terça-feira, 26 de abril de 2022

Biblioteca - Por Betina Pilch

Hoje eu estava na biblioteca. Aquele espaço onde me encontrei pela primeira vez. Aquele espaço onde me senti perdida tantas vezes. Aquele universo que pariu tantos versos meus. Aqueles versos que uniram e rasgaram tantos universos em mim.

Ali, naqueles corredores, eu caminhei por muitas manhãs. Eu sorri e chorei em muitas tardes. 

Sentada naquelas cadeiras eu li Dostoiévski pela primeira vez. E deixei de me ler outras tantas.

Encontrei pessoas e me desencontrei de mim ao mesmo tempo que me encontrava todos os dias. E foi ali que redigi e li emails que apaguei para sempre da minha caixa de entrada, mas que nunca saíram daqui. 

Ali, naquela biblioteca, um dia eu sonhei em ser quem eu sou hoje e hoje sendo quem eu quis ser um dia, não tenho nenhuma certeza de quem eu realmente sou, mas já não sonho em ser outra coisa se não o que eu sou simplesmente.

Um dia, entrei ali menina. Uma noite, saí dali mulher. 

Uma biblioteca. Um casulo. Uma metamorfose. 

Uma metamorfose para além de Kafka. Nada a ver com insetos. Ainda que tantas vezes borboletas tenham voado dentro do meu estômago enquanto eu estava ali. 

Certa vez alguém chorou palavras de Valter Hugo Mãe e, ouvindo aquele choro, eu chorei também. 

Certa vez alguém mergulhou como Margarida e, vivenciando aquele mergulho, eu mergulhei também. E mergulhar em si às vezes significa se afogar e não sobreviver. 

Eu não sobrevivi.

Era final de tarde quando olhos verdes pararam naquela porta e me invadiram e eu quis me esconder. Me esconder para que os olhos marrons não vissem que eu tinha sido invadida. E por pouco aqueles olhares não se cruzaram.

Era noite quando as palavras nasceram e me acusaram de ser a responsável por elas, ainda que eu mesma não escrevesse uma palavra sequer há tanto tempo. Mas eu li tudo, mesmo não sabendo mais ler a mim mesma. 

Uma biblioteca. Uma história. A minha história. 

E eu contei tantas histórias ali. E acabei me contando em tantas delas. E eu senti medo de me lerem. Eu senti medo de ser eu.

Era meio dia quando acordei fora daquela biblioteca e precisei encarar minhas mortes pela primeira vez. E era nove horas da manhã quando renasci ali dentro de novo. 

Eu morri, renasci e vivi tantas vezes naquela biblioteca que me tornei um livro desconexo e nada linear vagando por aquelas estantes. E cada vez que entro ali me empresto para os outros, para finalmente me devolver a mim. 


- Betina Pilch.


 

terça-feira, 1 de março de 2022

Naquele bar - Por Betina Pilch

Naquela madrugada,

No meio de um bar sentada,

Vi cada pose cair 

E não restar nada

- além da verdade.


Ali, naquele bar,

Cada pessoa se anestesiava

De alguma forma

E cada um fugia de algo 

Que não era necessário falar.


Ali, naquele bar, 

Os sentidos eram explorados

Vividos 

Experienciados 

De forma singular.

E ali, naquele bar,

Eu cerrei meus lábios 

e deixei meu olhar escutar

Meu ouvido falar

Minha boca olhar.


E eu vi, ouvi e senti tanta coisa.

E eu falei tanto sem nada dizer.

Porque ali, naquele bar, 

Existir era o suficiente 

E o suficiente já era pesado demais.


Naquele bar,

Cada existência era entrelaçada 

E marcada por outras existências.

E ninguém queria ser

Outro alguém 

além de si

- sabiam que não conseguiam.


Porque nos bares

De madrugada

Não nos resta nada 

Além de nós.

E o resto não importa 

Se pudermos pagar a conta no final

- e essa é a metáfora da vida.




segunda-feira, 22 de maio de 2017

(Abr)aço – Por Betina Pilch




Sempre quis um abraço teu.
Abraço espontâneo. Quase subcutâneo. 
Que alcança a alma. Que surpreende e acalma.
Sempre quis um abraço teu. 
Sem precisar pedir. Sem ter que tomar a iniciativa de abrir os braços 
e insistir. 
Sempre quis um abraço teu. 
Que demonstrasse o prazer de amar. 

Que evidenciasse a necessidade de cuidar. 
Que dissesse eu te amo sem nada falar. 
Sempre quis um abraço teu. 
O abraço que por vontade própria nunca me deu. 

O abraço que nunca cedeu. 
O abraço que tantas vezes doeu 
ao ser rejeitado. 
Sempre quis um abraço teu. 
Abraço sem obrigação, pra sentir teu coração feliz ao me abraçar, 

contente pelo simples fato de me ter 
nos braços. 
Sempre quis um abraço teu. 
O abraço que mais cedo te vi dar em outro alguém. 

O abraço que sempre precedeu meu amém. 
O abraço que eu queria que fosse meu e de mais ninguém. 
Sempre quis um abraço teu. 
Mas esse abraço 

- eternizado em sonho - 
você nunca me concedeu.



