terça-feira, 7 de junho de 2022

Esquinas vermelhas - Por Betina Pilch


Um sapato arrebentado na esquina. Mas não qualquer sapato: um sapato vermelho. Mas não um par de sapatos, apenas um sapato vermelho arrebentado na esquina.

Quando o vi, me perguntei de quem era. Mas não apenas de quem era, mas a qual mulher pertencia. E por que um sapato de salto vermelho tão bonito estava arrebentado. Não apenas arrebentado, mas arrebentado e abandonado em uma esquina. 


Uma mulher passava por ali olhando para o chão daquela rua esburacada. Mas não qualquer mulher: a mulher dona do sapato de salto vermelho arrebentado. Mancava com um pé calçado e o outro descalço. Mancava desconfortável, mas alheia ao desconforto. Olhava para os buracos da rua, não levantava a cabeça. Olhava para o chão, mas não para os próprios pés. 

Ela passou por mim. Ela passou pelo sapato. Ela não enxergou nada além da rua e seus buracos. 

Abaixei-me. Peguei o sapato de salto vermelho arrebentado. Olhei para a mulher. Chamei-a - ela não me ouviu. 

Continuou caminhando, mancando, olhando para o chão. Ela andava como quem esquece que manca. Andava como se nunca tivesse perdido um de seus sapatos. Andava como se o desconforto fosse familiar. Andava como se estivesse acostumada à falta, à ausência.

Corri. Parei em sua frente. Parei segurando o sapato vermelho que ela perdera. Ela desviou e, ainda assim, não me olhou. 

Corri novamente. Parei em sua frente. Parei segurando o sapato vermelho que ela perdera. Coloquei o sapato diante do seu pé descalço. Ela passou por cima. Não o enxergou. 


Sentei naquela esquina com o sapato vermelho diante de mim. Inquieta me questionava por que a mulher rejeitara o sapato. Por que a mulher não desejara calçá-lo no pé descalço. Fui além: questionei por que aquela mulher continuava com um dos sapatos nos pés e o outro descalço, mancando por ruas esburacadas, olhando para o chão sem levantar a cabeça. 


“Estou olhando para baixo, olhando para o caminho que estou trilhando, é preciso cuidado para não tropeçar e cair. Eu preciso continuar, apenas isso. Eu preciso dar atenção à estrada. Eu preciso chegar a algum lugar, não posso desviar o olhar, caso eu me distraia, eu me perco” - ela disse, de repente, para si mesma. 

Fiquei encarando seu caminhar manco. Eu não compreendia. Mas ela não parecia precisar de compreensão alguma. Ela só precisava caminhar. Chegar a algum lugar. 


“Mas aonde quer chegar?” - perguntei.

“A algum lugar” - respondeu.

“Mas a qual lugar?” - questionei.

“Não sei. Apenas me disseram que eu precisava chegar a algum lugar” - confessou.


Disseram… Eles nos dizem tantas coisas… 

Mas quem será que dissera àquela mulher que ela precisava chegar a algum lugar? Que poder teria alguém para dizer isso e ela ouvir ao ponto de achar que era só isso que precisava? Ela disse que precisava… Precisava por quê?


Caminhei ao seu lado, em silêncio. Eu queria apenas compreender aquele caminhar. Aquele pé descalço que a fazia mancar. Mas eu não compreendia. Ainda assim, caminhei ao seu lado por algumas esquinas. Não a compreendia. Mas não queria deixá-la sozinha com aquela necessidade que era só dela, mas que nem ela questionava o porquê.


“O que você quer? O que, realmente, deseja?” - perguntei, interrompendo aquele silêncio repleto de incompreensão. 

“Desejo? O que eu desejo?” - perguntou.

“Sim! Você disse que precisa chegar a algum lugar. Mas você quer chegar a esse lugar?”

“Eu apenas preciso. Apenas me disseram que eu precisava. Mas eu estou tão cansada. Talvez… talvez eu queira parar. Sentar. Olhar pra cima. Não ter medo de cair…”


Não respondi. Ouvi e acolhi aquele singelo desejo. Sentei. Olhei para cima. E pela primeira vez ela desviou os olhos do chão e me olhou. Ela sorriu e sentou ao meu lado. Olhou para cima. E sorriu novamente.


“Seu sapato… pegue!” - falei entregando-lhe aquele sapato vermelho arrebentado que um dia eu encontrara na esquina. 

Ela me encarou com o olhar repleto de incompreensão. 


“Não é meu sapato. Veja… este é menor que meu pé. Não me serve. Na verdade, meus pés são grandes demais, apenas uma única vez encontrei um sapato que me cabia, mas seria pedir demais encontrar o par né?” E gargalhou, rindo de si mesma.

“Talvez seja seu” - disse ela apontando para os meus pés. 


Com estranheza olhei para baixo pela primeira vez e encarei meus próprios pés: um pé calçado e um pé descalço. 

Incrédula, analisei o sapato vermelho arrebentado e vesti: serviu. Era mesmo meu. Espantada eu me questionava quando havia perdido e por que eu não lembrava que me pertencia. Como pudera perceber a falta do outro e estar tão alheia à minha própria falta?

Como pudera preocupar-me tanto com o caminhar do outro e não sentir o meu próprio caminhar?


