segunda-feira, 22 de maio de 2017

(Abr)aço – Por Betina Pilch




Sempre quis um abraço teu.
Abraço espontâneo. Quase subcutâneo. 
Que alcança a alma. Que surpreende e acalma.
Sempre quis um abraço teu. 
Sem precisar pedir. Sem ter que tomar a iniciativa de abrir os braços 
e insistir. 
Sempre quis um abraço teu. 
Que demonstrasse o prazer de amar. 

Que evidenciasse a necessidade de cuidar. 
Que dissesse eu te amo sem nada falar. 
Sempre quis um abraço teu. 
O abraço que por vontade própria nunca me deu. 

O abraço que nunca cedeu. 
O abraço que tantas vezes doeu 
ao ser rejeitado. 
Sempre quis um abraço teu. 
Abraço sem obrigação, pra sentir teu coração feliz ao me abraçar, 

contente pelo simples fato de me ter 
nos braços. 
Sempre quis um abraço teu. 
O abraço que mais cedo te vi dar em outro alguém. 

O abraço que sempre precedeu meu amém. 
O abraço que eu queria que fosse meu e de mais ninguém. 
Sempre quis um abraço teu. 
Mas esse abraço 

- eternizado em sonho - 
você nunca me concedeu.



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mais poesia do que argumentos - Por Betina Pilch


Cresci ouvindo que contos de fadas não existem. Que eu era romântica demais, sonhadora demais, tudo em demasia. Que eu precisava crescer, amadurecer, parar de acreditar que o príncipe encantado ia chegar. Cresci abraçando utopias, me entregando aos sentimentos, me machucando com a realidade. Cresci, mas permaneci pequena, sem perder minha fé, a minha liberdade.
E aí, você apareceu. Todo razão, cheio de argumentos e eu parei pra te admirar. E você me notou. E a gente se encontrou na esquina da tua racionalidade. E eu te peguei pela mão e te conduzi à estrada da minha sensibilidade. E aí nada mais fez sentido. Só sabíamos sentir.
Você disse que eu era um anjo e eu lembrei que tinha asas. Mas você também disse que não fomos feitos pra voar, por isso odiava viajar de avião. Então caminhamos de mãos dadas em terra firme, com a alma pendurada num balão.
Compreendi que as pessoas estavam certas, contos de fadas não existem. Não dá pra confiar em histórias de amor que começam com o verbo no passado. Porque amor é presente. E o nosso é cheio de laços que eu nunca vou desatar.
Príncipes encantados não existem e que bom!, porque eu não acredito em monarquia mágica. Prefiro um camponês comunista militante do amor. Existe algo mais intenso e bonito que isso?
E eu me apaixonei. E você acendeu aquele cigarro pra mim depois de uma dose de uísque compartilhada. E eu despejei minhas dúvidas embriagadas em cima de você e você respondeu que me amava. E eu quis te beijar com intensidade, porque sabia que você era o amor dos meus sonhos concretizado na minha realidade. E eu sorri. E meu sorriso nunca foi tão infinito e sincero.
Perdi a noção de tempo e espaço quando te senti fisicamente. Esqueci as fórmulas que nunca aprendi e pelos meus cálculos a gente nasceu pra dar certo. E eu não estou nem aí se sou péssima com números, tenho fé no que sinto e não preciso de respostas lógicas pra acreditar em nós.
Porque eu sou poeta. E você é músico. E não existe música sem poesia e nem poesia sem melodia. E eu já não sei o que é ser eu sem você e não quero imaginar você sem mim, porque é tão bonito ver nossos sorrisos rimando em uníssono a cada batida sincronizada dos nossos corações.
Você é minha poesia preferida. E hoje está imortalizado em cada palavra minha. Ninguém mandou você despertar em mim o verbo amar. Esqueci toda a gramática que me ensinaram, agora é só esse verbo que eu sei conjugar.
Eu amo. Tu amas. Nós amamos. E ele, ela, vós, eles e elas amam ver a gente se amar.