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mais poesia do que argumentos - Por Betina Pilch


Cresci ouvindo que contos de fadas não existem. Que eu era romântica demais, sonhadora demais, tudo em demasia. Que eu precisava crescer, amadurecer, parar de acreditar que o príncipe encantado ia chegar. Cresci abraçando utopias, me entregando aos sentimentos, me machucando com a realidade. Cresci, mas permaneci pequena, sem perder minha fé, a minha liberdade.
E aí, você apareceu. Todo razão, cheio de argumentos e eu parei pra te admirar. E você me notou. E a gente se encontrou na esquina da tua racionalidade. E eu te peguei pela mão e te conduzi à estrada da minha sensibilidade. E aí nada mais fez sentido. Só sabíamos sentir.
Você disse que eu era um anjo e eu lembrei que tinha asas. Mas você também disse que não fomos feitos pra voar, por isso odiava viajar de avião. Então caminhamos de mãos dadas em terra firme, com a alma pendurada num balão.
Compreendi que as pessoas estavam certas, contos de fadas não existem. Não dá pra confiar em histórias de amor que começam com o verbo no passado. Porque amor é presente. E o nosso é cheio de laços que eu nunca vou desatar.
Príncipes encantados não existem e que bom!, porque eu não acredito em monarquia mágica. Prefiro um camponês comunista militante do amor. Existe algo mais intenso e bonito que isso?
E eu me apaixonei. E você acendeu aquele cigarro pra mim depois de uma dose de uísque compartilhada. E eu despejei minhas dúvidas embriagadas em cima de você e você respondeu que me amava. E eu quis te beijar com intensidade, porque sabia que você era o amor dos meus sonhos concretizado na minha realidade. E eu sorri. E meu sorriso nunca foi tão infinito e sincero.
Perdi a noção de tempo e espaço quando te senti fisicamente. Esqueci as fórmulas que nunca aprendi e pelos meus cálculos a gente nasceu pra dar certo. E eu não estou nem aí se sou péssima com números, tenho fé no que sinto e não preciso de respostas lógicas pra acreditar em nós.
Porque eu sou poeta. E você é músico. E não existe música sem poesia e nem poesia sem melodia. E eu já não sei o que é ser eu sem você e não quero imaginar você sem mim, porque é tão bonito ver nossos sorrisos rimando em uníssono a cada batida sincronizada dos nossos corações.
Você é minha poesia preferida. E hoje está imortalizado em cada palavra minha. Ninguém mandou você despertar em mim o verbo amar. Esqueci toda a gramática que me ensinaram, agora é só esse verbo que eu sei conjugar.
Eu amo. Tu amas. Nós amamos. E ele, ela, vós, eles e elas amam ver a gente se amar.

sábado, 18 de junho de 2016

Áspera espera – Por Betina Pilch


Ela se despiu das suas roupas, ficou nua diante do espelho, acendeu um cigarro, bebeu uma dose de uísque e vestiu suas angústias e seus medos.
Desejou tragar a morte para dentro de si, mas tudo que tinha era aquela nicotina barata que já não a anestesiava mais. Foi pra baixo do chuveiro e ficou imóvel, estática, enquanto a água escorria por todo o seu corpo. Desejou que aquela água lavasse todas as suas misérias e que todos os seus fardos escorressem pelo ralo pra nunca mais voltar.
Mas a água lavava o seu corpo e a alma permanecia intocada, imunda, pútrida. O coração continuava sangrando e cheirando a morte e nada no mundo era capaz de limpar aquela imundice toda.
Tudo doía. Cada aresta e ângulo do lado de dentro. Doía-lhe viver. Doía-lhe respirar, porque era obrigada e isso a torturava. Não lhe agradava não ter pleno domínio das coisas.
Encarou seu reflexo no vidro do box do banheiro e, ainda estática, apenas movia seus lábios e empurrava a voz para fora de si dizendo que nem tudo é esperança. Às vezes é só uma espera agonizante que nos faz perguntar se a morte não está atrasada ou se chegou adiantada demais.
Sentia-se morta em frações. Queria morrer por inteiro.
Saiu do banheiro, foi para o seu quarto ainda nua, dispensando qualquer toalha. Não queria se secar. Já se sentia seca demais por dentro.
Ela sabia que só se sentiria livre quando não pertencesse mais a esse mundo e então se libertou.
Sua alma finalmente estava tão nua quanto aquele corpo deitado na cama forjando um sorriso. Aquela alma estava livre de qualquer vestimenta feita de carne, ossos e pele. Então foi para onde nenhum vivo jamais terá acesso. E sentiu-se viva pela primeira vez.
No dia seguinte, os vivos abriram a porta do quarto e encontraram aquele corpo lavado de sangue e com um sorriso estampado na face. Sentiram angústia com aquele sorriso da morte. A felicidade dos mortos é desconfortável.
Houve alguém que disse "morreu com o mesmo sorriso que sempre viveu" e resolveram sorrir também. Porque é isso que os vivos fazem, vestem suas máscaras pra não expor a nudez da alma na face. Porque o maior atentado ao pudor é permitir que vejam suas intimidades mais internas.
Aquele corpo lavado de sangue sorria porque finalmente a alma estava excitada com a vida, os pulmões não eram mais obrigados a nada e o coração estava livre das impurezas. Não sangrava mais. Dormia. Pra sempre.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Nota sem som é inútil

Quando eu tinha dez anos de idade e estava na quinta série, tive minha primeira discussão por algo que acredito. Era uma aula de filosofia e meu professor se referia a Deus como "aquele cara", em tom de desdém. Então, levantei minha voz indignada e pedi respeito. Meu professor - surpreso - tentou se justificar. Eu o afrontei e argumentei com ele durante bons minutos. Ele acreditava em algo. Eu acreditava em outra coisa.

Esse mesmo professor acabou me pedindo desculpas e disse que ele realmente deveria respeitar quem tinha fé como eu.
 Esse mesmo professor, no final da aula, me chamou num canto e pediu pra eu não me limitar a uma crença imposta e me aconselhou a ler O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder. Eu, mesmo criança, não era fechada a novas ideias e no mesmo dia enlouqueci minha mãe para comprar o livro. Então, li o tal livro com mais de 500 páginas aos dez anos de idade. Me apaixonei por filosofia e, por conseguinte, pela literatura.

