segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Coração de tinta – Por Betina Pilch


Antes era feita de amor porque o amor curava. 
Conheceu certa dor que não cicatrizou e passou a ser feita de amargor. 
Mas mesmo amargurada via vestígios de cura naquela amargura.
Então - na grafia - transformou tudo em poesia...
Do am(arg)or tirou a raiva e deixou o amor. 
Na amargura só trocou o g pelo c e o que amargurava agora amava e curava. 
Percebeu que tudo na vida era questão de gramática. 
Que quando queria podia trocar o g pelo d e ser bem dramática 
ou tirar as duas silabas do meio, por o cedilha no c e transformar tudo em graça. 
Era a gramática que dava sentido às coisas e doava o sentir à vida tão bem, também.

                                                                                                      

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Instante – Por Betina Pilch


Quando o amor começa não interessa quão complicados sejam os protagonistas, a história dá um jeito de acontecer, eu pensava enquanto lia Jane Austen e desejava um Mr. Darcy debaixo daquela árvore comigo. Era final de tarde, o sol estava indo embora, arrastando seu manto laranja para o poente, voltando para a companhia de todos os ontens. E eu estava me preparando pra ir embora, colocando meu romance na sacola, quando, de súbito, o amor aconteceu em mim. 
Você estava correndo e eu sempre detestei caras de regata e shorts que correm no parque. Imagina beijar um cara com gosto de lágrimas, pensei enquanto via as gotículas de suor escorrendo pela sua face e paralisando em volta da sua boca. Mas, nossa!, como você é lindo, você tem os olhos da cor da minha estante de madeira, devem caber muitas histórias no seu olhar... Talvez a gente combine, tanto quanto meus livros combinam com a minha estante. Mas talvez eu tenha uma síncope se você bagunçar a ordem da minha vida. Não posso admitir que você tire nada do lugar. No máximo meus pés do chão e olhe lá! Porque eu tenho medo de altura... Meu Deus! Você parou. Está olhando pra cá, não! Está olhando pra mim... Não acredito que você piscou! É assim que você vai piscar pra mim toda vez que a gente fizer uma piada interna e vamos rir diante da nossa cumplicidade. Você não tem ideia de como a gente combina. Formamos um belo casal. Eu até tenho uma estante da cor dos seus olhos, isso não pode ser mera coincidência. Só pode ser o destino. Com certeza é. 
Você voltou a correr. Não não não, você vai virar a esquina e, ei volta aqui! Minha mente está gritando enquanto eu permaneço estática sem saber o que fazer. Tudo que eu amo sempre foge de mim. Ah, não... Dessa vez não posso deixar isso acontecer. Olha o que você está me obrigando a fazer, estou correndo atrás de você. Minha mãe sempre disse que era pra eu correr atrás dos meus sonhos. Acho que estou fazendo isso pela primeira vez.
Você está vendo eu correr e se divertindo com isso. Está me encarando, me desafiando a correr ainda mais. Espero que você aja como um cavalheiro e faça respiração boca a boca em mim caso eu caia desmaiada por causa de uma crise de asma, já que eu esqueci minha bombinha em casa. 
Pra onde você está me levando?, eu penso já exausta de tanto correr. E, como quem ouve meu pensamento, você faz um manejo de cabeça apontando para um portão. Deve ser sua casa. Talvez você me apresente para os seus pais. Ou talvez você more sozinho e a gente tome um banho juntos após essa corrida toda. A segunda opção me parece bem mais atraente...
Entramos e céus! Você ainda não parou de correr. 
Estou logo atrás de você, não aguento correr mais. Quantos corredores, parecem labirintos. 
Eu tenho certeza que você é minha alma gêmea, moço dos olhos cor de madeira. Ontem mesmo eu jurei que nunca mais amaria ninguém e olha só o que você fez! É, é assim. Quando o amor começa não interessa se as dores da antiga paixão estão trancando seu coração, ele quebra a barreira e entra pela fresta. Olha você aí, bem de frente pra mim. Oh deuses! Estou te olhando como quem não quer nada, mas dentro de mim eu estou desesperada querendo mergulhar em você e me afogar de tanto ser amada. 
Quando o amor começa não interessa o tamanho da fresta, ele sempre dá um jeito de entrar. 
Já era noite, eu não estava enxergando quase nada, até que vi uma cama arrumada. Você me chamou pra deitar com você. Que romântico, você arrumou tudo com velas e flores. Eu sabia que era você. Sempre foi você! E eu te amei a noite toda. 
Quando abri os olhos eu não te achei. Olhei em volta e me assustei ao sentir o cheiro das flores românticas da nossa noite de amor e ao ver sua foto na cabeceira da cama de concreto com uma legenda escrita em letras garrafais "saudades eternas". Quando o amor começa, não interessa o tamanho da fresta, ele sempre dá um jeito de sair. Então enterrei o amor dentro de mim e fui embora do cemitério.                                                                                                   
                                                                                                                                        

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dos amores que morrem e matam – Por Betina Pilch



- Eu te amo - foi o que eu disse mergulhando em seus olhos malaquitas. 
Ele sorriu timidamente, como se aquelas palavras tivessem esmagando seu corpo causando uma dor insuportável.
- Que foi? - perguntei com um sorriso desesperador, me arrependendo de ter deixado o meu coração proferir voz.
- Precisamos conversar. - ele disse por fim.
- Prefiro que fique em silêncio. - sussurrei tentando evitar o pior.
- Preciso ser sincero com você.
- Por favor, apenas minta.
- Então prefiro ficar em silêncio. 
- Seu silêncio é uma mentira.

Houve uma pausa munida de um silêncio ensurdecedor.


- Não gosto de ser um mentiroso... - ele por fim falou, me tirando do calor daquele silêncio utópico e me colocando diante da frieza das suas palavras sinceras.