Meu sapato vermelho… Meu pé descalço… Meu caminhar manco… 


“E você? O que quer? O que deseja?” - A mulher manca me perguntou. 


E, olhando para os meus pés calçados, olhando para o meu sapato vermelho arrebentado, silenciei. 

Pela primeira vez eu entendera a necessidade de encarar os meus próprios desejos. 


sexta-feira, 27 de maio de 2022

O Barba Azul - Por Betina Pilch

Você está disposta a sentir a violência com que os homens amam?


Havia uma mulher que chorava. Chorava o luto de um marido perdido pra morte. Chorava e não se conformava por ele ter ido embora desse mundo. Chorava e orava, dizia estar num poço sem fundo. 


Havia outra mulher que ouviu o choro da viúva e lhe disse que a entendia. Três anos se passaram desde que seu marido falecera e ela ainda sofria com o vazio da solidão que ele deixara. 


Eu as ouvia e refletia sobre quão bons esses maridos foram para essas mulheres, ao ponto de elas não superarem o vazio de sua ausência. 


Minha história é muito triste, uma delas dizia. 

Se eu contar para vocês tudo que já vivi, vocês saem daqui chorando! 


A outra balançava a cabeça, assentindo. Pegava nas mãos daquela mulher e dizia: eu te entendo. Não queria entender, mas entendo. Minha história é sofrida também. 


E ali contavam suas angústias. 


A primeira vez que o marido levantou a voz.

O momento em que ele disse que ela só falava besteiras e a silenciou.

O primeiro insulto.

A voz que a chamava de chata, de feia.

O grito que a culpava pelas culpas que eram dele.

O sussurro manso que lhe dizia que ela não servia para nada.

O primeiro sumiço. O primeiro silêncio de tortura. A primeira falta de interesse, a indiferença.

A primeira traição. E a segunda. E a terceira.

A noite em que ela chegara cansada do trabalho e o marido desempregado a esperava sentado na sala para que ela fizesse o jantar. 

A tarde de domingo que ele espancou o filho.

A noite de quarta que ele ameaçou o genro.

O dia em que ele pegou um pé de cabra e ameaçou matá-la.


Mas ela e a outra sofriam. Sofriam pela perda desse homem. Desse homem que tanto lhes causou dor. 


Tudo é melhor do que a solidão, diziam. 

Até do barulho dos gritos eu sinto falta, falavam e riam. 

No final do dia, eu só queria ter morrido no lugar dele, afirmavam. 


E ali eu via a astúcia de um predador. O predador que devorou sua presa durante toda a vida e a deixou sem nada. Um esqueleto de si mesma. Ausência de vitalidade. 


Barba Azul - pensei. O Barba Azul que habita em todos os homens. 


Por que é que se ama quando não há motivos para amar, afinal? 

Porque só se conhece uma forma de amor: a violência com que os homens amam. E apega-se à única realidade conhecida. E não livram-se, porque em dado momento a donzela que foram sonhara com o amor. Mas ninguém lhe contara sobre a violência com que os homens amam. Não foram preparadas para lidar com a morte dos seus sonhos e idealizações. Não imaginavam que um príncipe podia ter barba azul e um porão de segredos sobre si. Um porão que guardava todas as mortes que ele causara em mulheres que acreditaram nele. 


Elas ouviram a história do Barba Azul. Ouviram, num primeiro momento, rindo, pois julgavam estar diante da infantilidade de um conto de fadas. E não eram mais crianças. Aquela história não faria sentido àquela altura da vida. 


“Só não abra o porão! Se abrir, conhecerá todas as consequências da minha cólera!” 

Diante da narrativa elas debochavam e riam durante a história. 


O porão foi aberto. Mulheres degoladas ali habitavam. 

E eu não sei mais se estou falando do conto de fadas ou da história que agora escrevo. 


Mas elas arregalaram os olhos. Assustadas com a violência. 


Uma interrompeu e disse:

Meu marido era o Barba Azul! 


E a outra:

O meu também! Meu Deus! Eu vivi tantos anos com o Barba Azul! O perigo que eu corri!


E os olhos se encheram de lágrimas. 

O príncipe nunca existira. O Barba Azul, sim. 


Eles predadores. Elas presas.


Por que é que eu sofro então? - uma se perguntava. 

Ele morreu, mas podia ter sido eu - a outra dizia.


No final das contas, elas morreram antes deles. Morreram a cada dia, diante de cada atitude. Quando eles se foram, elas já não se entendiam como gente viva. Não sabiam mais viver, tampouco amar. 

Porque um dia elas se dispuseram a conhecer a violência com que os homens amam e não houve uma pessoa sequer para lhes salvar. 


Agora o que lhes restava era encontrar a chave, sair do porão e sobreviver às cicatrizes de uma vida degolada, se dispondo a conhecer a resistência e persistência com que as mulheres vivem. 

terça-feira, 26 de abril de 2022

Biblioteca - Por Betina Pilch

Hoje eu estava na biblioteca. Aquele espaço onde me encontrei pela primeira vez. Aquele espaço onde me senti perdida tantas vezes. Aquele universo que pariu tantos versos meus. Aqueles versos que uniram e rasgaram tantos universos em mim.

Ali, naqueles corredores, eu caminhei por muitas manhãs. Eu sorri e chorei em muitas tardes. 

Sentada naquelas cadeiras eu li Dostoiévski pela primeira vez. E deixei de me ler outras tantas.