Entendi a visão do professor, respeitei, no entanto não precisei mudar a minha
. Não precisei. Mas quis entender a dele. Me permiti acolher o lado oposto da minha opinião. E sabe, não doeu.

Sim, desde os meus dez anos sou leitora de diversos gêneros literários. Desde a literatura chata e insuportável que a escola me obrigava a ler, como os livros que eu buscava por conta própria e que me tentavam a deixar de fazer as lições de casa para dar mais atenção a eles. Enquanto a escola me mandava ler “A ilha do tesouro”, eu ia à biblioteca e pegava pra ler todas as obras de William Shakespeare.

Mas a filosofia sempre foi um amor estonteante e volta e meia me pegava novamente. Sofia tinha encalacrado na minha alma e desde que li sua história, eu nunca mais olhei pra algo sem me perguntar “por que?”. Eu quando eu vi, já estava lendo Nietzsche.

Aos onze anos, escrevi minha primeira poesia. Olhei pra fora e vi esperança numa singela árvore. E me assustei com a frieza da filosofia.
 A filosofia me fazia pensar, me muniu da capacidade argumentativa, da análise do discurso, no entanto percebi que deixamos de ser humanos quando não sentimosEntão, passei a alimentar minha sensibilidade poética, sem emudecer a racionalidade incrível que a filosofia tinha me dado.

Uau! Que menina inteligente, não é mesmo?

Errado. Não era isso que eu ouvia. Nunca fui boa aluna. Ficava louca nas aulas de matemática, não suportava as aulas de Língua Portuguesa e durante as explicações dos professores eu escrevia. Escrevia textos e mais textos para um amor que eu ainda não havia sentido. Escrevia na esperança de um dia sentir. Escrevia aquelas coisas inúteis e desnecessárias e deixava de fazer as tarefas que me eram impostas.

Mas, quando o professor de história e o de filosofia entravam na sala, eu parava tudo que estava fazendo pra prestar atenção. Nunca esqueci o que foi o Tratado de Tordesilhas, Pacto Colonial, Revolução Francesa, tática de terra arrasada, quem foi Napoleão Bonaparte, Sócrates, Platão, Aristóteles - não necessariamente nessa ordem - e entre outros. Mas eu não era boa aluna.

Então, aos 15 anos, me deparei com outro professor de filosofia. Um professor que em sua primeira aula leu para a minha turma A Tabacaria de Fernando Pessoa.
 Poesia que até hoje é a minha preferida e, mesmo sendo absurdamente extensa, eu sei de cor e posso recitar pra quem quiser ouvir. Porque foi aí que poesia e filosofia se entrelaçaram num abraço cheios de laços que eu nunca mais desatei.

Esse professor nos falava sobre o germe da revolta. Criticava o nosso modelo de escola, educação. Incitava-nos a questionar tudo.
 Contava pra gente das suas épocas de adolescente, militante e poeta. Mostrava-nos a cada aula que ser jovem e não ser revolucionário era uma contradição genética.
Foi a partir desse momento que comecei a olhar pra política mais de perto. Comecei a me aprofundar em alguns assuntos, enlouquecia meus amigos com meus discursos e pensamentos histéricos e indignados. André Guilherme, meu melhor amigo na época, que o diga!

Comecei a ter coragem de mostrar para as pessoas o que eu escrevia e fui incentivada a criar um blog, esse blog, para que mais pessoas tivessem acesso aos meus escritos. Acreditei que podia escrever e que - quiçá - eu até soubesse escrever. Fui bastante ousada no meu pensamento, admito. Mas hoje percebo que a ousadia é mais do que necessária.

Meus primeiros textos falavam da minha revolta com o povo e com a política do nosso país (deem uma olhadinha nos arquivos de 2012/2013 do blog). E, nessa época, eu bati de frente com muita gente. Na minha cabeça, eu acreditava que pra mudar algo na política era necessário que eu começasse pela minha própria cidade. Comecei a acompanhar o que acontecia perto de mim e não hesitei em criticar diretamente os governantes daqui quando eu não concordava com algo.

Tenho amigos no site facebook  que me adicionaram justamente porque viram um texto crítico que escrevi na página do prefeito da minha cidade. E DEIXA EU CONTAR UMA COISINHA PRA VOCÊS: Ele é do PT. E sim, ele foi o melhor prefeito que nossa cidade já teve, mas isso não quer dizer que seja perfeito. E eu apontei as imperfeições visíveis. Porque não, eu não defendo ilegalidades, eu não defendo corrupção, eu não defendo nada de errado na política. Mas eu só me posiciono diante de alguma situação quando ela é concreta. Quando há provas irrefutáveis de algo. Porque eu abomino injustiça e nunca fundamentei o que acredito na base no achismo.

Bom, após um tempo de construção intelectual, muita leitura, muito estudo, como eu disse, entendi que a poesia podia ser crítica também. Na verdade, a poesia é feita de muita filosofia.
 Para a minha surpresa, nessa mesma época, a professora de literatura da escola nos passou o tema do texto que teríamos que escrever para o livro da escola. Os melhores iriam para a glamourosa noite de autógrafos. O tema era “Com licença, eu vou à luta!”. E eu, tomada pelo sentimento do momento, escrevi mais uma vez sobre política e fui para a tal noite autografar os livros que acolhiam a minha poesia.

Continuei escrevendo. Nunca parei.

Então, sofri meu primeiro choque de realidade. Após nove anos estudando num colégio particular, fui obrigada a ir para a rede pública de ensino. Ouvi os mais absurdos e preconceituosos discursos. Coisas como “Nossa, que pena. Justo no terceirão? Você nunca vai passar no vestibular desse jeito”; “Você vai mesmo? Que medo por você, estudar em colégio público deve ser horrível!”; “Justo no tenente? Lá só tem bandido, morte, é perigoso. Parece até presídio”; “Meu maior medo sempre foi estudar no tenente. Que dó de você!”.