sábado, 18 de junho de 2016

Áspera espera – Por Betina Pilch


Ela se despiu das suas roupas, ficou nua diante do espelho, acendeu um cigarro, bebeu uma dose de uísque e vestiu suas angústias e seus medos.
Desejou tragar a morte para dentro de si, mas tudo que tinha era aquela nicotina barata que já não a anestesiava mais. Foi pra baixo do chuveiro e ficou imóvel, estática, enquanto a água escorria por todo o seu corpo. Desejou que aquela água lavasse todas as suas misérias e que todos os seus fardos escorressem pelo ralo pra nunca mais voltar.
Mas a água lavava o seu corpo e a alma permanecia intocada, imunda, pútrida. O coração continuava sangrando e cheirando a morte e nada no mundo era capaz de limpar aquela imundice toda.
Tudo doía. Cada aresta e ângulo do lado de dentro. Doía-lhe viver. Doía-lhe respirar, porque era obrigada e isso a torturava. Não lhe agradava não ter pleno domínio das coisas.
Encarou seu reflexo no vidro do box do banheiro e, ainda estática, apenas movia seus lábios e empurrava a voz para fora de si dizendo que nem tudo é esperança. Às vezes é só uma espera agonizante que nos faz perguntar se a morte não está atrasada ou se chegou adiantada demais.
Sentia-se morta em frações. Queria morrer por inteiro.
Saiu do banheiro, foi para o seu quarto ainda nua, dispensando qualquer toalha. Não queria se secar. Já se sentia seca demais por dentro.
Ela sabia que só se sentiria livre quando não pertencesse mais a esse mundo e então se libertou.
Sua alma finalmente estava tão nua quanto aquele corpo deitado na cama forjando um sorriso. Aquela alma estava livre de qualquer vestimenta feita de carne, ossos e pele. Então foi para onde nenhum vivo jamais terá acesso. E sentiu-se viva pela primeira vez.
No dia seguinte, os vivos abriram a porta do quarto e encontraram aquele corpo lavado de sangue e com um sorriso estampado na face. Sentiram angústia com aquele sorriso da morte. A felicidade dos mortos é desconfortável.
Houve alguém que disse "morreu com o mesmo sorriso que sempre viveu" e resolveram sorrir também. Porque é isso que os vivos fazem, vestem suas máscaras pra não expor a nudez da alma na face. Porque o maior atentado ao pudor é permitir que vejam suas intimidades mais internas.
Aquele corpo lavado de sangue sorria porque finalmente a alma estava excitada com a vida, os pulmões não eram mais obrigados a nada e o coração estava livre das impurezas. Não sangrava mais. Dormia. Pra sempre.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Entre palavras e paredes – Por Betina Pilch


Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Por que parede se chama parede? Essa palavra não faz sentido pra mim.
Parede. Parede. Parede.
Por que parede se chama parede e não chão?
Para com isso, Betina. Deixa eu dormir. Eu não quero pensar sobre isso. Você está fazendo as palavras perderem o sentido, dizia minha prima já irritada com a minha tagarelice no meio da madrugada.
E eu continuava pensando...
Parede. Parede. Parede.
Pa-re-de.
Sério, pensa comigo. Realmente não faz sentido.
Cala a boca! Chega! Deixa eu dormir.
Poxa vida. Eu não estava fazendo as palavras perderem o sentido. Pelo contrário, estava buscando um sentido para elas. Mas é claro que nenhuma criança de sete anos teria paciência para acompanhar minha curiosidade. Sim, desde pequena as palavras me intrigavam, encantavam, espantavam...
Sempre fui uma grande esquizofrênica das letras. Elas ecoavam no meu pensamento com sua sonoridade singular e sua grafia ficava dançando na minha mente até eu ficar tonta. Quando as letrinhas resolviam escolher um par e formar silabas para, depois, fazerem amor e dar a luz às palavras, eu ficava inquieta. As palavras tinham muito poder. Eram um conjunto de letras de mãos dadas que formavam sons e imagens. Sim, imagens. Eram as imagens que me intrigavam. Quem é que determinou que aquela família de letrinhas formariam a imagem de algo?
Por que a palavra parede dava luz à imagem de algo duro e frio que dividia os cômodos da minha casa? Antes de parede ser parede era o que?
Mãe, por que parede se chama parede e não chão?
Não sei, filha. As palavras são o que são.
Ah, não! Então alguém saiu por aí dando nome para as coisas, sem pensar num sentido pra isso?
Aquilo me aborrecia. Me aborrecia tanto que eu precisava dar uns tapinhas na minha cabeça e implorar para pensar em outra coisa. Mas não adiantava. Bastava um pouco de silêncio e tédio para as letrinhas voltarem a dançar dentro da minha cabeça. Peguei certa birra da palavra parede. Ela nunca fez sentido pra mim. Eu batia nela e perguntava "por que você se chama parede?" e logo em seguida ria ironicamente pensando, você não fala, por que estou falando com você?
De repente, achei engraçado querer que a parede soubesse o porquê do seu nome. Eu mesma não sabia por que me chamava Betina.
Mãe, por que meu nome é Betina?
Porque significa "promessa de Deus".
Ué, como assim?
Vem do hebraico. E o significado é esse.
Foi aí que comecei a entender a origem das palavras e aquilo era mágico pra mim. Mais tarde fui entender o que era prefixo, radical e sufixo. Nossa! As palavras eram realmente encantadoras.
Cresci e me assumi uma grande amante das palavras. Difícil não precisava ser difícil se podia ser complexo. Beleza não precisava ser beleza se podia ser venustidade. Então passei a buscar pelos sinônimos mais bonitos de todas as palavras que eu conhecia.
Textos e mais textos. Como era bom escrever por escrever. Até que um dia percebi que não escrevia apenas por prazer, escrevia por necessidade.
Quando o buraco aqui dentro me consumia, eu escrevia na tentativa de preencher.
Quando as coisas aqui dentro me afogavam, eu escrevia para transbordar os acúmulos.
Escrever era alívio. Era salvação. Era liberdade.
Escrevia para matar e imortalizar, e foi assustador perceber que imortalizei certas mortes.
Escrever tem esses paradoxos. Escrever é magia pura. É preciso ter cuidado com o poder das palavras.
Cresci odiando paredes. Essa palavra ainda não faz sentido pra mim. Eu não consigo gostar daquilo que não sente. Tudo que não tem sentimentos, não faz sentido pra mim. Porque, pra mim, sentido sempre foi fruto de alguma conjugação do verbo sentir e nada mais.
Paredes dividem. E eu odeio separações e matemática. A criança que eu fui (e que ainda mora aqui dentro de mim) estava certa em não confiar nas paredes. E hoje sei responder a sua pergunta insistente. Por que parede se chama parede e não chão?
Se parede fosse chão, seria caminho e não empecilho. Seria continuidade e não limitação. Seria liberdade e não prisão.
Continuo não gostando de paredes. Mas aprendi que é possível fazer essa palavra provar do próprio veneno. Aprendi que posso construir uma parede entre as silabas das palavras e formar outras. Pa|rede pode ser rede a me balançar pelos ares ou a me lançar na imensidão do mar.
Hoje não sou construtora de palavras. Sou demolidora de silabas. Transformo amar|gor em amar. Lament|ação em ação. Lou|cura em cura. E assim me tornei uma sobrevivente de mim mesma salva pelas letras. E nada desperta em mim o medo de viver - porque sei que as páginas sempre irão me socorrer.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Amei, amém – Por Betina Pilch


Então você se foi e restou apenas o seu embora e o seu porém que nunca me convenceram, apesar de me vencer.
Prometi a mim mesma que esqueceria todas as vezes que você, com sentimentos e ações, me aqueceu. Mas esquecer não me aquecia e ao me aquecer era impossível ser uma pessoa esquecida. E entre me enlouquecer com as lembranças e morrer de frio, eu preferia ser uma enlouquecida aquecida com seus beijos e carícias guardados aqui, sob esse edredom de memórias póstumas de uma alma cadavérica que se partiu ao ver você partir. 

Partidas são essas partes de nós que resolvem ir. Perdas são essas pedras que a vida joga na gente. Vazio é esse buraco que era cheio, mas o que tinha dentro vazou. E tudo gera impacto e faz da gente um cacto aguado de lágrimas. 