- Então nunca deveria ter me beijado. - Eu disse com a alma trêmula e retendo lágrimas.
- Foi sincero enquanto estávamos juntos. - Ele respondeu.
- E quando você estava longe a sinceridade ia embora, né? 
- Não... Quer dizer, não sei. Talvez. 
- Você disse que me ama.
- Eu fui impulsivo. 
- Erro de prefixo. Re-veja sua pulsão. 
- Você e seu jogo de palavras...
- Você e seu jogo com a vida...
- Eu te amava.
- Agora mudou o tempo verbal. Sabe, você é muito inconstante!
- Por isso estou indo embora.
- Gosto da sua inconstância.
- Gosto de como você gosta de mim.
- Odeio o jeito que você não gosta.
- Gosto quando você odeia. 
- Então fica! 
- Não posso. Não te amo mais.
E então senti meu coração ruir. Preferia que ele tivesse trocado a adição por subtração e dissesse que não me ama menos. Talvez o resultado disso tudo fosse diferente, não sei, nunca fui boa em matemática.
Busquei na minha fonte de memórias alguma lembrança que me fizesse entender onde foi que o amor acabou, mas tudo que achei foram os motivos que fizeram o amor nascer. A dor, de repente, estava me dando falta de ar e dessa vez não era crise asmática. Crise de asma bombinha resolve. Crise de alma só uma bomba relógio pode resolver. 
- Por que você está fazendo isso comigo? - perguntei. 
- Porque eu sou muito jovem pra me prender a alguém. 
- Eu nunca te prendi.
- Você entendeu. 

E essa foi sua última fala. O desprezo em sua voz matou o que restava de nós. Eu entendi. Realmente tinha entendido. Amei demais. Vivi por dois. E ele quis me fracionar. Eu não podia fazer nada. Não tinha como convencer ele a ficar. Meu coração queria implorar pra ele não ir. Queria prender ele pela primeira vez. Algemar ele em mim. Mas qualquer atitude persuasiva faria ele sentir mais desprezo e, no fundo, eu só queria que ele realmente tivesse me amado de verdade e que não esquecesse o que já sentiu um dia. 

No entanto, agora, eu já não tinha mais certeza de nada e essa dúvida me colocou prostrada, sem força nenhuma. Finalmente, explodi em lágrimas.

- Só me promete uma coisa - pedi entre um soluço e outro enquanto ele me fitava sem reação - me leve com você, me guarde na melhor parte de si.

Eu deveria ter lembrado que ele nunca foi bom músico. Nunca teve afinação. Por isso ele confundiu si com dó, me abraçou e eu apenas ignorei quando ele me soltou, virou as costas e foi embora. Fingi que era ali que ele me guardaria eternamente: em seus braços onde nossos embaraços - cheio de laços - sempre foram desatados.
- Eu te amo... - foi meu último sussurro banhado em lágrimas antes de perceber que eu tinha ido embora nos braços dele e que agora estava sozinha, sem ele e sem mim, para sempre.

                                                                                      

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O nada de mim e de tudo – Por Betina Pilch



Os pequenos detalhes desapareceram. O céu sobre a minha cabeça não se distingue do solo sob os meus pés. É que meus olhos que antes pintavam, agora apagam tudo que vêem.

E o tudo agora é nada. E o nada é apenas nada. Um vácuo entre mim e meu eu. Uma lacuna sem luz e sem breu. Um vazio inóspito a cor. 
E o mundo que já foi morada, hoje é apenas uma palavra cansada sem significação, sinônimo, preenchimento ou valor. 
O colorido preterido foi reduzido a mero pretérito esquecido. E, sem rastro de lembrança, meu eu sem esperança passou a ser um monossílabo com resquício de duas letrinhas desbotadas que vão sumindo a todo vapor.
Olho para fora e para dentro de mim e, confusa, me perco sem saber onde estou. Já não há lugar, nem ser ou estar para me nortear ou situar a fim de eu me encontrar para sair daqui. 
Eu me perdi. Hoje sou apenas ausência de tudo que fui e daquilo que se foi...
Eu queria ter falado da vida e da falta que ela me faz, mas só falei da falta que me forma. 
Esqueci se vida é verbo, adjetivo ou mero substantivo quando fui preenchida com borrachas e a tal vida ficou desguarnecida ao ver a lágrima escorrida estragando os lápis de cor.
Tudo desbotou, perdeu o sentido e se foi. E minha alma, quase sem tinta, só queria deixar escrita a dor sentida que ainda lhe restou.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Palavras (dis)corridas e escorridas sobre as rimas – Por Betina Pilch



É noite lá fora, uma noite fria, uma noite que caiu após uma tarde cinza e chorosa, cheia de poesia e timidamente retratada em tom de prosa. Uma tarde que surgiu após uma manhã chuvosa, toda escura e dengosa, sem nenhuma chama para aquecer o coração de alguém que, silenciosamente, ama e clama para ser ouvido em alguma hora.
Sentindo os arrepios do vento soprado que, sorrateiramente, entra pela janela aberta do meu quarto, me abraço na esperança de aquecer meus braços arrepiados de frio. Sinto o tremor imediato percorrer meu corpo e logo ouço o bater dos meus dentes que se encostam em um ritmo acelerado, como quem brada para fechar a janela logo, a fim de expulsar esse clima gelado.
Minhas pernas obedecem e se colocam eretas em movimento até os vidros embaçados. Meus braços trêmulos se levantam e obrigam minhas mãos roxas, aparentemente cadavéricas, a fecharem imediatamente aquelas janelas que, apesar de estarem cheias de grades, nunca impediram ninguém de entrar.
Então, um pouco antes de fechá-las completamente, você entra no meu quarto e, não sei se pelos olhos ou pela boca ou pelo nariz ou pelo ouvido, entra dentro de mim. Assim, sem permissão e sem direção. Perdido e partido em mil pedaços, feito de caco ou de aço, não sei. Na contramão da minha alma causa aquele impacto que só você é capaz de causar e meu corpo todo sorri de dor ao lembrar que você sempre foi meu acidente preferido. Desses que machucam e fogem, mas depois voltam para arcar com o prejuízo.
E quando você volta eu fico em volta de mim como quem não sabe voltar para dentro de si. Você me tira de mim e depois me devolve à solidão que sempre pertenci.
É confuso, difuso. É coisa de outro mundo e eu finjo que entendo tudo só para não te assustar ainda mais. Sei que sou confusa, maluca, cega, surda e nunca muda. Nunca mudo nem emudeço. Grito sempre e obedeço a voz que diz pra eu transbordar e te alagar demonstrando o quanto amo te amar.
Então, te amo mesmo sangrando e agonizo pausando minhas crises histéricas de amor por você. Sei que me afasto, porque se presente me faço, de súbito devasto todo o nada que há de normal nesse ser.
Enfim, me deito, segurando meu peito, abafando essa voz que quer sair de mim apenas para te enlouquecer.
Me calo e deixo meu coração desnudo e descalço, pra ver se ele sente vergonha de ficar se mostrando pra você.
Meu coração perverso e agora sem verso se cobre com as artérias responsáveis por fazerem ele bater.
E espera que você chegue e se aconchegue ao lado dele, pra ele parar de bater e começar, enfim, a arder. 