Sim, ouvi isso dos colegas que sempre estudaram comigo em colégio particular. Colegas que nunca tiveram que encarar a realidade de perto. Colegas que baseiam suas opiniões políticas no que os pais burgueses acreditam. E queria muito que eles estivessem lendo isso, porque eles precisam saber que colégio público não é filme de terror. Colégio particular é que é conto de fadas demais e cria pessoas dentro de bolhas, não permitindo que tenham acesso à realidade. Colégio público é vida real. E é maravilhoso!

Pode até ser que o colégio público não prepare os alunos para o vestibular, mas faz algo muito melhor. Colégio público prepara os alunos pra vida. Prepara os alunos para a realidade social. E eu pude experimentar um pouco disso. Eu pude sair da utopia que eu vivi durante muitos anos da minha vida.

Passei a entender a importância das greves e vi que isso não era coisa de gente que não queria trabalhar. Bem pelo contrário, era coisa gente corajosa que trabalha muito e ama o que faz, e por isso luta por melhores condições de trabalho. Entendi que há governos que TENTAM melhorar a educação, que dão ouvidos aos brados dos professores. E que há governos que nem direcionam o olhar para a realidade escolar pública e pra não serem incomodados com ladainhas chatas de vagabundos que exigem demais, dão um jeitinho de calar as vozes com bala de borracha, gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e até Pitt Bulls raivosos.

Nesse colégio público, me deparei com um professor de sociologia que fazia das suas aulas um eterno debate político. O que eu gostava bastante.
 Em uma das suas aulas, pedi licença pra recitar um poema que eu tinha escrito e que se intitulava "Ditadura camuflada". E o meu professor de sociologia, que também dava aula na Universidade Federal do Paraná, começou a divulgar meu blog para todos os seus alunos. Porque nesse colégio, eu comecei a ser valorizada por ser boa naquilo que eu fazia.

Nesse ano, tivemos uma semana cultural no colégio com o tema TROPICALISMO. Sim, que alegria a minha!
 Estudamos o movimento, ouvimos Caetano, Chico, Gilberto, Elis, etc, com tanta frequência que eu não queria que aquilo acabasse. Na apresentação da minha turma, fui convidada a recitar outro poema de minha autoria para o colégio inteiro ouvir. Falei sobre opressão e liberdade. Frieza e sensibilidade. Ódio e amor.
Entendi, de verdade, a gravidade de uma ditadura. Tive náuseas. Senti pavor. E suspirei com gratidão por não ter nascido numa época de repressão. 

Nesse ano, eu já não sabia se queria ser professora de Filosofia ou Sociologia, ou se queria cursar Direito.

Então, no segundo semestre, conheci minha nova professora de Língua Portuguesa. Uma professora que ensinava com tanto amor que eu me apaixonei.
 Dava pra ver nos seus olhos cansados, no seu humor alterado, o quanto ela lutava pra não desistir da sua profissão. É evidente que não é fácil ser professor, mas ela mostrava diariamente que valia a pena lutar pra ser.

Ela dizia que eu tinha talento com as letras. Me incentivava a continuar escrevendo. E dizia que eu daria uma boa professora de Literatura. Que seríamos colegas de profissão um dia.

Meses depois, tivemos a segunda semana cultural, a semana do teatro. E eu escrevi uma peça intitulada "Romeu e Julieta nos dias atuais". 
Nessa peça eu criticava a desigualdade, o preconceito, a divisão da humanidade alimentada pelo ódio e pela violência. A descomunhão que as diferenças causavam quando poderiam muito bem se unir em prol do bem estar comum. Que as diferenças quando colocadas sob a lente da intolerância, matam.

Ganhamos o festival. Fomos premiados. E houve bastante revolta das outras turmas, julgando que não éramos merecedores da vitória. Isso me deixou muito feliz também. Gostava de sentir os jovens inconformados, se expressando. Tinha medo era do conformismo. Mas me orgulho - e muito - da minha vitória.

Foi nesse colégio que decidi que queria ser professora. Que a educação era a única forma de mudar o mundo e que isso levaria milênios, mas que eu gostaria de fazer parte. De fazer a minha parte.

Nas aulas de história, estudamos a fundo o nazismo com uma professora tão incrível quanto a de Língua Portuguesa. E mais uma vez eu entendi o que era alienação. E até hoje tenho medo dela. Porque a alienação cega. A alienação prende. A alienação mata.

Hoje, eu sou graduanda de Letras. A maioria dos meus mestres são, assim como eu, defensores da esquerda. Meus colegas militam diariamente pela igualdade. Convivemos com uma pluralidade incrível de ideologias. E todos os dias eu vejo algum deles sendo insultados por pessoas que formaram sua ideologia política com base na mídia e no próprio facebook. Ou pior: que só agora, diante da histeria da população, resolveram assumir uma posição política. Que nem sabem o porquê de defenderem o que defendem, mas gritam o que pensam porque é bonito. É preciso. Todo mundo precisa estar de algum lado e se for do lado oposto ao meu, é guerra!

Estou dizendo tudo isso, porque minha caminhada pra construir o que acredito foi longa. Foi à base de muita busca pelo conhecimento. Estudei muito pra criar uma opinião própria sobre as coisas. E não, não comecei isso hoje ou ontem. Comecei isso há anos. Não discuto política agora. Discuto política há bastante tempo, basta dar uma olhada nos arquivos daqui.

E assim como eu levantei minha voz aos dez anos de idade, diante de uma turma de quinta série, pra defender o que acreditava, continuarei levantando minha voz hoje.
Podem criticar minhas opiniões, só não me julguem ignorante ou desinformada, porque isso eu nunca fui. E antes de defender um lado, eu sempre busco conhecimento sobre o outro lado também. Tentem fazer esse exercício. Acreditem, é muito bom.

