cabeceira da cama. Com uma delicadeza que jamais vi nos seres humanos, pousou a mão sobre os cabelos da criança.

Lá fora, ouvi as videiras balançando. Ou talvez fossem vozes. Nunca aprendi a distinguir. Pensei em tudo que havia perdido ao longo da vida. Pensei no filho que não cresceu. Na filha que precisei devolver ao mundo para que pudesse descansar. Nas mulheres que enterrei. Nos anos que a vida arrancou de mim sem pedir licença. E pela primeira vez não senti vontade de chamar nada de volta. Porque, olhando para aquela menina adormecida, compreendi que nenhuma dessas coisas havia desaparecido. Tinham apenas mudado de forma.

As perdas que me atravessaram agora corriam adiante de mim. Estavam nos olhos daquela criança. Nas mãos de Teresa. Na coragem de Bamila. Nas videiras que continuariam dando frutos quando eu já fosse apenas lembrança. Estavam na terra de Urânia, que aprendera a guardar nomes sem transformá-los em ruínas.

Fechei os olhos. E pela primeira vez não senti medo de desaparecer, afinal percebi que as pessoas não permanecem através dos corpos. Nem através das fotografias. Nem através das lápides. Permanecem através daquilo que continuam semeando umas nas outras.

Quando meu último suspiro deixou o peito, a chuva ainda caía sobre Urânia.

E em algum lugar do vale, uma menina sonhava com uma serpente de fogo abrindo caminho entre as estrelas.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cicatriz alada - Por Betina Pilch



O som da despedida ecoava. O céu quase escuro. A fumaça recém acesa escoava, vozes por todos os lados manifestavam risos estimulados pelo sangue jovem dos primeiros capítulos sendo escritos. Eu já estava na metade da história, mas me sentia em um novo começo. O começo de uma vida inteira, que precisou de um passado pra começar a ser reescrita.

Sentei no degrau da escada, vislumbrei um futuro que outrora sonhei e parecia tão distante — agora, olhando pra trás, o ontem parece tão longe… A fumaça pairou no ar, as chamas me chamavam e eu ia sem o temor de me queimar. Já fui queimada tantas vezes que aprendi a sentir o fogo arder em mim sem doer, sem me apagar.

Subi as escadas, entrei no elevador, nono andar, onde tudo parece começar agora. E as portas se abrem, sempre se abriram pra mim: a vermelha, a proibida, a do fim do corredor, a que me fez correr, a que eu perdi a chave e não me deixou fugir. Passagens livres, prisões arquitetadas. Eu atraente, eu atraída, eu traída, eu corrompida.

E a garganta que outrora gargalhava, foi arranhada, quase estrangulada, e quando sufocada estava e não mais aguentava, eu gritava contra a fronha bordada e salgada que só me silenciava. Preparei a fuga, arrumei a mala e vazia ela estava; tudo tinha sido tirado dali, tirado de mim. Recolhi cada gota salgada do travesseiro e fiz delas minha bagagem pesada.

A bagagem que carrego já não é mais a mesma, muito mais leve e ao mesmo tempo tão maior, sutilmente imensa, cheia de tudo que recolhi ao me acolher. Aos quase 30 anos, já me aproprio dessa nova década, abraço e me sinto tão pertencente — à década e a mim mesma. Olho no espelho, me reconheço. Encontro no reflexo alguém que gosto de enxergar. E me enxergo todos os dias tantas vezes.

Dedilho as minhas cordas vocais, a garganta não arranha mais. Olho pra frente, não há mais sinais. Outrora, esquecia de mim. Olhava e me via de fora, vagando por lugares que ainda não me cabiam porque — talvez — naquele capítulo virado, eu já percorria as linhas da história que eu ainda ia escrever.

Antes era eu o sangue jovem que ardia no mundo a rir sob o céu prestes a escurecer. E o sangue respingava no livro e dançava decorando a história que depois seria manchada. Agora, tateando as páginas limpas que ontem almejei, escrevo aliviada. Apesar do cansaço que carrego no corpo, a alma flutua se permitindo voar.

Abro minhas asas outrora machucadas que sangravam sonhos podados, vejo as marcas do fio afiado que tentou fechar meu livro e ver os capítulos encerrados. Olho pra capa, sorrio para as páginas surradas que ao serem viradas sopraram vento pra dentro de mim e me elevaram, me jogando para um novo horizonte que só existia na fantasia de uma vida quebrada.