                                                                                      

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A cor dar – Por Betina Pilch


De repente minhas pálpebras se abriram e a janela da minh'alma ficou exposta na minha face. Tudo agora é luz. A vida acontece. Porque, talvez, vi-ver seja uma questão de vi-são. Quando se enxerga a vida, ela simplesmente é. E ela sendo, nós somos também.

Às vezes há naufrágio nas profundezas da rotina. As coisas banais da existência encobrem os detalhes preciosos da vida. E, então, não vivemos, porque simplesmente não enxergamos.
É preciso reconhecer a cegueira e vestir as lentes da contemplação. Observar a movimentação do mundo sem ser parte de todo o caos. É preciso se retirar da monotonia e ser paz. Buscar um ângulo em que a vida possa ser vista e, dessa forma, possamos nos reconhecer como gente viva também.

É difícil caminhar sobre uma vida de reflexos sem reflexões. A análise se faz necessária, no entanto a mesma só é possível se nos colocamos como platéia dessa orquestra esquizofrênica em constante concerto no teatro que denominamos mundo. E a partir do momento que assistimos cada peça, encontramos a assistência necessária para o sopro da vida acontecer.

Durante o concerto buscamos ser consertados e só ansiamos por conserto, porque algo anteriormente veio a nos danificar um pouquinho. A cegueira, de fato, é sempre a maior sequela e quando o que se vê é apenas escuridão sentimos saudade. E mesmo saudade não sendo um verbo, todas as pessoas do nosso ser - tanto as singulares como as plurais- conjugam gritando como se fosse.

Saudade talvez de sorrir. Saudade de ser feliz.

Porque se as belezas são inibidas de se manifestar diante do nosso olhar, o que resta para cada ser contemplar é o sofrimento. E, (sof)rendo, quase nos rendemos totalmente a dor. Mas, ainda assim, há algo que não nos permite cair antes de ir ao encontro da vida que está reservada para nós logo ali.

Então, em meio a fraqueza, (ch)oramos. Porque (ch)orar nada mais é do que uma oração suplicante da alma que dói e, após o pranto, vem o silêncio. E o silêncio nada mais é do que um cala-frio na alma, ou seja, um calar-se em meio a frieza, porque os sussurros são petrificados e não conseguem proferir voz.

A vida, portanto, é essa busca por sentidos e esses sentidos ansiados nada tem a ver com direção. O que cada ser procura, de fato, é sentir a essência de tudo até, por fim, sentir-se como se é.
E quando se sente, assim, a si mesmo, é possível apalpar a vida e ver que ela é concreta. É possível inalar a essência de cada poro de existência vívida que há em cada ponto que nos cerca. É possível ouvir que aquela orquestra assistida encenou melodia e não apenas movimentos. E é assim que aquele que se vê como gente viva consegue degustar cada detalhe da vida.

Dessa forma, felicidade - talvez - seja só questão de criatividade. Ou seja, a ação constante de criar a vida em si. E a partir do momento que a vida é criada, ela nos dá alguns retalhos e a gente costura como pode.

A partir do momento que cada sentido é devidamente aflorado, criamos algumas rejeições. Tristeza, de repente, se torna incompatível com o ser que se assume vivo. Alegria, então, nada mais é do que uma alergia à lágrimas.
E, assim, vamos trans-bordando vida. Ou seja, bordando cada transcendência em busca constante do infinito de nós mesmos.

                                                                                                        

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Inefável cegueira – Por Betina Pilch


Deslocada, 
transitando em nada,
 vago sem mim...
A solidão brota do chão
de um órgão,
mortificado pela vida,
compositor de um pulsar sem melodia.
Então, minha essência no papel é aprisionada e,
com uma aquarela de lágrimas, 
 uma peça, repleta de vaias, é pintada.
Transmutada, a realidade gritante é ecoada
e no silêncio se instala a voz que se perdeu.
Asas quebradas
de uma alma anêmica cansada,
batem perdidas entre as pétalas ásperas
da vida que padeceu.
E, entre respirações invisíveis e distâncias
transtornadas,
espasmos de fadigas eclodem em páginas
de uma poesia enterrada que,
de tão sufocada,
morreu...


terça-feira, 7 de abril de 2015

Das quietudes que inquietam – Por Betina Pilch



"Quando o medico apoiou o estetoscópio sobre o meu peito, 
ele ouviu um grito."

Minha boca continuava mexendo, falando apenas o necessário, enquanto minha mente se fazia de morta para não ter que perder tempo de vida tentando explicar - ou somente expressar - aquilo que ninguém queria saber ou escutar. O meu coração estava prestes a ser enterrado vivo junto com as palavras que guardou para não se aborrecer. Afinal, tudo que é dito corre o risco de ser respondido e, às vezes, as coisas são ditas apenas por dizer. Dizer, talvez, apenas para si. Então, parei com essa mania de falar comigo em voz alta enquanto uma plateia se faz presente. Mantive o diálogo silencioso entre eu e a minha mente.
Simplesmente me calei pro mundo e, com o tempo, esqueci de não me calar pra mim. Então adoeci.
Sim, um coração alimentado com silêncios adoece, porque sofre de saudade das palavras que morreram sufocadas ao serem inibidas dentro de uma mente que cansou de desenhar linhas onde pudesse se expressar. E quando não se sabe o que dizer, mesmo tendo muitas coisas a serem ditas, cala-se. Mas cala-se sem emudecer... A voz esvazia as palavras e verborragia sem atopetar de sentido aquilo que foi dito. Um calar-se de palavras profundas. Um dizer calado de palavras rasas. E, calando, se conjura a abertura para aquele que apazígua, mas também sabe concitar. O silêncio entra e não sai.
Porque o silêncio não é a ausência de palavras, o silêncio é a alma dizendo que não quer mais falar. E quando a alma diz isso, não importa quantas palavras a boca fale, todo o ser é condenado e, como pena, é obrigado a se calar, tendo direito apenas a permanecer calado na presença ou na ausência de um advogado.
Minha alma, por puro cansaço, preferiu se condenar a prisão do que ir a julgamento. A liberdade do mundo é pior do que qualquer grade ou jaula com um carcereiro. Voar por aí com os pesos da tal liberdade nas asas? Não, muito obrigada. Realmente prefiro ficar aqui, sozinha e calada.
Porque não há nada que me faça sentir livre se minhas palavras são filtradas de acordo com aquilo que interessa para quem, por pura arrogância, se dispôs a escutá-las. Ninguém quer ouvir para se preencher. Todos querem ouvir para, logo em seguida, se esvaziar. E, enquanto o mundo optar por usar o que o outro diz apenas como subterfúgio para vomitar, eu prefiro ficar condenada a mim até que realmente queiram se alimentar.
Não nasci com paciência para vagas ladainhas e minha alma, por pura birra, apenas não admite que lhe tirem a poesia, quase extinta, que poucos ainda ousam enxergar na vida.
                                                                                                                     