Encontrei pessoas e me desencontrei de mim ao mesmo tempo que me encontrava todos os dias. E foi ali que redigi e li emails que apaguei para sempre da minha caixa de entrada, mas que nunca saíram daqui. 

Ali, naquela biblioteca, um dia eu sonhei em ser quem eu sou hoje e hoje sendo quem eu quis ser um dia, não tenho nenhuma certeza de quem eu realmente sou, mas já não sonho em ser outra coisa se não o que eu sou simplesmente.

Um dia, entrei ali menina. Uma noite, saí dali mulher. 

Uma biblioteca. Um casulo. Uma metamorfose. 

Uma metamorfose para além de Kafka. Nada a ver com insetos. Ainda que tantas vezes borboletas tenham voado dentro do meu estômago enquanto eu estava ali. 

Certa vez alguém chorou palavras de Valter Hugo Mãe e, ouvindo aquele choro, eu chorei também. 

Certa vez alguém mergulhou como Margarida e, vivenciando aquele mergulho, eu mergulhei também. E mergulhar em si às vezes significa se afogar e não sobreviver. 

Eu não sobrevivi.

Era final de tarde quando olhos verdes pararam naquela porta e me invadiram e eu quis me esconder. Me esconder para que os olhos marrons não vissem que eu tinha sido invadida. E por pouco aqueles olhares não se cruzaram.

Era noite quando as palavras nasceram e me acusaram de ser a responsável por elas, ainda que eu mesma não escrevesse uma palavra sequer há tanto tempo. Mas eu li tudo, mesmo não sabendo mais ler a mim mesma. 

Uma biblioteca. Uma história. A minha história. 

E eu contei tantas histórias ali. E acabei me contando em tantas delas. E eu senti medo de me lerem. Eu senti medo de ser eu.

Era meio dia quando acordei fora daquela biblioteca e precisei encarar minhas mortes pela primeira vez. E era nove horas da manhã quando renasci ali dentro de novo. 

Eu morri, renasci e vivi tantas vezes naquela biblioteca que me tornei um livro desconexo e nada linear vagando por aquelas estantes. E cada vez que entro ali me empresto para os outros, para finalmente me devolver a mim. 


- Betina Pilch.


 

terça-feira, 1 de março de 2022

Naquele bar - Por Betina Pilch

Naquela madrugada,

No meio de um bar sentada,

Vi cada pose cair 

E não restar nada

- além da verdade.


Ali, naquele bar,

Cada pessoa se anestesiava

De alguma forma

E cada um fugia de algo 

Que não era necessário falar.


Ali, naquele bar, 

Os sentidos eram explorados

Vividos 

Experienciados 

De forma singular.

E ali, naquele bar,

Eu cerrei meus lábios 

e deixei meu olhar escutar

Meu ouvido falar

Minha boca olhar.


E eu vi, ouvi e senti tanta coisa.

E eu falei tanto sem nada dizer.

Porque ali, naquele bar, 

Existir era o suficiente 

E o suficiente já era pesado demais.


Naquele bar,

Cada existência era entrelaçada 

E marcada por outras existências.

E ninguém queria ser

Outro alguém 

além de si

- sabiam que não conseguiam.


Porque nos bares

De madrugada

Não nos resta nada 

Além de nós.

E o resto não importa 

Se pudermos pagar a conta no final

- e essa é a metáfora da vida.




segunda-feira, 22 de maio de 2017

(Abr)aço – Por Betina Pilch




Sempre quis um abraço teu.
Abraço espontâneo. Quase subcutâneo. 
Que alcança a alma. Que surpreende e acalma.
Sempre quis um abraço teu. 
Sem precisar pedir. Sem ter que tomar a iniciativa de abrir os braços 
e insistir. 
Sempre quis um abraço teu. 
Que demonstrasse o prazer de amar. 

Que evidenciasse a necessidade de cuidar. 
Que dissesse eu te amo sem nada falar. 
Sempre quis um abraço teu. 
O abraço que por vontade própria nunca me deu. 

O abraço que nunca cedeu. 
O abraço que tantas vezes doeu 
ao ser rejeitado. 
Sempre quis um abraço teu. 
Abraço sem obrigação, pra sentir teu coração feliz ao me abraçar, 

contente pelo simples fato de me ter 
nos braços. 
Sempre quis um abraço teu. 
O abraço que mais cedo te vi dar em outro alguém. 

O abraço que sempre precedeu meu amém. 
O abraço que eu queria que fosse meu e de mais ninguém. 
Sempre quis um abraço teu. 
Mas esse abraço 

- eternizado em sonho - 
você nunca me concedeu.



