domingo, 31 de julho de 2022

Cacos de mim - Por Betina Pilch

 


Não escreva, não escreva, não escreva…

Minha mente brada e insiste.

E eu tento. Eu me castro. Seguro meu punho, meus braços. E não contenho os dedos teimosos que gritam:

Escreva, escreva, escreva…

E meu caos me pergunta o porquê de tantas ordens e o porquê de tantas relutâncias.

E eu nada respondo, porque me mandaram não me explicar nem para os outros, nem para mim.

E minha alma silencia. Nada grita. Nada ordena. Nada impõe. 

E eu pergunto: 

Silêncio? Por quê?

E ninguém responde. 

Partes de mim só perguntam. 

Partes de mim não respondem.

E eu me perco. E na dúvida escrevo.

Escrevo para não responder. Escrevo para não perguntar. Escrevo por escrever. Escrevo para me legitimar.

E organizo minha mente. Abraço minha alma. Domino meus dedos. Respiro aliviada: sou dona de mim.

Quero escrever, quero escrever, quero escrever…

Eu mesma repito para mim.

Preciso escrever, preciso escrever, preciso escrever…

Sorrio enfim.

E me olho e me enxergo e me quero sendo eu. E eu me preciso de mim.

E em meio a tantos gritos e perguntas e respostas entendo que o barulho camufla o vazio. E a escrita preenche os buracos que não quero encarar.

E não sei mais se quero escrever.

Porque toda vez que escrevo, me mostro e me mostrando espanto quem lê. E a pessoa vai embora: porque me lendo, lê a si mesma, se encontra nas minhas linhas e se perde em mim.

Porque toda vez que escrevo, mostro o outro e o outro se mostrando, espanta quem escreve. E eu vou embora: porque lendo o outro, leio quem ele é, o encontro nas minhas linhas e me perco em outro alguém. 

E assim, vamos embora um sem o outro. Ficamos apenas com nós mesmos. Retornamos para onde pertencemos - porque no final não pertencemos a ninguém. 

E então eu lembro por que minha mente brada insistente:

Não escreva, não escreva, não escreva…

E também entendo por que meus dedos não contidos gritam:

Escreva, escreva, escreva…

Minha alma silenciou.

Silenciou porque sabia que sou feita de escolhas.

Que não obedeço a ordem nenhuma.

Que sempre faço o que quero.

E escrevo até sem querer.

Escrevi. E chorei desesperada: dona do que?

Não quero escrever, não quero escrever, não quero escrever…

Desabo enfim.

Não quero me enxergar. Não me quero sendo eu. E ainda assim preciso de mim.

Me legitimei e silenciei: é hora de encarar meus buracos e o meu vazio.

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