terça-feira, 7 de abril de 2015

Das quietudes que inquietam – Por Betina Pilch



"Quando o medico apoiou o estetoscópio sobre o meu peito, 
ele ouviu um grito."

Minha boca continuava mexendo, falando apenas o necessário, enquanto minha mente se fazia de morta para não ter que perder tempo de vida tentando explicar - ou somente expressar - aquilo que ninguém queria saber ou escutar. O meu coração estava prestes a ser enterrado vivo junto com as palavras que guardou para não se aborrecer. Afinal, tudo que é dito corre o risco de ser respondido e, às vezes, as coisas são ditas apenas por dizer. Dizer, talvez, apenas para si. Então, parei com essa mania de falar comigo em voz alta enquanto uma plateia se faz presente. Mantive o diálogo silencioso entre eu e a minha mente.
Simplesmente me calei pro mundo e, com o tempo, esqueci de não me calar pra mim. Então adoeci.
Sim, um coração alimentado com silêncios adoece, porque sofre de saudade das palavras que morreram sufocadas ao serem inibidas dentro de uma mente que cansou de desenhar linhas onde pudesse se expressar. E quando não se sabe o que dizer, mesmo tendo muitas coisas a serem ditas, cala-se. Mas cala-se sem emudecer... A voz esvazia as palavras e verborragia sem atopetar de sentido aquilo que foi dito. Um calar-se de palavras profundas. Um dizer calado de palavras rasas. E, calando, se conjura a abertura para aquele que apazígua, mas também sabe concitar. O silêncio entra e não sai.
Porque o silêncio não é a ausência de palavras, o silêncio é a alma dizendo que não quer mais falar. E quando a alma diz isso, não importa quantas palavras a boca fale, todo o ser é condenado e, como pena, é obrigado a se calar, tendo direito apenas a permanecer calado na presença ou na ausência de um advogado.
Minha alma, por puro cansaço, preferiu se condenar a prisão do que ir a julgamento. A liberdade do mundo é pior do que qualquer grade ou jaula com um carcereiro. Voar por aí com os pesos da tal liberdade nas asas? Não, muito obrigada. Realmente prefiro ficar aqui, sozinha e calada.
Porque não há nada que me faça sentir livre se minhas palavras são filtradas de acordo com aquilo que interessa para quem, por pura arrogância, se dispôs a escutá-las. Ninguém quer ouvir para se preencher. Todos querem ouvir para, logo em seguida, se esvaziar. E, enquanto o mundo optar por usar o que o outro diz apenas como subterfúgio para vomitar, eu prefiro ficar condenada a mim até que realmente queiram se alimentar.
Não nasci com paciência para vagas ladainhas e minha alma, por pura birra, apenas não admite que lhe tirem a poesia, quase extinta, que poucos ainda ousam enxergar na vida.