O amor gerado se foi. O desamor gelado ficou. E com a minha teimosia tentei não morrer de hipotermia amorosa. E, através da prosa entre mim e o meu eu, resolvi forjar nosso amor novamente. A mente ajudou a criar. O coração ajudou a sentir. Eu fui ficando sem ar. E precisei me despedir. 
Disse adeus, amor que dói. E Deus pegou a dor, levou pro céu e deixou o amor pra me aconchegar. Então me amei, sem (ir) embora e sem porém. Me amei como quem ama pela primeira vez. E apaixonada preenchi meus nadas com amores e amém. Amores pelas cores da minha alma que resolveram refletir em tudo que eu resolvia olhar. Amém para todas as preces em que implorei para amar sem me machucar. 

E você se foi. E eu fiquei.
Livrei-me de todo mal, me amei e disse amém.

                                                                                                        

Moço, por que você não morre? – Por Betina Pilch



Moço, vem cá, me diz uma coisa... Por que você não morre?
Morre dentro do meu coração, dentro da minha mente, dentro da minha alma. Hein, moço? 
Por favor, vê se morre dentro de mim. Morre nas minhas lembranças. Porque se você não morrer, você vai continuar me matando e eu não estou mais suportando lidar com tantas sepulturas. É difícil ter que velar o próprio eu. Não quero mais esse luto, essa eterna luta, esse teu relutar. 
Dessa vez é melhor você morrer, moço. Sei que você vive tentando suicídio em mim e eu sempre te salvo. Não queria perder você. Mas toda vez que eu te salvo, você me apunhala pelas costas e me mata. Pega suas palavras e me enforca. Me asfixia com a tua indiferença. Arranca a minha cabeça fora com o teu desprezo. Então, por questão de segurança, você precisa morrer.
Morre, moço. Morre pra sempre e leva essa tua descrença contigo pro abismo dos que não voltam mais e não volte mesmo. Não ouse me assombrar. Não tente acreditar na vida depois que morrer. Por favor, moço. Deixe sua alma morta como sempre esteve. Não é justo você tentar encontrar a vida depois de tanto fugir dela. Então, se joga nos braços da morte e durma o sono eterno do silêncio e do vazio.
Morre, moço. Morre dentro de mim. Vai morrendo aos poucos, pra eu ir me acostumando com a sua ausência. Morre, vai morrendo devagarinho, até eu esquecer que você vivia aqui dentro de mim. Morre, moço. Pode morrer. Morre bem morrido pra quando eu for procurar o cadáver do meu amor eu encontrá-lo em cinzas.
Morre, moço. Morre agora. Morre já! Não quero ter que lidar com a culpa de ter que te matar.
Morre, moço. Morre logo. Por favor, chega de me maltratar.
Vê se morre, moço... Ou esteja preparado para me enterrar.

                                                                                                                

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Era uma vez, não é mais – Por Betina Pilch



Era uma vez, assim, no passado mesmo, bem clichê. Porque apesar do felizes para sempre na última página dos contos de fadas, nenhuma felicidade é presente eternamente e - às vezes - mal chega ao futuro.
Abra a página final. Perceba, "viveram". Isso quer dizer que não vivem mais. Passou. Acabou. Assim como todas as histórias de amor - que muitas vezes não se permitem nem ser estórias.
E que bom que as páginas viram e nós caminhamos. Todos os contos de fadas são tão angustiantes. O príncipe tem que salvar a princesa. E coitado desse cara que tem que dar conta da salvação. Tem que ter ação. Ser são. E pra que tanta sanidade?

Fada do céu! Você e todo mundo que me conhece sabe o quanto eu lutei, esperneei e fiz birra com a minha sina. Eu sou teimosa, tinhosa, orgulhosa e não queria uma história qualquer pra mim. Meu castelo sofria cada atentado que só os deuses sabem, mas eu nunca me prostrei diante dos destroços, sempre reergui e reconstruí tudo novamente.

É difícil não conseguir desistir. Existir. Ir.

