quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pro-lixo – Por Betina Pilch

As primeiras horas da manhã anunciavam um colorido dilucular que malaxava todo e qualquer coração. Cada cor narrava o paroxismo dos amores perenes, cada flor adornava o jardim dos sentimentos solenes e a vida incitava o mundo a recitar poesia em cada minudência, causando instantes de ardência na alma que acolhesse os poemas que a natureza ousava recitar.

(Acalento em meio ao tormento pesar do pensar. Distração que entibiava a constrição da alma causada pelas chamas de uma paixão em ascensão).

Mas, em minha pérfida lucidez, vazios anidridos faziam morada. E a poesia, quase calada, sussurrava para o nada que gritava, tentando melodiar os brados ensurdecedores que orquestravam dores desafinadas. Em meio a essa vazia sinfonia, presenciei a mortificação incauta do sentido da vida. E, destarte, entre uma lacuna e outra fui sendo aniquilada pelo nada que inundava os poros da minha existência frívola.

O que é a vida se não essas mortes disfarçadas de ínfimas anestesias?                                           
O que é a morte se não a queda das esdrúxulas máscaras que usamos para camuflar a pútrida caveira que somos?                                                                                                                            
(Só sei que não sei nada sobre tudo, porque estou sob um nada ofuscada pelo escuro).

Desfaleci sob as tênues linhas do viver e sobreviver.                                                                           
Cobri a vida ao invés de ser coberta por ela, vivi com cortinas sobre janelas abertas. Fiquei enclausurada pelas ciladas que eu mesma criei. Até deixei cinza o laranjado astro rei.               
As mechas bruxuleantes da vida hesitaram em se apagar, mas na involução da chama à faísca, as labaredas do encanto resolveram se ocultar.

(Prolixei a vida e pro lixo irei, pintei tudo de cinza e com as cinzas me batizarei).

Me acorde quando setembro findar, porque a primavera acabou de chegar, mas as cores desbotaram dentro de mim. E já não há recomeço, nem meio ou belo desfecho diante do fim que escolhi esculpir aqui.
                                                                                                      
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