                                                                                             

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Dezenove (mais sete) e para sempre – Por Betina Pilch


Ela acordou com ele ao seu lado pelo 19° ano seguido. E ele há 6940 dias olhava para ela como sua esposa todas as manhãs.
Assim como há dezenove anos, o dia estava chuvoso também e os tons de cinza contrastavam com o brilho das almas que resolveram se unir em uma aliança feita de eternidade.

"Até que a morte nos separe", foi o juramento no altar. Mas, com o tempo, eles perceberam que o grande desafio consistia em não se deixar morrer junto com as pequenas mortes do dia-a-dia e se permitir morrer pelo outro quando a renúncia de si mesmo se fazia necessária para a aliança permanecer com vida. Porque o casamento era isso: manter o amor vivo em meio a todas as mortes que existiam.

A união era semelhante a uma guerra com várias batalhas e era necessário lutar para vencer uma a uma, dia após dia, para que não fossem derrotados. Mas valia a pena, porque a medalha de honra era colocada no peito de ambos ano após ano, na mesma data e, naquele dia, eles percebiam o tamanho da vitória e agradeciam ao grande general que ia a frente de cada batalha.

Aprenderam também que o amor não é um conto de fadas, não é um drama de Shakespeare ou uma música da Whitney Houston. O amor é a aceitação mútua. É a disposição de abraçar o defeito do outro, beijar cada qualidade e em meio a esse entrelaçar de seres perceber que o humano é isso: um amontoado de erros e acertos longe da perfeição utópica que tantos acreditam ser real.
E, hoje, eles se deliciam com a realidade que suas atitudes arquitetaram no decorrer dos anos.

Ele, com quarenta e três, resolveu aceitar que sua alma tem dezesseis. Ela, com quarenta e seis, não honra a data que carrega no rg. E prosseguem assim: eternos adolescentes que se recusam a envelhecer.
Eles com vinte e seis anos de história riem de cada memória que o tempo modelou. Olham um para o outro e se desafiam a permanecer juntos até serem vovó e vovô.

Hoje, em um mundo de amores passageiros, simplesmente agradecem por serem exceção. E carregam a certeza que a aliança não foi colocada só no dedo - foi tatuada no coração.

                                                                                                                 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Pétalas de gratidão as graças da vida te dão por mim – Por Betina Pilch


É apenas mais uma noite que pinta o céu com a escuridão. É só mais uma escuridão iluminada pelo bordado de estrelas na imensidão. É só mais uma madrugada onde busco rimas para a essa solidão, que veio aqui saudar minha existência, mais uma vez.
Rimas... Aprendi a magia de rimar quando mesmo longe você me ajudou a remar contra todas as ondas que tentavam afogar minha alma com lágrimas ácidas capazes de queimar. E hoje, cá estou eu navegando sobre essas águas agitadas, sendo guiada por constelações, tentando não naufragar nas proporções que as minhas emoções resolvem tomar.
Olhe para o céu, minha menina. Está vendo? Eu também estou. As estrelas... Foi tudo que restou de mim.
Três Marias, Cruzeiro do Sul... E a luz mais brilhante desse céu, que eu resolvi dar o seu nome no diminutivo pra tornar o manto celeste mais azul.
Me sinto tão pequena, tão confrangida em mim. Me disseram que posso ser imensa, mas que crescer não é tão bom assim. Às vezes o desespero espanca aqui, e eu busco socorro nas lembranças que guardo de ti. Mesmo longe você é presença, é a companhia mais leve que alivia as sentenças que a vida me impõe. E em você vou me segurando em meio aos empurrões que o mundo me dá esperando eu cair.
A cada resquício de queda me vejo sorrir ao segurar sua mão e sentir que não é preciso desistir. Encontro forças para seguir mesmo quando só silêncio emana daí. E nessas palavras, escassas, que há tempo eu tenho calado, encontro uma voz que sussurra que sempre estará ao meu lado. E mesmo esgotado meu ser, assustado, adormece aliviado por ter alguém assim... como você.
                                                                                               

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

(V)ida – Por Betina Pilch

(pode ser lido ao som de "A Thousand Years" - 

Há alguém aí? Por favor... Alguém pode me ouvir?
Minhas lágrimas também possuem voz. Será que alguém por aí consegue interpretá-las?
Está doendo tanto... Será que alguém sabe como fazer parar de doer?

"Socorro! Alguém me ajude!" É tudo que consigo sussurrar em meio aos soluços, tremores e espasmos da minha alma cansada de lutar para se manter viva. Mas não há alguém. Nem nunca haverá. Ninguém aparece para responder a minha prece. Estou sozinha. Com medo. Apavorada... E despedaçada também. Minhas asas foram cortadas, já não consigo mais voar. Meu coração está quebrado, inibido de amar. 

Para onde mandam as pessoas que já não servem pra mais nada? Deve haver algum lugar para o qual fui destinada, porque até agora nunca me senti em casa. Talvez eu não pertença a lugar nenhum... Mas, então por que me jogaram nesse mundo sabendo que eu iria ficar perdida, me sentindo um imenso nada?

Perdida, partida, ferida. Onde tem ida sempre dói.  
Tem sido difícil, quase impossível viver. Até a vida tem ida, deve ser por isso que ela é tão dolorida. Não é a toa que viver rima com sofrer.

