terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Dezenove (mais sete) e para sempre – Por Betina Pilch


Ela acordou com ele ao seu lado pelo 19° ano seguido. E ele há 6940 dias olhava para ela como sua esposa todas as manhãs.
Assim como há dezenove anos, o dia estava chuvoso também e os tons de cinza contrastavam com o brilho das almas que resolveram se unir em uma aliança feita de eternidade.

"Até que a morte nos separe", foi o juramento no altar. Mas, com o tempo, eles perceberam que o grande desafio consistia em não se deixar morrer junto com as pequenas mortes do dia-a-dia e se permitir morrer pelo outro quando a renúncia de si mesmo se fazia necessária para a aliança permanecer com vida. Porque o casamento era isso: manter o amor vivo em meio a todas as mortes que existiam.

A união era semelhante a uma guerra com várias batalhas e era necessário lutar para vencer uma a uma, dia após dia, para que não fossem derrotados. Mas valia a pena, porque a medalha de honra era colocada no peito de ambos ano após ano, na mesma data e, naquele dia, eles percebiam o tamanho da vitória e agradeciam ao grande general que ia a frente de cada batalha.

Aprenderam também que o amor não é um conto de fadas, não é um drama de Shakespeare ou uma música da Whitney Houston. O amor é a aceitação mútua. É a disposição de abraçar o defeito do outro, beijar cada qualidade e em meio a esse entrelaçar de seres perceber que o humano é isso: um amontoado de erros e acertos longe da perfeição utópica que tantos acreditam ser real.
E, hoje, eles se deliciam com a realidade que suas atitudes arquitetaram no decorrer dos anos.

Ele, com quarenta e três, resolveu aceitar que sua alma tem dezesseis. Ela, com quarenta e seis, não honra a data que carrega no rg. E prosseguem assim: eternos adolescentes que se recusam a envelhecer.
Eles com vinte e seis anos de história riem de cada memória que o tempo modelou. Olham um para o outro e se desafiam a permanecer juntos até serem vovó e vovô.

Hoje, em um mundo de amores passageiros, simplesmente agradecem por serem exceção. E carregam a certeza que a aliança não foi colocada só no dedo - foi tatuada no coração.

                                                                                                                 

Um comentário:

Anônimo disse...

Congratulo-a pelo belo texto. Texto sobre o amor e sua essência, mas também sobre saber que o amor e a doença humana, que amor nunca caberá e nenhum lugar que não sejam nossas ilusões. Mas que acima de tudo o amor deve sempre ser apenas presente, pois "Quando pronuncio a palavra futuro, a primeira sílaba já pertence ao passado"

Obrigado,

Kauan G.B.