Mas em meio a solidão de um castelo de sonhos distante da realidade, apareceu ele. Não, nada disso. Sem cavalo branco, espada ou bainha. Só ele, capaz de fazer rir. Ele - aconchego em meio ao caos. Ele - o próprio caos. Ele - solidão, ironia, pessimismo, vazio. Ele, porto seguro. Ele, alto mar.
Se apresentou como Bobo. Me chamou de Dama. Loucura. Cura. Socorro! Quem sou eu? Quem é você? Dúvidas. Vidas. Idas. E ele se escondeu. 
Cadê você? Procurei. Não achei. Chorei. Orei. Ó, rei! Por que? Volta aqui! E ele voltou. Me girou. E pelo amor dos deuses, moço! Para de me revirar. Virar. Irar. 
Prometeu de dedinho nunca mais me abandonar. 
Baita correria. E a gente ria. Até que quando olhei, o sorrir virou só ir. E ele foi indo, até não ser mais quem era.

Entre uma cambalhota e outra que demos de mãos dadas eu percebi que ele só queria brincar. E eu não queria cirandar. Talvez só andar. Não sei. Estava cansada demais. Ai.
Ele ficou, mas me partiu quando desistiu e nem sequer me comunicou que o nosso amor acabou antes mesmo de começar. Me esqueceu. Enlouqueceu. E sua loucura começou a machucar ao invés de curar. 
Cansei. Eu sei, já disse isso outra vez. Mas meu bem, veja bem, você que não soube permanecer. Nem ser. 

Era uma vez. Não é mais. Vivemos felizes. O para sempre ficou lá atrás. Talvez não tenhamos sorte nessa vida. Quem sabe tenhamos na morte. 
Mas é bom segurar a mão de alguém bem forte, porque essa Dama aqui cansou de ver como príncipe encantado quem só se prestava a ser bobo da corte.






E assim me despedi e fechei o livro - sem avisá-lo que era o 

FIM.

                                                                                                                                         

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Coração de tinta – Por Betina Pilch


Antes era feita de amor porque o amor curava. 
Conheceu certa dor que não cicatrizou e passou a ser feita de amargor. 
Mas mesmo amargurada via vestígios de cura naquela amargura.
Então - na grafia - transformou tudo em poesia...
Do am(arg)or tirou a raiva e deixou o amor. 
Na amargura só trocou o g pelo c e o que amargurava agora amava e curava. 
Percebeu que tudo na vida era questão de gramática. 
Que quando queria podia trocar o g pelo d e ser bem dramática 
ou tirar as duas silabas do meio, por o cedilha no c e transformar tudo em graça. 
Era a gramática que dava sentido às coisas e doava o sentir à vida tão bem, também.

                                                                                                      