Quão alto eu preciso gritar para que ouçam meu apelo e me tirem daqui? Minha alma já não brada o bastante? O mundo está surdo ou indiferente a minha dor?
Já não cabem mais cicatrizes em mim, então, por favor, eu imploro, me carreguem para o fim. Eu só quero que isso acabe. É pedir demais?

Já não há mais cor em minha face, porque as lágrimas apagaram qualquer vestígio do que foi pintado aqui um dia. Só me resta minha eterna palidez cadavérica que me remete a morte todas as vezes que encaro o espelho e sou obrigada a lembrar quem eu sou: um amontoado de tudo aquilo que se transmutou em nada.

Não aguento mais. Estou esgotada. E a cada arcada da vida para a marcha fúnebre ser tocada eu me sinto aniquilada e não há orquestra que consiga fazer um concerto em mim.

A verdade é que já morri faz tempo e não haverá ressurreição. Fiz do meu eu um eterno caixão de sentimentos mortos e me enterrei no triste velório que vida armou pra mim. E agora os fantasmas daquilo que eu já fui um dia olham para a menina que se foi e choram, porque nunca houve despedida e, mesmo assim, a partida aconteceu.
Enfim eu percebo que não há mais volta para quem deu as costas para vida, porque o oposto dela é a morte e quem se vira para fugir das feridas, na verdade, já morreu.
                                                                                            

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Angústia lapidada – Por Betina Pilch


Há tantas palavras que evito escrever. Tantos sentimentos que tento esconder. Mas, existem momentos na vida em que é necessário se livrar dos acúmulos, ainda mais quando eles machucam.
É tão difícil escrever sobre algo que não sei explicar... Eu acabo me perdendo em nós embaraçados que se desatados podem fazer o pêndulo que bate aqui dentro do meu peito se espatifar no chão.
As memórias que você plantou aqui germinaram em forma de botões que ocasionam giros mentais e eu estou ficando completamente tonta de tanto rodear nossas lembranças.
Você me fez compreender que meu coração precisa de confusão pra bater. Então, por favor, entenda que te preciso, assim mesmo, indeciso pra transformar o que é conciso em infinito.
De partida já basta minh'alma rachada por se debater contra o meu corpo na esperança de conseguir se libertar. Então, querido, não se vá.
Você não está indo embora, porque nunca chegou de verdade. Mas está se afastando, deixando aqui apenas fantasias distantes da realidade.
O pêndulo está por um fio para não arrebentar e, caso ele caia, meu coração nunca mais vai voltar a compor melodias e, não importa quantos dias passem, ele não voltará a amar.
Então continue perto de mim. Mesmo obstante, não arrebente aquilo que aviva cada instante meu. Não me jogue num breu com ecos de adeus...
Ah..
Oh, não! Por que eu fui lamentar esse pesar com um suspiro?
Meu peito subiu e o pêndulo caiu.
Sim, o pêndulo se soltou e abraçou esse chão que, de tão liso, me fez escorregar em meus próprios sentimentos quebrados.
Caí em cima do sofrimento e os cacos me perfuraram inteira. A angústia, então, começou no estômago, subiu pro peito, ficou presa na garganta e, por fim, se instalou em meus olhos que, agora, se encontram cansados e desesperados por não conseguirem cegar as imagens insuportáveis e doloridas da verdade, nem mesmo quando se escondem sob a escuridão de pálpebras fechadas.
Está tudo aqui, sob meu corpo.
Tudo que escondi dentro do pêndulo que se jogava de um lado pro outro fazendo o som das batidas do meu coração, agora, se encontra aqui, feito cacos no chão. Oh não...
Em mim só há vontade de chorar, gritar até o corpo esmorecer.
Sou refém de mim mesma e não sei se me livro ou me mato após me render.
Quão escuro era o que eu camuflava com falsas camadas de luz aqui dentro de mim. Quantos fins eu fingi que não vi. Quantas ilusões inventei para fugir.
Engulo meu choro e caio no sono a espera de acordar sem essas imagens em minha mente tentando me assombrar. Porém, não há mais despertar para quem cometeu o desastre de quebrar a fonte que fazia o seu eu sentir. E junto com os cadáveres mudos dos sentimentos que já gritaram um dia, me velo arrependida no sepulcro da vida.
Você permanece inteiro, bem perto do meu enterro de mim. E eu pasma percebo que você nunca foi meu começo, que eu nunca dependi de ninguém para me dar um fim.
Me criei, desenvolvi e finalizei. Inventei minhas fugas e a lugar nenhum me destinei.

Hoje eu me encontro aqui, enterrada em mim. E você permanece aí, como sempre, livre de tudo, inclusive de si.
                                                                                                    

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

(Vag)ando sem rumo


As mechas de luz solar dançam lá fora e deixam rastros aqui dentro de mim. O cheiro de grama cortada exalando no ar me transporta para um tempo que me faz bem e que eu tampouco sei se realmente vivi.
A trilha sonora que escolhi para esse momento deixa meu coração inquieto e, diante de tudo isso, eu sinto uma alegria angustiante que acelera meu coração, balança minha mente, estica meus lábios e pesa em meus olhos.
Sinto que esses detalhes me levam pra perto de mim. Me lembram de um eu que conheço bem, mas não reconheço como parte da minha vida.

Então, o que sou? Onde foi que me perdi? Se é que me perdi... Talvez eu nunca tenha encontrado o sentido, de fato. E pior, talvez eu nunca tenha sentido...
Balanço minha cabeça negativamente tentando espantar essas indagações e conclusões hipotéticas que me torturam, mas elas apenas se espalham se tornando ainda mais confusas.

A alegria, de repente, se apaga. Acende o medo. Cresce a dor.
Eu costumava dizer que minha mente era cinza devido as lembranças que se apagaram e que meu coração era colorido, porque as cores do amor nunca desbotavam. Mas a verdade é que meu coração só possui o vermelho escarlate do sangue que bombeia e o arco-íris ridículo cheio de cores que não ornam é pintado por minha mente que insiste em fantasiar o azul gélido inerente a minha alma - eu tampouco posso ser cinza, porque nunca conheci a dor de ser incendiada por uma chama.