Não escrevi esse texto pra defender Lula ou Dilma. Pra gritar “Sou PT!”. Escrevi tudo isso pra ME defender. Escrevi tudo isso porque estou cansada desses discursos de ódio exacerbado que não levam a lugar nenhum. Escrevi pra esclarecer que não sou ignorante, burra, imoral ou antiética. Escrevi pra tentar dizer que nunca vou acreditar que alguém é bandido só porque outro bandido está me dizendo isso.

Vão às favelas. Lá, policial é que é bandido.
Vão nas saídas dos colégios da periferia. Lá você não tem o direito de se vestir como quiser, porque uma calça caída e um moletom largo já é o suficiente pra levar revista da polícia e ser humilhado na frente dos outros.
Vão aos presídios. Lá tá cheio de bandido que roubou farinha e leite e foi condenado. Enquanto aqui fora, está cheio de advogados vestidos com o manto da moral defendendo o cara que estava dirigindo carro de luxo em alta velocidade embrigado e matou pessoas, mas não é condenado porque quem morreu é pobre e quem matou é rico.

E aí? O que, de fato, é moral? O que, de fato, são valores?
Bandido bom é bandido morto? Bandido tem que ser preso?
Mas, qual bandido?

Vamos refletir... Vamos, sobretudo, pensar antes de falar. Pode ser?

Um parênteses...
Li o desabafo de uma prima minha no facebook entristecida com aqueles que zombavam a crise do país. Segundo ela, isso constrange quem está sofrendo com o desemprego e com as consequências da situação econômica atual do Brasil.
Às vezes, caímos no erro de brincar com as coisas, como forma de afrontar o outro que brinca conosco também. Então, brindamos a crise em resposta àqueles que gritam “Impeachment já!”. Não é que não vivemos a crise. Não achamos que a crise não existe. Mas ironizamos a crise como forma de dizer “parem de usar isso como argumento pra tudo, o país já passou por situações piores”. Mas como eu disse, é um erro. Esquecemos que há pessoas que podem se ferir com a brincadeira. Brincadeira, de fato, desnecessária. E agradeço por esse desabafo, porque como eu disse, estou sempre aberta. E isso me fez refletir acerca das minhas próprias zombarias. Concluí que é preciso levar a situação mais a sério.

A situação política do país está caótica. Mas acreditem, já foi muito mais caótica do que hoje. É preciso se posicionar, sim. Mas, por favor! Não se posicionem influenciados por tudo que leem e veem por aí. Vamos, sobretudo, defender a nossa recém nascida democracia, que possui muitas falhas ainda, mas que precisa amadurecer antes de ser abortada.

Não censurem o próximo. Não sejam ditadores.
Como diria Ique: Façam amor, não façam guerra.

Grata,
Betina Pilch.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Entre palavras e paredes – Por Betina Pilch


Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Por que parede se chama parede? Essa palavra não faz sentido pra mim.
Parede. Parede. Parede.
Por que parede se chama parede e não chão?
Para com isso, Betina. Deixa eu dormir. Eu não quero pensar sobre isso. Você está fazendo as palavras perderem o sentido, dizia minha prima já irritada com a minha tagarelice no meio da madrugada.
E eu continuava pensando...
Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Sério, pensa comigo. Realmente não faz sentido.
Cala a boca! Chega! Deixa eu dormir.
Poxa vida. Eu não estava fazendo as palavras perderem o sentido. Pelo contrário, estava buscando um sentido para elas. Mas é claro que nenhuma criança de sete anos teria paciência para acompanhar minha curiosidade. Sim, desde pequena as palavras me intrigavam, encantavam, espantavam...
Sempre fui uma grande esquizofrênica das letras. Elas ecoavam no meu pensamento com sua sonoridade singular e sua grafia ficava dançando na minha mente até eu ficar tonta. Quando as letrinhas resolviam escolher um par e formar silabas para, depois, fazerem amor e dar a luz às palavras, eu ficava inquieta. As palavras tinham muito poder. Eram um conjunto de letras de mãos dadas que formavam sons e imagens. Sim, imagens. Eram as imagens que me intrigavam. Quem é que determinou que aquela família de letrinhas formariam a imagem de algo?
Por que a palavra parede dava luz à imagem de algo duro e frio que dividia os cômodos da minha casa? Antes de parede ser parede era o que?
Mãe, por que parede se chama parede e não chão?
Não sei, filha. As palavras são o que são.
Ah, não! Então alguém saiu por aí dando nome para as coisas, sem pensar num sentido pra isso?
Aquilo me aborrecia. Me aborrecia tanto que eu precisava dar uns tapinhas na minha cabeça e implorar para pensar em outra coisa. Mas não adiantava. Bastava um pouco de silêncio e tédio para as letrinhas voltarem a dançar dentro da minha cabeça. Peguei certa birra da palavra parede. Ela nunca fez sentido pra mim. Eu batia nela e perguntava "por que você se chama parede?" e logo em seguida ria ironicamente pensando, você não fala, por que estou falando com você?
De repente, achei engraçado querer que a parede soubesse o porquê do seu nome. Eu mesma não sabia por que me chamava Betina.
Mãe, por que meu nome é Betina?
Porque significa "promessa de Deus".
Ué, como assim?
Vem do hebraico. E o significado é esse.
Foi aí que comecei a entender a origem das palavras e aquilo era mágico pra mim. Mais tarde fui entender o que era prefixo, radical e sufixo. Nossa! As palavras eram realmente encantadoras.
Cresci e me assumi uma grande amante das palavras. Difícil não precisava ser difícil se podia ser complexo. Beleza não precisava ser beleza se podia ser venustidade. Então passei a buscar pelos sinônimos mais bonitos de todas as palavras que eu conhecia.
Textos e mais textos. Como era bom escrever por escrever. Até que um dia percebi que não escrevia apenas por prazer, escrevia por necessidade.
Quando o buraco aqui dentro me consumia, eu escrevia na tentativa de preencher.
Quando as coisas aqui dentro me afogavam, eu escrevia para transbordar os acúmulos.
Escrever era alívio. Era salvação. Era liberdade.
Escrevia para matar e imortalizar, e foi assustador perceber que imortalizei certas mortes.
Escrever tem esses paradoxos. Escrever é magia pura. É preciso ter cuidado com o poder das palavras.
Cresci odiando paredes. Essa palavra ainda não faz sentido pra mim. Eu não consigo gostar daquilo que não sente. Tudo que não tem sentimentos, não faz sentido pra mim. Porque, pra mim, sentido sempre foi fruto de alguma conjugação do verbo sentir e nada mais.
Paredes dividem. E eu odeio separações e matemática. A criança que eu fui (e que ainda mora aqui dentro de mim) estava certa em não confiar nas paredes. E hoje sei responder a sua pergunta insistente. Por que parede se chama parede e não chão?
Se parede fosse chão, seria caminho e não empecilho. Seria continuidade e não limitação. Seria liberdade e não prisão.
Continuo não gostando de paredes. Mas aprendi que é possível fazer essa palavra provar do próprio veneno. Aprendi que posso construir uma parede entre as silabas das palavras e formar outras. Pa|rede pode ser rede a me balançar pelos ares ou a me lançar na imensidão do mar.
Hoje não sou construtora de palavras. Sou demolidora de silabas. Transformo amar|gor em amar. Lament|ação em ação. Lou|cura em cura. E assim me tornei uma sobrevivente de mim mesma salva pelas letras. E nada desperta em mim o medo de viver - porque sei que as páginas sempre irão me socorrer.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Amei, amém – Por Betina Pilch