E eu voo, com todas as cicatrizes daquelas feridas que já não doem mais, batendo as asas que acreditei estarem atrofiadas, e percebo que agora são a fortaleza que sempre precisei para existir. Existo e gozo da existência que já não resiste mais: apenas se desnuda e dança ao som da despedida que anuncia um novo viver.

  

A mulher que mancava - Por Betina Pilch




Querida narradora que outrora me deu vida,

Escrevo-te com o peso do asfalto ainda impregnado na alma, mas com os olhos, finalmente, lavados pelo céu.

Tu me viste como uma aparição manca, um vulto obstinado que ignorava a própria carne exposta ao chão. Mas o que viste naquela esquina não era uma mulher — era um projeto de obediência. Durante décadas, eu fui o eco de vozes que nunca tiveram rosto. "Chegue lá", diziam. "Ande reto", ordenavam. E eu, na minha estranha cegueira de quem só olha para baixo, acreditava que a estrada era o meu destino, quando, na verdade, a estrada era apenas a minha punição.

Acostumei-me à cicatriz circular, ao mofo da memória, ao sangue coalhado, à coreografia do cansaço, a tudo aquilo que já não surpreendia.

Queres saber quem sou, além daquela que te fez encarar os próprios pés?

Eu sou a filha da urgência. Herança do invisível.  Cresci em uma casa onde o agora não era seguro, porque quando se nasce da urgência, o presente é apenas um obstáculo entre tu e a próxima fuga. 

Vim de lá, onde o silêncio era uma regra de etiqueta e o desejo era um pecado que se escondia debaixo do tapete. Meus pés sempre foram "grandes demais", como eu te disse. Grandes para os sapatos que me compravam, grandes para os espaços que me permitiam ocupar, grandes para as expectativas estreitas de quem me criou. 

Tentei, por muito tempo, amputar partes de mim para caber nos sapatos de outras pessoas. Tentei caminhar a marcha dos outros e senti o hálito quente do prazo, a febre do passo, o deserto da espera. 

Aquele caminhar manco, Betina, não era dor. Era anestesia. Eu me acostumei tanto com o "precisar" que o "querer" morreu de inanição dentro de mim. O sapato que tu seguravas com tanto zelo — aquele fetiche de perfeição interrompida — nunca poderia ser meu. Ele era delicado demais para a minha brutalidade de sobrevivente.

Sabe o que senti quando sentei ao teu lado e olhei para cima? Senti o susto de perceber que o mundo não tem teto. Olhar para os buracos da rua era seguro; o buraco é previsível, ele tem fim. O céu, não. O céu exige que a gente tenha prumo, e eu só tinha desequilíbrio. Mas ao sentar ao teu lado, naquela calçada diante da rua esburacada, senti a fratura na minha fantasia e submergi do efeito de toda anestesia. 

“Eu sou”, pensei. Não apenas existo, sobrevivo e manca caminho. “Eu sou, mas quem?”. E ao lembrar do meu ser e questioná-lo, te vi, te enxerguei. 

E eu te devolvi o sapato porque percebi, naquele instante, que tu estavas tão ocupada em curar a minha ferida que não tinhas sentido o sangue escorrendo dos teus próprios calcanhares. É mais fácil carregar o sapato alheio do que admitir que estamos descalças, não é? Tu te tornaste a minha guardiã para não ter de ser a tua própria guia.

Hoje, não sei se cheguei a "algum lugar". A verdade é que parei de andar pelas mesmas ruas que outrora eu conheci. 

Descobri que meus pés grandes gostam da grama, do frio da pedra e, principalmente, do direito de não sair do lugar. A liberdade não é a estrada; a liberdade é a cadeira na esquina, o riso do próprio absurdo e a coragem de dizer: eu não vou a lugar nenhum porque eu já estou aqui.

Espero que o sapato vermelho te sirva, Betina. Mas espero, mais ainda, que um dia tu tenhas a audácia de arrebentá-lo de novo, só para ver como é caminhar sentindo o mundo de verdade. E que se for preciso parar, que tu aprendas a vestir as pausas.

Com carinho e com a aspereza de quem abandonou a si mesma numa esquina para se reencontrar em uma nova estrada,

A Mulher que Mancava.