O azul gélido, de súbito, começa a derreter, espalhando gotículas por minha face perdida em uma expressão de horror ao se deparar com seu reflexo descrito nas palavras que vê sendo construídas bem a sua frente.

Céus! Preferia que só o seu azul fizesse parte dessa aquarela esquizofrênica da minha vida. E quem me dera meu arco-íris fosse tão real quanto o seu... Mas a minha imensidão não passa de uma ilusão fajuta que agora sofre uma metamorfose horrível que eu preferia não ter que encarar.

Olho para dentro de mim e vejo apenas amores de papel rasgados pela realidade que nunca soube escrever.
Eu nunca amei com o coração, talvez eu nem saiba para que serve esse órgão que pulsa dentro de mim. Sempre inventei os sentimentos com a razão criativa que foi-me dada. E, com dor na alma, agora escrevo sobre as outras tantas palavras que já escrevi. Porque eu cansei de ser assim, tão teórica. Romancista de palavras quentes e coração frio.
Cansei da ausência de cores no meu mundo real. Cansei dessa traição a poesia que sempre me foi tão leal. Cansei, cansei, cansei...
E agora caminho por essa estrada, deixando para trás meu livro cheio de nada, a espera de encontrar nessa caminhada algo que me ensine a viver pela primeira vez.
                                                                                                                   - Betina Pilch.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Das breves poesias da vida – Por Betina Pilch


Certa tarde, dessas cheias de luz, eu vi a poesia voar, carregada por pássaros e  
borboletas azuis. Seu voo era conduzido por melodias cheias de rimas e as mensagens repletas de sinas faziam eu me sentir andaluz.

Meu coração, que era feito alabastro, foi marcado por rastros de um amor.
Um sentimento diferente, um pouco incoerente, que de forma inerente se entrelaçou com a cor... que voou por ali. 

Colibri... Era o pássaro que marcava o compasso da literatura cheia de ternura que por ali dançou. E de dentro pra fora, sem pretensão de hora, o meu eu de mim desabrochou.
                                                                                  

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pro-lixo – Por Betina Pilch

As primeiras horas da manhã anunciavam um colorido dilucular que malaxava todo e qualquer coração. Cada cor narrava o paroxismo dos amores perenes, cada flor adornava o jardim dos sentimentos solenes e a vida incitava o mundo a recitar poesia em cada minudência, causando instantes de ardência na alma que acolhesse os poemas que a natureza ousava recitar.

(Acalento em meio ao tormento pesar do pensar. Distração que entibiava a constrição da alma causada pelas chamas de uma paixão em ascensão).

Mas, em minha pérfida lucidez, vazios anidridos faziam morada. E a poesia, quase calada, sussurrava para o nada que gritava, tentando melodiar os brados ensurdecedores que orquestravam dores desafinadas. Em meio a essa vazia sinfonia, presenciei a mortificação incauta do sentido da vida. E, destarte, entre uma lacuna e outra fui sendo aniquilada pelo nada que inundava os poros da minha existência frívola.

O que é a vida se não essas mortes disfarçadas de ínfimas anestesias?                                           
O que é a morte se não a queda das esdrúxulas máscaras que usamos para camuflar a pútrida caveira que somos?                                                                                                                            
(Só sei que não sei nada sobre tudo, porque estou sob um nada ofuscada pelo escuro).

Desfaleci sob as tênues linhas do viver e sobreviver.                                                                           
Cobri a vida ao invés de ser coberta por ela, vivi com cortinas sobre janelas abertas. Fiquei enclausurada pelas ciladas que eu mesma criei. Até deixei cinza o laranjado astro rei.               
As mechas bruxuleantes da vida hesitaram em se apagar, mas na involução da chama à faísca, as labaredas do encanto resolveram se ocultar.

(Prolixei a vida e pro lixo irei, pintei tudo de cinza e com as cinzas me batizarei).

Me acorde quando setembro findar, porque a primavera acabou de chegar, mas as cores desbotaram dentro de mim. E já não há recomeço, nem meio ou belo desfecho diante do fim que escolhi esculpir aqui.
                                                                                                      

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Despertar – Por Betina Pilch

Foi numa daquelas manhãs nada propícias à vida que eu acordei. Mas não foi um acordar de abrir os olhos, foi um acordar de abrir a alma e enxergar o mundo que, durante tanto tempo, eu ocultei.
Acho que todo mundo, vez ou outra, se perde nesse labirinto que é a vida. Mas ao acordar eu percebi que cabia só a mim escolher se queria ficar parada, perdida, ou continuar caminhando até encontrar a saída. Então eu resolvi levantar, caminhar, viver... Porque ficar inerte nada mais é do que uma maneira de enterrar os caminhos que nos são dados para não sermos obrigados a caminhar por eles - e eu estava completamente disposta a desenterrar e conhecer esses caminhos dessa vez.
Coloquei aquela música em inglês que eu nunca li a tradução, porque o importante era que eu gostava da batida, e ri ao perceber que algumas coisas não precisam ser descobertas completamente para serem apreciadas. A música não estava em sincronia comigo, ela tinha uma batida alegre, porém pausada, e meu coração estava completamente acelerado e eufórico. Não, a música não tinha nada a ver comigo, ainda bem. Porque quando uma música veste bem em alguém quer dizer que a vida não está muito fácil. Então eu resolvi descomplicar tudo e comecei a cantar a tal música de um jeito totalmente errado e ri do meu inglês fajuto inventado. Comecei a pular e desafinar e melodiar a vida que estava silenciosa há dias, abri a porta do meu quarto e saí saltitando pelo corredor. Parei diante da porta da cozinha e com um andar totalmente confiante caminhei até a garagem e, por fim, até o portão. 
A manhã estava cinza e fria, dessas que sussurram pedindo para ficarmos na cama até o sol resolver dar sinal de vida. Mas eu calei a manhã, abracei os sinais de morte cinza e gritei que iria colorir o mundo com a aquarela que descobri dentro de mim. 
Saí rindo totalmente sem rumo e pouco me importando com isso - porque ficar sem direção quando estamos presos é horrível, mas ficar sem direção quando somos livres é a melhor sensação. 
A vida é feitas de escolhas. Alguns escolhem viver, outros morrer ou apenas sobreviver. Eu escolhi viver, porque finalmente enxerguei que a vida é viva - de tanto me prender nas estrelinhas esqueci de perceber o óbvio. Descobri que cobrir a vida com detalhes mórbidos é um ato de covardia, porque morrer é tão fácil, mas viver, ah! Viver sim exige de nós muita coragem.
Caminhamos nesse meio-fio-do-mundo-nosso, entre linhas tênues bambas que nos fazem temer e tremer, mas percebi que olhar para o chão não é a melhor visão a se encarar. Há uma imensidão acima de mim e finalmente descobri que posso alcançá-la - basta eu abrir minhas asas e libertar meus pés dos grilhões que eu mesma criei.
Então saí por aí, por ali, acolá, cá e me perdi na minha própria liberdade. E não estou preocupada, porque agora sou livre para encontrar muitas saídas, entradas, janelas abertas, portas trancadas, e abraçar a vida que eu tanto ignorei. 
                                                                                                           