Então você se foi e restou apenas o seu embora e o seu porém que nunca me convenceram, apesar de me vencer.
Prometi a mim mesma que esqueceria todas as vezes que você, com sentimentos e ações, me aqueceu. Mas esquecer não me aquecia e ao me aquecer era impossível ser uma pessoa esquecida. E entre me enlouquecer com as lembranças e morrer de frio, eu preferia ser uma enlouquecida aquecida com seus beijos e carícias guardados aqui, sob esse edredom de memórias póstumas de uma alma cadavérica que se partiu ao ver você partir. 

Partidas são essas partes de nós que resolvem ir. Perdas são essas pedras que a vida joga na gente. Vazio é esse buraco que era cheio, mas o que tinha dentro vazou. E tudo gera impacto e faz da gente um cacto aguado de lágrimas. 

O amor gerado se foi. O desamor gelado ficou. E com a minha teimosia tentei não morrer de hipotermia amorosa. E, através da prosa entre mim e o meu eu, resolvi forjar nosso amor novamente. A mente ajudou a criar. O coração ajudou a sentir. Eu fui ficando sem ar. E precisei me despedir. 
Disse adeus, amor que dói. E Deus pegou a dor, levou pro céu e deixou o amor pra me aconchegar. Então me amei, sem (ir) embora e sem porém. Me amei como quem ama pela primeira vez. E apaixonada preenchi meus nadas com amores e amém. Amores pelas cores da minha alma que resolveram refletir em tudo que eu resolvia olhar. Amém para todas as preces em que implorei para amar sem me machucar. 

E você se foi. E eu fiquei.
Livrei-me de todo mal, me amei e disse amém.

                                                                                                        

Moço, por que você não morre? – Por Betina Pilch



Moço, vem cá, me diz uma coisa... Por que você não morre?
Morre dentro do meu coração, dentro da minha mente, dentro da minha alma. Hein, moço? 
Por favor, vê se morre dentro de mim. Morre nas minhas lembranças. Porque se você não morrer, você vai continuar me matando e eu não estou mais suportando lidar com tantas sepulturas. É difícil ter que velar o próprio eu. Não quero mais esse luto, essa eterna luta, esse teu relutar. 
Dessa vez é melhor você morrer, moço. Sei que você vive tentando suicídio em mim e eu sempre te salvo. Não queria perder você. Mas toda vez que eu te salvo, você me apunhala pelas costas e me mata. Pega suas palavras e me enforca. Me asfixia com a tua indiferença. Arranca a minha cabeça fora com o teu desprezo. Então, por questão de segurança, você precisa morrer.
Morre, moço. Morre pra sempre e leva essa tua descrença contigo pro abismo dos que não voltam mais e não volte mesmo. Não ouse me assombrar. Não tente acreditar na vida depois que morrer. Por favor, moço. Deixe sua alma morta como sempre esteve. Não é justo você tentar encontrar a vida depois de tanto fugir dela. Então, se joga nos braços da morte e durma o sono eterno do silêncio e do vazio.
Morre, moço. Morre dentro de mim. Vai morrendo aos poucos, pra eu ir me acostumando com a sua ausência. Morre, vai morrendo devagarinho, até eu esquecer que você vivia aqui dentro de mim. Morre, moço. Pode morrer. Morre bem morrido pra quando eu for procurar o cadáver do meu amor eu encontrá-lo em cinzas.
Morre, moço. Morre agora. Morre já! Não quero ter que lidar com a culpa de ter que te matar.
Morre, moço. Morre logo. Por favor, chega de me maltratar.
Vê se morre, moço... Ou esteja preparado para me enterrar.