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Instante – Por Betina Pilch


Quando o amor começa não interessa quão complicados sejam os protagonistas, a história dá um jeito de acontecer, eu pensava enquanto lia Jane Austen e desejava um Mr. Darcy debaixo daquela árvore comigo. Era final de tarde, o sol estava indo embora, arrastando seu manto laranja para o poente, voltando para a companhia de todos os ontens. E eu estava me preparando pra ir embora, colocando meu romance na sacola, quando, de súbito, o amor aconteceu em mim. 
Você estava correndo e eu sempre detestei caras de regata e shorts que correm no parque. Imagina beijar um cara com gosto de lágrimas, pensei enquanto via as gotículas de suor escorrendo pela sua face e paralisando em volta da sua boca. Mas, nossa!, como você é lindo, você tem os olhos da cor da minha estante de madeira, devem caber muitas histórias no seu olhar... Talvez a gente combine, tanto quanto meus livros combinam com a minha estante. Mas talvez eu tenha uma síncope se você bagunçar a ordem da minha vida. Não posso admitir que você tire nada do lugar. No máximo meus pés do chão e olhe lá! Porque eu tenho medo de altura... Meu Deus! Você parou. Está olhando pra cá, não! Está olhando pra mim... Não acredito que você piscou! É assim que você vai piscar pra mim toda vez que a gente fizer uma piada interna e vamos rir diante da nossa cumplicidade. Você não tem ideia de como a gente combina. Formamos um belo casal. Eu até tenho uma estante da cor dos seus olhos, isso não pode ser mera coincidência. Só pode ser o destino. Com certeza é. 
Você voltou a correr. Não não não, você vai virar a esquina e, ei volta aqui! Minha mente está gritando enquanto eu permaneço estática sem saber o que fazer. Tudo que eu amo sempre foge de mim. Ah, não... Dessa vez não posso deixar isso acontecer. Olha o que você está me obrigando a fazer, estou correndo atrás de você. Minha mãe sempre disse que era pra eu correr atrás dos meus sonhos. Acho que estou fazendo isso pela primeira vez.
Você está vendo eu correr e se divertindo com isso. Está me encarando, me desafiando a correr ainda mais. Espero que você aja como um cavalheiro e faça respiração boca a boca em mim caso eu caia desmaiada por causa de uma crise de asma, já que eu esqueci minha bombinha em casa. 
Pra onde você está me levando?, eu penso já exausta de tanto correr. E, como quem ouve meu pensamento, você faz um manejo de cabeça apontando para um portão. Deve ser sua casa. Talvez você me apresente para os seus pais. Ou talvez você more sozinho e a gente tome um banho juntos após essa corrida toda. A segunda opção me parece bem mais atraente...
Entramos e céus! Você ainda não parou de correr. 
Estou logo atrás de você, não aguento correr mais. Quantos corredores, parecem labirintos. 
Eu tenho certeza que você é minha alma gêmea, moço dos olhos cor de madeira. Ontem mesmo eu jurei que nunca mais amaria ninguém e olha só o que você fez! É, é assim. Quando o amor começa não interessa se as dores da antiga paixão estão trancando seu coração, ele quebra a barreira e entra pela fresta. Olha você aí, bem de frente pra mim. Oh deuses! Estou te olhando como quem não quer nada, mas dentro de mim eu estou desesperada querendo mergulhar em você e me afogar de tanto ser amada. 
Quando o amor começa não interessa o tamanho da fresta, ele sempre dá um jeito de entrar. 
Já era noite, eu não estava enxergando quase nada, até que vi uma cama arrumada. Você me chamou pra deitar com você. Que romântico, você arrumou tudo com velas e flores. Eu sabia que era você. Sempre foi você! E eu te amei a noite toda. 
Quando abri os olhos eu não te achei. Olhei em volta e me assustei ao sentir o cheiro das flores românticas da nossa noite de amor e ao ver sua foto na cabeceira da cama de concreto com uma legenda escrita em letras garrafais "saudades eternas". Quando o amor começa, não interessa o tamanho da fresta, ele sempre dá um jeito de sair. Então enterrei o amor dentro de mim e fui embora do cemitério.                                                                                                   
                                                                                                                                        

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dos amores que morrem e matam – Por Betina Pilch



- Eu te amo - foi o que eu disse mergulhando em seus olhos malaquitas. 
Ele sorriu timidamente, como se aquelas palavras tivessem esmagando seu corpo causando uma dor insuportável.
- Que foi? - perguntei com um sorriso desesperador, me arrependendo de ter deixado o meu coração proferir voz.
- Precisamos conversar. - ele disse por fim.
- Prefiro que fique em silêncio. - sussurrei tentando evitar o pior.
- Preciso ser sincero com você.
- Por favor, apenas minta.
- Então prefiro ficar em silêncio. 
- Seu silêncio é uma mentira.

Houve uma pausa munida de um silêncio ensurdecedor.


- Não gosto de ser um mentiroso... - ele por fim falou, me tirando do calor daquele silêncio utópico e me colocando diante da frieza das suas palavras sinceras.