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mais poesia do que argumentos - Por Betina Pilch


Cresci ouvindo que contos de fadas não existem. Que eu era romântica demais, sonhadora demais, tudo em demasia. Que eu precisava crescer, amadurecer, parar de acreditar que o príncipe encantado ia chegar. Cresci abraçando utopias, me entregando aos sentimentos, me machucando com a realidade. Cresci, mas permaneci pequena, sem perder minha fé, a minha liberdade.
E aí, você apareceu. Todo razão, cheio de argumentos e eu parei pra te admirar. E você me notou. E a gente se encontrou na esquina da tua racionalidade. E eu te peguei pela mão e te conduzi à estrada da minha sensibilidade. E aí nada mais fez sentido. Só sabíamos sentir.
Você disse que eu era um anjo e eu lembrei que tinha asas. Mas você também disse que não fomos feitos pra voar, por isso odiava viajar de avião. Então caminhamos de mãos dadas em terra firme, com a alma pendurada num balão.
Compreendi que as pessoas estavam certas, contos de fadas não existem. Não dá pra confiar em histórias de amor que começam com o verbo no passado. Porque amor é presente. E o nosso é cheio de laços que eu nunca vou desatar.
Príncipes encantados não existem e que bom!, porque eu não acredito em monarquia mágica. Prefiro um camponês comunista militante do amor. Existe algo mais intenso e bonito que isso?
E eu me apaixonei. E você acendeu aquele cigarro pra mim depois de uma dose de uísque compartilhada. E eu despejei minhas dúvidas embriagadas em cima de você e você respondeu que me amava. E eu quis te beijar com intensidade, porque sabia que você era o amor dos meus sonhos concretizado na minha realidade. E eu sorri. E meu sorriso nunca foi tão infinito e sincero.
Perdi a noção de tempo e espaço quando te senti fisicamente. Esqueci as fórmulas que nunca aprendi e pelos meus cálculos a gente nasceu pra dar certo. E eu não estou nem aí se sou péssima com números, tenho fé no que sinto e não preciso de respostas lógicas pra acreditar em nós.
Porque eu sou poeta. E você é músico. E não existe música sem poesia e nem poesia sem melodia. E eu já não sei o que é ser eu sem você e não quero imaginar você sem mim, porque é tão bonito ver nossos sorrisos rimando em uníssono a cada batida sincronizada dos nossos corações.
Você é minha poesia preferida. E hoje está imortalizado em cada palavra minha. Ninguém mandou você despertar em mim o verbo amar. Esqueci toda a gramática que me ensinaram, agora é só esse verbo que eu sei conjugar.
Eu amo. Tu amas. Nós amamos. E ele, ela, vós, eles e elas amam ver a gente se amar.

sábado, 18 de junho de 2016

Áspera espera – Por Betina Pilch


Ela se despiu das suas roupas, ficou nua diante do espelho, acendeu um cigarro, bebeu uma dose de uísque e vestiu suas angústias e seus medos.
Desejou tragar a morte para dentro de si, mas tudo que tinha era aquela nicotina barata que já não a anestesiava mais. Foi pra baixo do chuveiro e ficou imóvel, estática, enquanto a água escorria por todo o seu corpo. Desejou que aquela água lavasse todas as suas misérias e que todos os seus fardos escorressem pelo ralo pra nunca mais voltar.
Mas a água lavava o seu corpo e a alma permanecia intocada, imunda, pútrida. O coração continuava sangrando e cheirando a morte e nada no mundo era capaz de limpar aquela imundice toda.
Tudo doía. Cada aresta e ângulo do lado de dentro. Doía-lhe viver. Doía-lhe respirar, porque era obrigada e isso a torturava. Não lhe agradava não ter pleno domínio das coisas.
Encarou seu reflexo no vidro do box do banheiro e, ainda estática, apenas movia seus lábios e empurrava a voz para fora de si dizendo que nem tudo é esperança. Às vezes é só uma espera agonizante que nos faz perguntar se a morte não está atrasada ou se chegou adiantada demais.
Sentia-se morta em frações. Queria morrer por inteiro.
Saiu do banheiro, foi para o seu quarto ainda nua, dispensando qualquer toalha. Não queria se secar. Já se sentia seca demais por dentro.
Ela sabia que só se sentiria livre quando não pertencesse mais a esse mundo e então se libertou.
Sua alma finalmente estava tão nua quanto aquele corpo deitado na cama forjando um sorriso. Aquela alma estava livre de qualquer vestimenta feita de carne, ossos e pele. Então foi para onde nenhum vivo jamais terá acesso. E sentiu-se viva pela primeira vez.
No dia seguinte, os vivos abriram a porta do quarto e encontraram aquele corpo lavado de sangue e com um sorriso estampado na face. Sentiram angústia com aquele sorriso da morte. A felicidade dos mortos é desconfortável.
Houve alguém que disse "morreu com o mesmo sorriso que sempre viveu" e resolveram sorrir também. Porque é isso que os vivos fazem, vestem suas máscaras pra não expor a nudez da alma na face. Porque o maior atentado ao pudor é permitir que vejam suas intimidades mais internas.
Aquele corpo lavado de sangue sorria porque finalmente a alma estava excitada com a vida, os pulmões não eram mais obrigados a nada e o coração estava livre das impurezas. Não sangrava mais. Dormia. Pra sempre.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Nota sem som é inútil

Quando eu tinha dez anos de idade e estava na quinta série, tive minha primeira discussão por algo que acredito. Era uma aula de filosofia e meu professor se referia a Deus como "aquele cara", em tom de desdém. Então, levantei minha voz indignada e pedi respeito. Meu professor - surpreso - tentou se justificar. Eu o afrontei e argumentei com ele durante bons minutos. Ele acreditava em algo. Eu acreditava em outra coisa.