                                                                                                                

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Era uma vez, não é mais – Por Betina Pilch



Era uma vez, assim, no passado mesmo, bem clichê. Porque apesar do felizes para sempre na última página dos contos de fadas, nenhuma felicidade é presente eternamente e - às vezes - mal chega ao futuro.
Abra a página final. Perceba, "viveram". Isso quer dizer que não vivem mais. Passou. Acabou. Assim como todas as histórias de amor - que muitas vezes não se permitem nem ser estórias.
E que bom que as páginas viram e nós caminhamos. Todos os contos de fadas são tão angustiantes. O príncipe tem que salvar a princesa. E coitado desse cara que tem que dar conta da salvação. Tem que ter ação. Ser são. E pra que tanta sanidade?

Fada do céu! Você e todo mundo que me conhece sabe o quanto eu lutei, esperneei e fiz birra com a minha sina. Eu sou teimosa, tinhosa, orgulhosa e não queria uma história qualquer pra mim. Meu castelo sofria cada atentado que só os deuses sabem, mas eu nunca me prostrei diante dos destroços, sempre reergui e reconstruí tudo novamente.

É difícil não conseguir desistir. Existir. Ir.

Mas em meio a solidão de um castelo de sonhos distante da realidade, apareceu ele. Não, nada disso. Sem cavalo branco, espada ou bainha. Só ele, capaz de fazer rir. Ele - aconchego em meio ao caos. Ele - o próprio caos. Ele - solidão, ironia, pessimismo, vazio. Ele, porto seguro. Ele, alto mar.
Se apresentou como Bobo. Me chamou de Dama. Loucura. Cura. Socorro! Quem sou eu? Quem é você? Dúvidas. Vidas. Idas. E ele se escondeu. 
Cadê você? Procurei. Não achei. Chorei. Orei. Ó, rei! Por que? Volta aqui! E ele voltou. Me girou. E pelo amor dos deuses, moço! Para de me revirar. Virar. Irar. 
Prometeu de dedinho nunca mais me abandonar. 
Baita correria. E a gente ria. Até que quando olhei, o sorrir virou só ir. E ele foi indo, até não ser mais quem era.

Entre uma cambalhota e outra que demos de mãos dadas eu percebi que ele só queria brincar. E eu não queria cirandar. Talvez só andar. Não sei. Estava cansada demais. Ai.
Ele ficou, mas me partiu quando desistiu e nem sequer me comunicou que o nosso amor acabou antes mesmo de começar. Me esqueceu. Enlouqueceu. E sua loucura começou a machucar ao invés de curar. 
Cansei. Eu sei, já disse isso outra vez. Mas meu bem, veja bem, você que não soube permanecer. Nem ser. 

Era uma vez. Não é mais. Vivemos felizes. O para sempre ficou lá atrás. Talvez não tenhamos sorte nessa vida. Quem sabe tenhamos na morte. 
Mas é bom segurar a mão de alguém bem forte, porque essa Dama aqui cansou de ver como príncipe encantado quem só se prestava a ser bobo da corte.






E assim me despedi e fechei o livro - sem avisá-lo que era o 

FIM.

                                                                                                                                         

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Coração de tinta – Por Betina Pilch


Antes era feita de amor porque o amor curava. 
Conheceu certa dor que não cicatrizou e passou a ser feita de amargor. 
Mas mesmo amargurada via vestígios de cura naquela amargura.
Então - na grafia - transformou tudo em poesia...
Do am(arg)or tirou a raiva e deixou o amor. 
Na amargura só trocou o g pelo c e o que amargurava agora amava e curava. 
Percebeu que tudo na vida era questão de gramática. 
Que quando queria podia trocar o g pelo d e ser bem dramática 
ou tirar as duas silabas do meio, por o cedilha no c e transformar tudo em graça. 
Era a gramática que dava sentido às coisas e doava o sentir à vida tão bem, também.

                                                                                                      

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Instante – Por Betina Pilch


Quando o amor começa não interessa quão complicados sejam os protagonistas, a história dá um jeito de acontecer, eu pensava enquanto lia Jane Austen e desejava um Mr. Darcy debaixo daquela árvore comigo. Era final de tarde, o sol estava indo embora, arrastando seu manto laranja para o poente, voltando para a companhia de todos os ontens. E eu estava me preparando pra ir embora, colocando meu romance na sacola, quando, de súbito, o amor aconteceu em mim. 
Você estava correndo e eu sempre detestei caras de regata e shorts que correm no parque. Imagina beijar um cara com gosto de lágrimas, pensei enquanto via as gotículas de suor escorrendo pela sua face e paralisando em volta da sua boca. Mas, nossa!, como você é lindo, você tem os olhos da cor da minha estante de madeira, devem caber muitas histórias no seu olhar... Talvez a gente combine, tanto quanto meus livros combinam com a minha estante. Mas talvez eu tenha uma síncope se você bagunçar a ordem da minha vida. Não posso admitir que você tire nada do lugar. No máximo meus pés do chão e olhe lá! Porque eu tenho medo de altura... Meu Deus! Você parou. Está olhando pra cá, não! Está olhando pra mim... Não acredito que você piscou! É assim que você vai piscar pra mim toda vez que a gente fizer uma piada interna e vamos rir diante da nossa cumplicidade. Você não tem ideia de como a gente combina. Formamos um belo casal. Eu até tenho uma estante da cor dos seus olhos, isso não pode ser mera coincidência. Só pode ser o destino. Com certeza é. 
Você voltou a correr. Não não não, você vai virar a esquina e, ei volta aqui! Minha mente está gritando enquanto eu permaneço estática sem saber o que fazer. Tudo que eu amo sempre foge de mim. Ah, não... Dessa vez não posso deixar isso acontecer. Olha o que você está me obrigando a fazer, estou correndo atrás de você. Minha mãe sempre disse que era pra eu correr atrás dos meus sonhos. Acho que estou fazendo isso pela primeira vez.
Você está vendo eu correr e se divertindo com isso. Está me encarando, me desafiando a correr ainda mais. Espero que você aja como um cavalheiro e faça respiração boca a boca em mim caso eu caia desmaiada por causa de uma crise de asma, já que eu esqueci minha bombinha em casa. 
Pra onde você está me levando?, eu penso já exausta de tanto correr. E, como quem ouve meu pensamento, você faz um manejo de cabeça apontando para um portão. Deve ser sua casa. Talvez você me apresente para os seus pais. Ou talvez você more sozinho e a gente tome um banho juntos após essa corrida toda. A segunda opção me parece bem mais atraente...
Entramos e céus! Você ainda não parou de correr. 
Estou logo atrás de você, não aguento correr mais. Quantos corredores, parecem labirintos. 
Eu tenho certeza que você é minha alma gêmea, moço dos olhos cor de madeira. Ontem mesmo eu jurei que nunca mais amaria ninguém e olha só o que você fez! É, é assim. Quando o amor começa não interessa se as dores da antiga paixão estão trancando seu coração, ele quebra a barreira e entra pela fresta. Olha você aí, bem de frente pra mim. Oh deuses! Estou te olhando como quem não quer nada, mas dentro de mim eu estou desesperada querendo mergulhar em você e me afogar de tanto ser amada. 
Quando o amor começa não interessa o tamanho da fresta, ele sempre dá um jeito de entrar. 
Já era noite, eu não estava enxergando quase nada, até que vi uma cama arrumada. Você me chamou pra deitar com você. Que romântico, você arrumou tudo com velas e flores. Eu sabia que era você. Sempre foi você! E eu te amei a noite toda. 
Quando abri os olhos eu não te achei. Olhei em volta e me assustei ao sentir o cheiro das flores românticas da nossa noite de amor e ao ver sua foto na cabeceira da cama de concreto com uma legenda escrita em letras garrafais "saudades eternas". Quando o amor começa, não interessa o tamanho da fresta, ele sempre dá um jeito de sair. Então enterrei o amor dentro de mim e fui embora do cemitério.                                                                                                   
                                                                                                                                        