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Uma taça de vinho tingida de solidão – Por Betina Pilch


Resolvi tirar a madrugada de saudade. Saudade de você, saudade daquilo que nunca existiu, saudade de nós que nunca atamos. Então ouço aquela música que sempre me leva pra perto da gente que vive tão longe e tinjo meus lábios de roxo com um vinho tinto que me embriaga levemente.
Você está no quarto ao lado e eu permaneço aqui na calçada da sua solidão a espera de que você abra a porta para eu entrar. Espera frustrada. Você permanece aí e eu aqui, ambos bailando abraçados com a solidão que nos entorpece e nos domina por inteiro.
Você dança tão silenciosamente que mal consigo te ouvir. Sempre tão sutil e discreto - penso enquanto encho minha taça pela segunda vez. E então faço da solidão uma piada e começo a rir ironicamente, porque infelizmente ela não tem a mínima graça. 
Saboreio mais alguns goles dessa tinta roxa e penso que sua boca quente combina bem mais com os meus lábios do que essa taça de vidro fria. Meu batom manchando sua boca seria muito melhor do que esse roxo pintando meus lábios, mas infelizmente são as cores que nos escolhem e não nós que escolhemos as cores. 
Então fortifico a única cor que foi-me dada em meio a essa madrugada fria e na terceira taça de vinho a solidão não só dança comigo como também canta em meus ouvidos uma melodia tão triste que me obriga a chorar - e o meu vinho que era seco, agora é molhado pelas lágrimas que suavemente escorrem pela minha face antes maquiada pra você. 
Lentamente observo tudo se esvaziar: a garrafa de vinho, minha taça e minha alma agora derramada sobre tudo aquilo que esvaziei. Então olho para o fundo da taça levemente tingida de roxo, semelhante aos meus lábios, e suspiro ao encontrar o vazio ali dentro me esperando - me esvaziei dos vazios e eles continuam transbordando. Então bebo essa solidão que agora está desafinada demais para continuar cantando em meus ouvidos e, a goles sôfregos, dou um fim nela. Me sinto completamente embriagada - e ainda assim ciente de que no dia seguinte a ressaca será eterna. Porque no fim estou sempre só - só comigo. Sozinha. Sem você.
                                                                                                        

sábado, 19 de julho de 2014

Sonhos no frio de um inverno – Por Betina Pilch


"Por favor, não me deixe ir, porque, se eu for, temo nunca mais voltar." - eu dizia desesperadamente olhando em seus olhos que transbordavam medo.
Era noite de lua cheia, uma noite incrivelmente clara e estávamos em um lugar sombrio indecifrável. Você segurava uma vela vermelha enquanto muitos incensos eram acesos e no meio desse cenário eu me sentia completamente perdida e fraca. Enquanto eu aparentava fragilidade, você agia com bravura, estava destemido, como se tudo aquilo fosse natural. Mas quando minhas energias foram sugadas e eu estava prestes a cair, sua postura mudou completamente. Eu pronunciava aquelas palavras em tom de súplica e via seu olhar sendo tomado pelo sentimento de impotência, era como se você não pudesse me livrar do que estava acontecendo - talvez eu estivesse sendo condenada por mim mesma e nesse caso só eu poderia me salvar, não sei. O fato é que eu sentia a morte me atraindo para perto dela e seu rosto, de repente, nada mais era do que um doce borrão. Eu já estava me entregando às sombras que dilaceravam a luz quando, de súbito, senti um sopro de vida me resgatar - era você me abraçando fortemente pela cintura e sussurrando em meu ouvido que não ia me deixar. Nunca deixaria - você enfatizou por três vezes consecutivas. E, incrivelmente, isso não me surpreendeu. Era como se eu já soubesse que isso ia acontecer. Dentro de mim eu possuía a certeza de que você me resgataria dos braços da escuridão e faria eu retornar à luz que sempre pertenci.
Vida e morte. Luz e trevas. Coragem e medo. 
Você iluminou minha vida e corajosamente me livrou da condenação. Consigo lembrar nitidamente de como você me fez sentir segura enquanto sustentava toda a minha fraqueza em seu corpo forte e trêmulo e, mesmo fraca, tudo que eu queria era te deixar ciente da minha gratidão.
Eu estava completamente debilitada quando você me deitou sobre um banco de madeira e acomodou minhas pernas em seu colo. Você olhava para mim com seus olhos cheios de preocupação e me dava um sorriso cheio de tranquilidade - e esse foi o momento em que mais amei suas contradições. Mesmo sem proferir nenhuma palavra, eu sabia que você estava ali para cuidar de mim e, como se estivesse lendo meus pensamentos, você ousou dizer "para sempre".
Sua aura não estava mais cinza, encoberta por nuvens e névoa que me impediam de te decifrar. Sua aura estava verde, forte, se atrevendo a mostrar sua completude em meio a toda essa confusão.
E então eu acordei. Acordei com meu coração repleto de paz, porque, de certa forma, nossas almas se encontraram essa noite. E você me salvou. Me salvou de mim mesma e dos meus vazios mais uma vez.
                                                                                                           

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Carta aos cuidados da chuva – Por Betina Pilch