Esse mesmo professor acabou me pedindo desculpas e disse que ele realmente deveria respeitar quem tinha fé como eu.
 Esse mesmo professor, no final da aula, me chamou num canto e pediu pra eu não me limitar a uma crença imposta e me aconselhou a ler O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder. Eu, mesmo criança, não era fechada a novas ideias e no mesmo dia enlouqueci minha mãe para comprar o livro. Então, li o tal livro com mais de 500 páginas aos dez anos de idade. Me apaixonei por filosofia e, por conseguinte, pela literatura.

Entendi a visão do professor, respeitei, no entanto não precisei mudar a minha
. Não precisei. Mas quis entender a dele. Me permiti acolher o lado oposto da minha opinião. E sabe, não doeu.

Sim, desde os meus dez anos sou leitora de diversos gêneros literários. Desde a literatura chata e insuportável que a escola me obrigava a ler, como os livros que eu buscava por conta própria e que me tentavam a deixar de fazer as lições de casa para dar mais atenção a eles. Enquanto a escola me mandava ler “A ilha do tesouro”, eu ia à biblioteca e pegava pra ler todas as obras de William Shakespeare.

Mas a filosofia sempre foi um amor estonteante e volta e meia me pegava novamente. Sofia tinha encalacrado na minha alma e desde que li sua história, eu nunca mais olhei pra algo sem me perguntar “por que?”. Eu quando eu vi, já estava lendo Nietzsche.

Aos onze anos, escrevi minha primeira poesia. Olhei pra fora e vi esperança numa singela árvore. E me assustei com a frieza da filosofia.
 A filosofia me fazia pensar, me muniu da capacidade argumentativa, da análise do discurso, no entanto percebi que deixamos de ser humanos quando não sentimosEntão, passei a alimentar minha sensibilidade poética, sem emudecer a racionalidade incrível que a filosofia tinha me dado.

Uau! Que menina inteligente, não é mesmo?

Errado. Não era isso que eu ouvia. Nunca fui boa aluna. Ficava louca nas aulas de matemática, não suportava as aulas de Língua Portuguesa e durante as explicações dos professores eu escrevia. Escrevia textos e mais textos para um amor que eu ainda não havia sentido. Escrevia na esperança de um dia sentir. Escrevia aquelas coisas inúteis e desnecessárias e deixava de fazer as tarefas que me eram impostas.

Mas, quando o professor de história e o de filosofia entravam na sala, eu parava tudo que estava fazendo pra prestar atenção. Nunca esqueci o que foi o Tratado de Tordesilhas, Pacto Colonial, Revolução Francesa, tática de terra arrasada, quem foi Napoleão Bonaparte, Sócrates, Platão, Aristóteles - não necessariamente nessa ordem - e entre outros. Mas eu não era boa aluna.

Então, aos 15 anos, me deparei com outro professor de filosofia. Um professor que em sua primeira aula leu para a minha turma A Tabacaria de Fernando Pessoa.
 Poesia que até hoje é a minha preferida e, mesmo sendo absurdamente extensa, eu sei de cor e posso recitar pra quem quiser ouvir. Porque foi aí que poesia e filosofia se entrelaçaram num abraço cheios de laços que eu nunca mais desatei.

Esse professor nos falava sobre o germe da revolta. Criticava o nosso modelo de escola, educação. Incitava-nos a questionar tudo.
 Contava pra gente das suas épocas de adolescente, militante e poeta. Mostrava-nos a cada aula que ser jovem e não ser revolucionário era uma contradição genética.
Foi a partir desse momento que comecei a olhar pra política mais de perto. Comecei a me aprofundar em alguns assuntos, enlouquecia meus amigos com meus discursos e pensamentos histéricos e indignados. André Guilherme, meu melhor amigo na época, que o diga!

Comecei a ter coragem de mostrar para as pessoas o que eu escrevia e fui incentivada a criar um blog, esse blog, para que mais pessoas tivessem acesso aos meus escritos. Acreditei que podia escrever e que - quiçá - eu até soubesse escrever. Fui bastante ousada no meu pensamento, admito. Mas hoje percebo que a ousadia é mais do que necessária.

Meus primeiros textos falavam da minha revolta com o povo e com a política do nosso país (deem uma olhadinha nos arquivos de 2012/2013 do blog). E, nessa época, eu bati de frente com muita gente. Na minha cabeça, eu acreditava que pra mudar algo na política era necessário que eu começasse pela minha própria cidade. Comecei a acompanhar o que acontecia perto de mim e não hesitei em criticar diretamente os governantes daqui quando eu não concordava com algo.

Tenho amigos no site facebook  que me adicionaram justamente porque viram um texto crítico que escrevi na página do prefeito da minha cidade. E DEIXA EU CONTAR UMA COISINHA PRA VOCÊS: Ele é do PT. E sim, ele foi o melhor prefeito que nossa cidade já teve, mas isso não quer dizer que seja perfeito. E eu apontei as imperfeições visíveis. Porque não, eu não defendo ilegalidades, eu não defendo corrupção, eu não defendo nada de errado na política. Mas eu só me posiciono diante de alguma situação quando ela é concreta. Quando há provas irrefutáveis de algo. Porque eu abomino injustiça e nunca fundamentei o que acredito na base no achismo.