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dos amores que morrem e matam – Por Betina Pilch



- Eu te amo - foi o que eu disse mergulhando em seus olhos malaquitas. 
Ele sorriu timidamente, como se aquelas palavras tivessem esmagando seu corpo causando uma dor insuportável.
- Que foi? - perguntei com um sorriso desesperador, me arrependendo de ter deixado o meu coração proferir voz.
- Precisamos conversar. - ele disse por fim.
- Prefiro que fique em silêncio. - sussurrei tentando evitar o pior.
- Preciso ser sincero com você.
- Por favor, apenas minta.
- Então prefiro ficar em silêncio. 
- Seu silêncio é uma mentira.

Houve uma pausa munida de um silêncio ensurdecedor.


- Não gosto de ser um mentiroso... - ele por fim falou, me tirando do calor daquele silêncio utópico e me colocando diante da frieza das suas palavras sinceras.

- Então nunca deveria ter me beijado. - Eu disse com a alma trêmula e retendo lágrimas.
- Foi sincero enquanto estávamos juntos. - Ele respondeu.
- E quando você estava longe a sinceridade ia embora, né? 
- Não... Quer dizer, não sei. Talvez. 
- Você disse que me ama.
- Eu fui impulsivo. 
- Erro de prefixo. Re-veja sua pulsão. 
- Você e seu jogo de palavras...
- Você e seu jogo com a vida...
- Eu te amava.
- Agora mudou o tempo verbal. Sabe, você é muito inconstante!
- Por isso estou indo embora.
- Gosto da sua inconstância.
- Gosto de como você gosta de mim.
- Odeio o jeito que você não gosta.
- Gosto quando você odeia. 
- Então fica! 
- Não posso. Não te amo mais.
E então senti meu coração ruir. Preferia que ele tivesse trocado a adição por subtração e dissesse que não me ama menos. Talvez o resultado disso tudo fosse diferente, não sei, nunca fui boa em matemática.
Busquei na minha fonte de memórias alguma lembrança que me fizesse entender onde foi que o amor acabou, mas tudo que achei foram os motivos que fizeram o amor nascer. A dor, de repente, estava me dando falta de ar e dessa vez não era crise asmática. Crise de asma bombinha resolve. Crise de alma só uma bomba relógio pode resolver. 
- Por que você está fazendo isso comigo? - perguntei. 
- Porque eu sou muito jovem pra me prender a alguém. 
- Eu nunca te prendi.
- Você entendeu. 

E essa foi sua última fala. O desprezo em sua voz matou o que restava de nós. Eu entendi. Realmente tinha entendido. Amei demais. Vivi por dois. E ele quis me fracionar. Eu não podia fazer nada. Não tinha como convencer ele a ficar. Meu coração queria implorar pra ele não ir. Queria prender ele pela primeira vez. Algemar ele em mim. Mas qualquer atitude persuasiva faria ele sentir mais desprezo e, no fundo, eu só queria que ele realmente tivesse me amado de verdade e que não esquecesse o que já sentiu um dia. 

No entanto, agora, eu já não tinha mais certeza de nada e essa dúvida me colocou prostrada, sem força nenhuma. Finalmente, explodi em lágrimas.

- Só me promete uma coisa - pedi entre um soluço e outro enquanto ele me fitava sem reação - me leve com você, me guarde na melhor parte de si.

Eu deveria ter lembrado que ele nunca foi bom músico. Nunca teve afinação. Por isso ele confundiu si com dó, me abraçou e eu apenas ignorei quando ele me soltou, virou as costas e foi embora. Fingi que era ali que ele me guardaria eternamente: em seus braços onde nossos embaraços - cheio de laços - sempre foram desatados.
- Eu te amo... - foi meu último sussurro banhado em lágrimas antes de perceber que eu tinha ido embora nos braços dele e que agora estava sozinha, sem ele e sem mim, para sempre.