Não escreva, não escreva, não escreva…
Minha mente brada e insiste.
E eu tento. Eu me castro. Seguro meu punho, meus braços. E não contenho os dedos teimosos que gritam:
Escreva, escreva, escreva…
E meu caos me pergunta o porquê de tantas ordens e o porquê de tantas relutâncias.
E eu nada respondo, porque me mandaram não me explicar nem para os outros, nem para mim.
E minha alma silencia. Nada grita. Nada ordena. Nada impõe.
E eu pergunto:
Silêncio? Por quê?
E ninguém responde.
Partes de mim só perguntam.
Partes de mim não respondem.
E eu me perco. E na dúvida escrevo.
Escrevo para não responder. Escrevo para não perguntar. Escrevo por escrever. Escrevo para me legitimar.
E organizo minha mente. Abraço minha alma. Domino meus dedos. Respiro aliviada: sou dona de mim.
Quero escrever, quero escrever, quero escrever…
Eu mesma repito para mim.
Preciso escrever, preciso escrever, preciso escrever…
Sorrio enfim.
E me olho e me enxergo e me quero sendo eu. E eu me preciso de mim.
E em meio a tantos gritos e perguntas e respostas entendo que o barulho camufla o vazio. E a escrita preenche os buracos que não quero encarar.
E não sei mais se quero escrever.
Porque toda vez que escrevo, me mostro e me mostrando espanto quem lê. E a pessoa vai embora: porque me lendo, lê a si mesma, se encontra nas minhas linhas e se perde em mim.
Porque toda vez que escrevo, mostro o outro e o outro se mostrando, espanta quem escreve. E eu vou embora: porque lendo o outro, leio quem ele é, o encontro nas minhas linhas e me perco em outro alguém.
E assim, vamos embora um sem o outro. Ficamos apenas com nós mesmos. Retornamos para onde pertencemos - porque no final não pertencemos a ninguém.
E então eu lembro por que minha mente brada insistente:
Não escreva, não escreva, não escreva…
E também entendo por que meus dedos não contidos gritam:
Escreva, escreva, escreva…
Minha alma silenciou.
Silenciou porque sabia que sou feita de escolhas.
Que não obedeço a ordem nenhuma.
Que sempre faço o que quero.
E escrevo até sem querer.
Escrevi. E chorei desesperada: dona do que?
Não quero escrever, não quero escrever, não quero escrever…
Desabo enfim.
Não quero me enxergar. Não me quero sendo eu. E ainda assim preciso de mim.
Me legitimei e silenciei: é hora de encarar meus buracos e o meu vazio.

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