Bom, após um tempo de construção intelectual, muita leitura, muito estudo, como eu disse, entendi que a poesia podia ser crítica também. Na verdade, a poesia é feita de muita filosofia.
 Para a minha surpresa, nessa mesma época, a professora de literatura da escola nos passou o tema do texto que teríamos que escrever para o livro da escola. Os melhores iriam para a glamourosa noite de autógrafos. O tema era “Com licença, eu vou à luta!”. E eu, tomada pelo sentimento do momento, escrevi mais uma vez sobre política e fui para a tal noite autografar os livros que acolhiam a minha poesia.

Continuei escrevendo. Nunca parei.

Então, sofri meu primeiro choque de realidade. Após nove anos estudando num colégio particular, fui obrigada a ir para a rede pública de ensino. Ouvi os mais absurdos e preconceituosos discursos. Coisas como “Nossa, que pena. Justo no terceirão? Você nunca vai passar no vestibular desse jeito”; “Você vai mesmo? Que medo por você, estudar em colégio público deve ser horrível!”; “Justo no tenente? Lá só tem bandido, morte, é perigoso. Parece até presídio”; “Meu maior medo sempre foi estudar no tenente. Que dó de você!”.

Sim, ouvi isso dos colegas que sempre estudaram comigo em colégio particular. Colegas que nunca tiveram que encarar a realidade de perto. Colegas que baseiam suas opiniões políticas no que os pais burgueses acreditam. E queria muito que eles estivessem lendo isso, porque eles precisam saber que colégio público não é filme de terror. Colégio particular é que é conto de fadas demais e cria pessoas dentro de bolhas, não permitindo que tenham acesso à realidade. Colégio público é vida real. E é maravilhoso!

Pode até ser que o colégio público não prepare os alunos para o vestibular, mas faz algo muito melhor. Colégio público prepara os alunos pra vida. Prepara os alunos para a realidade social. E eu pude experimentar um pouco disso. Eu pude sair da utopia que eu vivi durante muitos anos da minha vida.

Passei a entender a importância das greves e vi que isso não era coisa de gente que não queria trabalhar. Bem pelo contrário, era coisa gente corajosa que trabalha muito e ama o que faz, e por isso luta por melhores condições de trabalho. Entendi que há governos que TENTAM melhorar a educação, que dão ouvidos aos brados dos professores. E que há governos que nem direcionam o olhar para a realidade escolar pública e pra não serem incomodados com ladainhas chatas de vagabundos que exigem demais, dão um jeitinho de calar as vozes com bala de borracha, gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e até Pitt Bulls raivosos.

Nesse colégio público, me deparei com um professor de sociologia que fazia das suas aulas um eterno debate político. O que eu gostava bastante.
 Em uma das suas aulas, pedi licença pra recitar um poema que eu tinha escrito e que se intitulava "Ditadura camuflada". E o meu professor de sociologia, que também dava aula na Universidade Federal do Paraná, começou a divulgar meu blog para todos os seus alunos. Porque nesse colégio, eu comecei a ser valorizada por ser boa naquilo que eu fazia.

Nesse ano, tivemos uma semana cultural no colégio com o tema TROPICALISMO. Sim, que alegria a minha!
 Estudamos o movimento, ouvimos Caetano, Chico, Gilberto, Elis, etc, com tanta frequência que eu não queria que aquilo acabasse. Na apresentação da minha turma, fui convidada a recitar outro poema de minha autoria para o colégio inteiro ouvir. Falei sobre opressão e liberdade. Frieza e sensibilidade. Ódio e amor.
Entendi, de verdade, a gravidade de uma ditadura. Tive náuseas. Senti pavor. E suspirei com gratidão por não ter nascido numa época de repressão. 

Nesse ano, eu já não sabia se queria ser professora de Filosofia ou Sociologia, ou se queria cursar Direito.

Então, no segundo semestre, conheci minha nova professora de Língua Portuguesa. Uma professora que ensinava com tanto amor que eu me apaixonei.
 Dava pra ver nos seus olhos cansados, no seu humor alterado, o quanto ela lutava pra não desistir da sua profissão. É evidente que não é fácil ser professor, mas ela mostrava diariamente que valia a pena lutar pra ser.

Ela dizia que eu tinha talento com as letras. Me incentivava a continuar escrevendo. E dizia que eu daria uma boa professora de Literatura. Que seríamos colegas de profissão um dia.

Meses depois, tivemos a segunda semana cultural, a semana do teatro. E eu escrevi uma peça intitulada "Romeu e Julieta nos dias atuais". 
Nessa peça eu criticava a desigualdade, o preconceito, a divisão da humanidade alimentada pelo ódio e pela violência. A descomunhão que as diferenças causavam quando poderiam muito bem se unir em prol do bem estar comum. Que as diferenças quando colocadas sob a lente da intolerância, matam.

Ganhamos o festival. Fomos premiados. E houve bastante revolta das outras turmas, julgando que não éramos merecedores da vitória. Isso me deixou muito feliz também. Gostava de sentir os jovens inconformados, se expressando. Tinha medo era do conformismo. Mas me orgulho - e muito - da minha vitória.

Foi nesse colégio que decidi que queria ser professora. Que a educação era a única forma de mudar o mundo e que isso levaria milênios, mas que eu gostaria de fazer parte. De fazer a minha parte.

Nas aulas de história, estudamos a fundo o nazismo com uma professora tão incrível quanto a de Língua Portuguesa. E mais uma vez eu entendi o que era alienação. E até hoje tenho medo dela. Porque a alienação cega. A alienação prende. A alienação mata.

