Era tarde de finados quando ela anunciou sua liberdade. Despiu-se dos medos, rasgou a hipocrisia, arrancou suas máscaras, quebrou as verdades nas quais não acreditava mais e vestiu-se de coragem, calçou sapatos vermelhos e correu antes que lhe amputassem os pés.
Nua de passado, ela enfrentou a vida sem fugir – e viveu intensamente tudo que era direito de uma pessoa viva viver.
Vestida de presente, ela dançou sobre os cacos da própria alma quebrada. A cada passo, a cada compasso, a cada ritmo, sentia sua alma afiada sendo enfiada em si mesma. Alma quebrada, gestada fora do corpo, sendo restaurada a cada movimento, ansiando invadir aquela carne que um dia fora sua. Um parto ao contrário.
E ela dançou tantas vezes sozinha. E ela dançou com tantos pares. E ela dançou tanto quanto podia dançar. E quem não ouvia a música, julgava seus passos descontrolados. Seus passos que mais corriam do que caminhavam. Seus passos cheio de cortes e recortes. Seus passos cortados que colavam cada parte de si que um dia fora pisada.
No avesso do parto de si, a dor gritava, gemia e chorava por dentro dela. E enquanto ela se contraía e se dilatava, era chamada de vulgar por quem não entendia que se acolher depois de se expulsar de si exigia movimentos desconfortáveis. Era julgada vulgar por quem não sabia que etimologicamente isso significa ser comum. Por quem não sabia que, apesar dos esforços, não há nada de especial em quem julga o outro para aliviar o incômodo de não poder sê-lo. Que julgar também é vulgar – comum a todo ser humano.
Julgamento vulgaris.
E, então, condenada ela foi liberta.
Coberta de si descobriu a si mesma.
Ensurdecida de dor, vociferou alívios.
Paralisada de medo, impulsionou coragens.
Expelida para fora de si, se resgatou.
Abortada, às avessas nasceu.
E das cinzas renascidas, incendiou e nunca mais morreu.
Agora caminhava sobre cicatrizes que não doíam nem feriam mais.
Caminhava segura dentro de si mesma. Cheia de alma. Vestida de fogo que ardia e acendia as intensidades da própria vida.
E continuava correndo para que não lhe amputassem os pés.
E continuava dançando – para não esquecer o que um dia gestou para hoje poder existir.

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