- Então nunca deveria ter me beijado. - Eu disse com a alma trêmula e retendo lágrimas.
- Foi sincero enquanto estávamos juntos. - Ele respondeu.
- E quando você estava longe a sinceridade ia embora, né? 
- Não... Quer dizer, não sei. Talvez. 
- Você disse que me ama.
- Eu fui impulsivo. 
- Erro de prefixo. Re-veja sua pulsão. 
- Você e seu jogo de palavras...
- Você e seu jogo com a vida...
- Eu te amava.
- Agora mudou o tempo verbal. Sabe, você é muito inconstante!
- Por isso estou indo embora.
- Gosto da sua inconstância.
- Gosto de como você gosta de mim.
- Odeio o jeito que você não gosta.
- Gosto quando você odeia. 
- Então fica! 
- Não posso. Não te amo mais.
E então senti meu coração ruir. Preferia que ele tivesse trocado a adição por subtração e dissesse que não me ama menos. Talvez o resultado disso tudo fosse diferente, não sei, nunca fui boa em matemática.
Busquei na minha fonte de memórias alguma lembrança que me fizesse entender onde foi que o amor acabou, mas tudo que achei foram os motivos que fizeram o amor nascer. A dor, de repente, estava me dando falta de ar e dessa vez não era crise asmática. Crise de asma bombinha resolve. Crise de alma só uma bomba relógio pode resolver. 
- Por que você está fazendo isso comigo? - perguntei. 
- Porque eu sou muito jovem pra me prender a alguém. 
- Eu nunca te prendi.
- Você entendeu. 

E essa foi sua última fala. O desprezo em sua voz matou o que restava de nós. Eu entendi. Realmente tinha entendido. Amei demais. Vivi por dois. E ele quis me fracionar. Eu não podia fazer nada. Não tinha como convencer ele a ficar. Meu coração queria implorar pra ele não ir. Queria prender ele pela primeira vez. Algemar ele em mim. Mas qualquer atitude persuasiva faria ele sentir mais desprezo e, no fundo, eu só queria que ele realmente tivesse me amado de verdade e que não esquecesse o que já sentiu um dia. 

No entanto, agora, eu já não tinha mais certeza de nada e essa dúvida me colocou prostrada, sem força nenhuma. Finalmente, explodi em lágrimas.

- Só me promete uma coisa - pedi entre um soluço e outro enquanto ele me fitava sem reação - me leve com você, me guarde na melhor parte de si.

Eu deveria ter lembrado que ele nunca foi bom músico. Nunca teve afinação. Por isso ele confundiu si com dó, me abraçou e eu apenas ignorei quando ele me soltou, virou as costas e foi embora. Fingi que era ali que ele me guardaria eternamente: em seus braços onde nossos embaraços - cheio de laços - sempre foram desatados.
- Eu te amo... - foi meu último sussurro banhado em lágrimas antes de perceber que eu tinha ido embora nos braços dele e que agora estava sozinha, sem ele e sem mim, para sempre.

                                                                                      

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O nada de mim e de tudo – Por Betina Pilch



Os pequenos detalhes desapareceram. O céu sobre a minha cabeça não se distingue do solo sob os meus pés. É que meus olhos que antes pintavam, agora apagam tudo que vêem.

E o tudo agora é nada. E o nada é apenas nada. Um vácuo entre mim e meu eu. Uma lacuna sem luz e sem breu. Um vazio inóspito a cor. 
E o mundo que já foi morada, hoje é apenas uma palavra cansada sem significação, sinônimo, preenchimento ou valor. 
O colorido preterido foi reduzido a mero pretérito esquecido. E, sem rastro de lembrança, meu eu sem esperança passou a ser um monossílabo com resquício de duas letrinhas desbotadas que vão sumindo a todo vapor.
Olho para fora e para dentro de mim e, confusa, me perco sem saber onde estou. Já não há lugar, nem ser ou estar para me nortear ou situar a fim de eu me encontrar para sair daqui. 
Eu me perdi. Hoje sou apenas ausência de tudo que fui e daquilo que se foi...
Eu queria ter falado da vida e da falta que ela me faz, mas só falei da falta que me forma. 
Esqueci se vida é verbo, adjetivo ou mero substantivo quando fui preenchida com borrachas e a tal vida ficou desguarnecida ao ver a lágrima escorrida estragando os lápis de cor.
Tudo desbotou, perdeu o sentido e se foi. E minha alma, quase sem tinta, só queria deixar escrita a dor sentida que ainda lhe restou.