Hoje, eu sou graduanda de Letras. A maioria dos meus mestres são, assim como eu, defensores da esquerda. Meus colegas militam diariamente pela igualdade. Convivemos com uma pluralidade incrível de ideologias. E todos os dias eu vejo algum deles sendo insultados por pessoas que formaram sua ideologia política com base na mídia e no próprio facebook. Ou pior: que só agora, diante da histeria da população, resolveram assumir uma posição política. Que nem sabem o porquê de defenderem o que defendem, mas gritam o que pensam porque é bonito. É preciso. Todo mundo precisa estar de algum lado e se for do lado oposto ao meu, é guerra!

Estou dizendo tudo isso, porque minha caminhada pra construir o que acredito foi longa. Foi à base de muita busca pelo conhecimento. Estudei muito pra criar uma opinião própria sobre as coisas. E não, não comecei isso hoje ou ontem. Comecei isso há anos. Não discuto política agora. Discuto política há bastante tempo, basta dar uma olhada nos arquivos daqui.

E assim como eu levantei minha voz aos dez anos de idade, diante de uma turma de quinta série, pra defender o que acreditava, continuarei levantando minha voz hoje.
Podem criticar minhas opiniões, só não me julguem ignorante ou desinformada, porque isso eu nunca fui. E antes de defender um lado, eu sempre busco conhecimento sobre o outro lado também. Tentem fazer esse exercício. Acreditem, é muito bom.

Não escrevi esse texto pra defender Lula ou Dilma. Pra gritar “Sou PT!”. Escrevi tudo isso pra ME defender. Escrevi tudo isso porque estou cansada desses discursos de ódio exacerbado que não levam a lugar nenhum. Escrevi pra esclarecer que não sou ignorante, burra, imoral ou antiética. Escrevi pra tentar dizer que nunca vou acreditar que alguém é bandido só porque outro bandido está me dizendo isso.

Vão às favelas. Lá, policial é que é bandido.
Vão nas saídas dos colégios da periferia. Lá você não tem o direito de se vestir como quiser, porque uma calça caída e um moletom largo já é o suficiente pra levar revista da polícia e ser humilhado na frente dos outros.
Vão aos presídios. Lá tá cheio de bandido que roubou farinha e leite e foi condenado. Enquanto aqui fora, está cheio de advogados vestidos com o manto da moral defendendo o cara que estava dirigindo carro de luxo em alta velocidade embrigado e matou pessoas, mas não é condenado porque quem morreu é pobre e quem matou é rico.

E aí? O que, de fato, é moral? O que, de fato, são valores?
Bandido bom é bandido morto? Bandido tem que ser preso?
Mas, qual bandido?

Vamos refletir... Vamos, sobretudo, pensar antes de falar. Pode ser?

Um parênteses...
Li o desabafo de uma prima minha no facebook entristecida com aqueles que zombavam a crise do país. Segundo ela, isso constrange quem está sofrendo com o desemprego e com as consequências da situação econômica atual do Brasil.
Às vezes, caímos no erro de brincar com as coisas, como forma de afrontar o outro que brinca conosco também. Então, brindamos a crise em resposta àqueles que gritam “Impeachment já!”. Não é que não vivemos a crise. Não achamos que a crise não existe. Mas ironizamos a crise como forma de dizer “parem de usar isso como argumento pra tudo, o país já passou por situações piores”. Mas como eu disse, é um erro. Esquecemos que há pessoas que podem se ferir com a brincadeira. Brincadeira, de fato, desnecessária. E agradeço por esse desabafo, porque como eu disse, estou sempre aberta. E isso me fez refletir acerca das minhas próprias zombarias. Concluí que é preciso levar a situação mais a sério.

A situação política do país está caótica. Mas acreditem, já foi muito mais caótica do que hoje. É preciso se posicionar, sim. Mas, por favor! Não se posicionem influenciados por tudo que leem e veem por aí. Vamos, sobretudo, defender a nossa recém nascida democracia, que possui muitas falhas ainda, mas que precisa amadurecer antes de ser abortada.

Não censurem o próximo. Não sejam ditadores.
Como diria Ique: Façam amor, não façam guerra.

Grata,
Betina Pilch.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Entre palavras e paredes – Por Betina Pilch


Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Por que parede se chama parede? Essa palavra não faz sentido pra mim.
Parede. Parede. Parede.
Por que parede se chama parede e não chão?
Para com isso, Betina. Deixa eu dormir. Eu não quero pensar sobre isso. Você está fazendo as palavras perderem o sentido, dizia minha prima já irritada com a minha tagarelice no meio da madrugada.
E eu continuava pensando...
Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Sério, pensa comigo. Realmente não faz sentido.
Cala a boca! Chega! Deixa eu dormir.
Poxa vida. Eu não estava fazendo as palavras perderem o sentido. Pelo contrário, estava buscando um sentido para elas. Mas é claro que nenhuma criança de sete anos teria paciência para acompanhar minha curiosidade. Sim, desde pequena as palavras me intrigavam, encantavam, espantavam...
Sempre fui uma grande esquizofrênica das letras. Elas ecoavam no meu pensamento com sua sonoridade singular e sua grafia ficava dançando na minha mente até eu ficar tonta. Quando as letrinhas resolviam escolher um par e formar silabas para, depois, fazerem amor e dar a luz às palavras, eu ficava inquieta. As palavras tinham muito poder. Eram um conjunto de letras de mãos dadas que formavam sons e imagens. Sim, imagens. Eram as imagens que me intrigavam. Quem é que determinou que aquela família de letrinhas formariam a imagem de algo?
Por que a palavra parede dava luz à imagem de algo duro e frio que dividia os cômodos da minha casa? Antes de parede ser parede era o que?
Mãe, por que parede se chama parede e não chão?
Não sei, filha. As palavras são o que são.
Ah, não! Então alguém saiu por aí dando nome para as coisas, sem pensar num sentido pra isso?
Aquilo me aborrecia. Me aborrecia tanto que eu precisava dar uns tapinhas na minha cabeça e implorar para pensar em outra coisa. Mas não adiantava. Bastava um pouco de silêncio e tédio para as letrinhas voltarem a dançar dentro da minha cabeça. Peguei certa birra da palavra parede. Ela nunca fez sentido pra mim. Eu batia nela e perguntava "por que você se chama parede?" e logo em seguida ria ironicamente pensando, você não fala, por que estou falando com você?
De repente, achei engraçado querer que a parede soubesse o porquê do seu nome. Eu mesma não sabia por que me chamava Betina.
Mãe, por que meu nome é Betina?
Porque significa "promessa de Deus".
Ué, como assim?
Vem do hebraico. E o significado é esse.
Foi aí que comecei a entender a origem das palavras e aquilo era mágico pra mim. Mais tarde fui entender o que era prefixo, radical e sufixo. Nossa! As palavras eram realmente encantadoras.
Cresci e me assumi uma grande amante das palavras. Difícil não precisava ser difícil se podia ser complexo. Beleza não precisava ser beleza se podia ser venustidade. Então passei a buscar pelos sinônimos mais bonitos de todas as palavras que eu conhecia.
Textos e mais textos. Como era bom escrever por escrever. Até que um dia percebi que não escrevia apenas por prazer, escrevia por necessidade.
Quando o buraco aqui dentro me consumia, eu escrevia na tentativa de preencher.
Quando as coisas aqui dentro me afogavam, eu escrevia para transbordar os acúmulos.
Escrever era alívio. Era salvação. Era liberdade.
Escrevia para matar e imortalizar, e foi assustador perceber que imortalizei certas mortes.
Escrever tem esses paradoxos. Escrever é magia pura. É preciso ter cuidado com o poder das palavras.
Cresci odiando paredes. Essa palavra ainda não faz sentido pra mim. Eu não consigo gostar daquilo que não sente. Tudo que não tem sentimentos, não faz sentido pra mim. Porque, pra mim, sentido sempre foi fruto de alguma conjugação do verbo sentir e nada mais.
Paredes dividem. E eu odeio separações e matemática. A criança que eu fui (e que ainda mora aqui dentro de mim) estava certa em não confiar nas paredes. E hoje sei responder a sua pergunta insistente. Por que parede se chama parede e não chão?
Se parede fosse chão, seria caminho e não empecilho. Seria continuidade e não limitação. Seria liberdade e não prisão.
Continuo não gostando de paredes. Mas aprendi que é possível fazer essa palavra provar do próprio veneno. Aprendi que posso construir uma parede entre as silabas das palavras e formar outras. Pa|rede pode ser rede a me balançar pelos ares ou a me lançar na imensidão do mar.
Hoje não sou construtora de palavras. Sou demolidora de silabas. Transformo amar|gor em amar. Lament|ação em ação. Lou|cura em cura. E assim me tornei uma sobrevivente de mim mesma salva pelas letras. E nada desperta em mim o medo de viver - porque sei que as páginas sempre irão me socorrer.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Amei, amém – Por Betina Pilch


Então você se foi e restou apenas o seu embora e o seu porém que nunca me convenceram, apesar de me vencer.
Prometi a mim mesma que esqueceria todas as vezes que você, com sentimentos e ações, me aqueceu. Mas esquecer não me aquecia e ao me aquecer era impossível ser uma pessoa esquecida. E entre me enlouquecer com as lembranças e morrer de frio, eu preferia ser uma enlouquecida aquecida com seus beijos e carícias guardados aqui, sob esse edredom de memórias póstumas de uma alma cadavérica que se partiu ao ver você partir. 

Partidas são essas partes de nós que resolvem ir. Perdas são essas pedras que a vida joga na gente. Vazio é esse buraco que era cheio, mas o que tinha dentro vazou. E tudo gera impacto e faz da gente um cacto aguado de lágrimas. 

O amor gerado se foi. O desamor gelado ficou. E com a minha teimosia tentei não morrer de hipotermia amorosa. E, através da prosa entre mim e o meu eu, resolvi forjar nosso amor novamente. A mente ajudou a criar. O coração ajudou a sentir. Eu fui ficando sem ar. E precisei me despedir. 
Disse adeus, amor que dói. E Deus pegou a dor, levou pro céu e deixou o amor pra me aconchegar. Então me amei, sem (ir) embora e sem porém. Me amei como quem ama pela primeira vez. E apaixonada preenchi meus nadas com amores e amém. Amores pelas cores da minha alma que resolveram refletir em tudo que eu resolvia olhar. Amém para todas as preces em que implorei para amar sem me machucar. 

E você se foi. E eu fiquei.
Livrei-me de todo mal, me amei e disse amém.