sábado, 18 de junho de 2016

Áspera espera – Por Betina Pilch


Ela se despiu das suas roupas, ficou nua diante do espelho, acendeu um cigarro, bebeu uma dose de uísque e vestiu suas angústias e seus medos.
Desejou tragar a morte para dentro de si, mas tudo que tinha era aquela nicotina barata que já não a anestesiava mais. Foi pra baixo do chuveiro e ficou imóvel, estática, enquanto a água escorria por todo o seu corpo. Desejou que aquela água lavasse todas as suas misérias e que todos os seus fardos escorressem pelo ralo pra nunca mais voltar.
Mas a água lavava o seu corpo e a alma permanecia intocada, imunda, pútrida. O coração continuava sangrando e cheirando a morte e nada no mundo era capaz de limpar aquela imundice toda.
Tudo doía. Cada aresta e ângulo do lado de dentro. Doía-lhe viver. Doía-lhe respirar, porque era obrigada e isso a torturava. Não lhe agradava não ter pleno domínio das coisas.
Encarou seu reflexo no vidro do box do banheiro e, ainda estática, apenas movia seus lábios e empurrava a voz para fora de si dizendo que nem tudo é esperança. Às vezes é só uma espera agonizante que nos faz perguntar se a morte não está atrasada ou se chegou adiantada demais.
Sentia-se morta em frações. Queria morrer por inteiro.
Saiu do banheiro, foi para o seu quarto ainda nua, dispensando qualquer toalha. Não queria se secar. Já se sentia seca demais por dentro.
Ela sabia que só se sentiria livre quando não pertencesse mais a esse mundo e então se libertou.
Sua alma finalmente estava tão nua quanto aquele corpo deitado na cama forjando um sorriso. Aquela alma estava livre de qualquer vestimenta feita de carne, ossos e pele. Então foi para onde nenhum vivo jamais terá acesso. E sentiu-se viva pela primeira vez.
No dia seguinte, os vivos abriram a porta do quarto e encontraram aquele corpo lavado de sangue e com um sorriso estampado na face. Sentiram angústia com aquele sorriso da morte. A felicidade dos mortos é desconfortável.
Houve alguém que disse "morreu com o mesmo sorriso que sempre viveu" e resolveram sorrir também. Porque é isso que os vivos fazem, vestem suas máscaras pra não expor a nudez da alma na face. Porque o maior atentado ao pudor é permitir que vejam suas intimidades mais internas.
Aquele corpo lavado de sangue sorria porque finalmente a alma estava excitada com a vida, os pulmões não eram mais obrigados a nada e o coração estava livre das impurezas. Não sangrava mais. Dormia. Pra sempre.
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