Querido Sam, 
Está chovendo lá fora e eu me pergunto como você está. É provável que você esteja sendo um dos você apropriado para o momento, afinal você tem uma máscara certa para cada ocasião. Ou talvez você não esteja preocupado com isso e, nesse momento, só haja um Sam perdido em seus próprios devaneios, imerso em sua aura cinza que vive nublada para que ninguém consiga enxergar o que realmente há nela. 
Ah, menino mistério, você me confunde tanto...
Estou escrevendo essa carta, porque assim como você se esconde atrás das máscaras, eu me escondo por trás das palavras e nas entrelinhas vou me despejando. Ambos temos nossa maneira de fugir da vida, talvez. Mas o fato é que tenho esperanças de que um dia essas palavras cheguem até você e finalmente eu me livre desse segredo que me tortura há mais de um ano, porque está cada vez mais insuportável esconder o que eu sinto.
Meu coração é feito de fragmentos que tentam se juntar para transformar toda essa fração em um número inteiro e, apesar de toda essa matemática, ele jura que é poesia. Não sei como é possível acreditar em algo que venha do meio de toda essa confusão, mas meu coração jura que te ama. Talvez ele esteja embriagado de paixão e por isso fica bradando essas coisas malucas no compasso de cada pulsar, mas o fato é que ele não me deixa esquecer o que sente. Aí toda vez que eu olho pra você eu lembro dele dizendo que te ama e que você é o único que pode ajudar ele a se restaurar de vez. Sim, eu já disse pra ele parar com essa besteira - você não deveria depositar em alguém essa responsabilidade que na verdade é sua - eu vivo dizendo, mas ele não me ouve e, pra piorar a situação, começa a gritar seu nome igual um doido. 
Não sei por que diabos ele escolheu você, justo você que é tão complicado, justo você que é tão impossível. Mas ele escolheu e não há céu nem inferno que o faça mudar de ideia.
Confesso que houve um tempo em que eu fazia tudo que meu coração pedia, mas depois de tantas quedas a gente começa a ter mais cautela na hora do impulso e hoje eu prefiro não saltar mais rumo a ilusão nenhuma. Então vivemos essa eterna descomunhão: eu sendo razão e meu coração sendo coração mesmo. 
Meu coração diz uma coisa, eu finjo que acredito em outra só por teimosia. Ele grita o seu nome, eu começo a cantar a música que você mostrou pra mim só pra não ouvir o que ele está dizendo. Meu coração começa a cantar a música que sempre imaginei você cantando no nosso casamento e eu na maior cara de pau digo que isso é impossível - mesmo sabendo que o impossível nunca teve vez na minha vida.
Enfim, a verdade é que eu discuto com o meu coração só pra ter a ilusão de que ele não me governa, mas no fundo eu sei que ele é o meu guia, e talvez seja por isso que vivo desnorteada. O fato é que concordo com ele, estou prostrada diante de tanto amor e não sei mais o que fazer.
Então me responda Sam, o que eu faço com esse sentimento? 
Eu já tentei de tudo. Já tentei ignorar ele pra ver se ele se suicidava. Já fingi que ele não existia até eu acreditar na minha própria mentira. Já tentei não alimentá-lo até que ele, enfim, morresse. Mas quando eu vi, você já tinha alimentado ele com sorrisos, com batatas e panquecas e sei lá onde foi parar o sentido de tudo isso. 
É, nada disso faz sentido. Na verdade, nunca fez sentido algum e é por isso que eu nunca soube qual é o nosso destino, porque talvez não haja destino nenhum. Acho que não vamos para lugar algum, porque estamos perdidos - perdidos em nossa própria confusão. E quem sabe, no meio dessa bagunça toda, a gente acabe se encontrando e se ajeite de vez.
                                                                                                

domingo, 13 de julho de 2014

(C)or-do-sol – Por Betina Pilch

Aquele seu riso exibido de erro percebido me fez sorrir deliciosamente. Você tem esse dom de me encantar, enquanto canta com a aquela pose de moço sedutor e olhar envolvente. Mas eu realmente gosto quando sua pose despenca e o que resta é aquele simples menino oculto em sua essência. A complexidade transforma a brisa em vendaval, a garoa em tempestade, a calmaria em tormento. Já a simplicidade torna tudo mais leve e suave. Então, quando você errou aquela simples nota e sorriu, eu queria aplaudir seu riso em pé, porque – de fato – sua alma sendo exposta através daquela expressão risonha tinha sido a melhor parte do seu show teatral. E tudo isso justo naquela noite!
Aquela noite que chegou após uma tarde linda e cheia de melancolia. É, eu tenho essa mania de misturar todos os tipos de sentimentos em um único dia. Mas aquele dia… Ah! Era um daqueles dias em que não namorar o céu parecia um tremendo absurdo. Meus olhos beijavam cada cor celeste e me faziam sentir a delícia de degustar aquelas cores que devastavam o cinza. Admirando a imensidão, eu via o sol rasgando e queimando o horizonte, para dizer adeus à tarde e dar lugar à noite.
Ah! O Sol… Sempre tão humilde, eu pensava comigo. E, enquanto ouvia o adeus, meus olhos, que antes beijavam o céu, agora – taciturnos – olhavam pro sol, porque sabiam que os sabores das cores iriam se pôr junto à luz ofuscante. As cores estavam indo embora e eu, na minha ignorância, achava que a poesia também, mas logo fui beijada por um milhão de rimas. Caiu a noite e a pose dele despencou. Isso me fez pensar em como algumas quedas podem ser incrivelmente bonitas. Eu, que vivo caindo em pranto, despencando dos sonhos, levando tombos, nunca tinha percebido a beleza de uma queda. Justo eu, que coleciono garoas, cascatas e cachoeiras de lágrimas, nunca havia notado que toda queda ou gera sentimentos ou é gerada por eles – e eu nunca gostei de cair. Nunca gostei do roxo que as quedas deixavam.
Ah! As cores que me perdoem. Eu reclamava do cinza e, quando era colorida com tons de roxo, ficava brava. Quando as cores eram obrigadas a se pôr com o sol, eu me entristecia. Ah, menina indecisa! Mas o fato é que as cores do céu no final da tarde eram minha anestesia. Meu artifício inventado para fugir da vida. E, toda vez que o sol ia embora e levava consigo sua caixinha de lápis de cor, eu olhava para mim e lembrava que eu não passava de um contorno em preto e branco. E, quando a noite caiu e eu vi que ele sorriu, descobri nele o arco-íris que sempre almejei – e apenas desejei que, um dia, quem sabe – num final de tarde –, ele refletisse em mim.
                                                                                       
(Texto publicado originalmente no blog Retratos da Alma: