domingo, 13 de julho de 2014

(C)or-do-sol – Por Betina Pilch

Aquele seu riso exibido de erro percebido me fez sorrir deliciosamente. Você tem esse dom de me encantar, enquanto canta com a aquela pose de moço sedutor e olhar envolvente. Mas eu realmente gosto quando sua pose despenca e o que resta é aquele simples menino oculto em sua essência. A complexidade transforma a brisa em vendaval, a garoa em tempestade, a calmaria em tormento. Já a simplicidade torna tudo mais leve e suave. Então, quando você errou aquela simples nota e sorriu, eu queria aplaudir seu riso em pé, porque – de fato – sua alma sendo exposta através daquela expressão risonha tinha sido a melhor parte do seu show teatral. E tudo isso justo naquela noite!
Aquela noite que chegou após uma tarde linda e cheia de melancolia. É, eu tenho essa mania de misturar todos os tipos de sentimentos em um único dia. Mas aquele dia… Ah! Era um daqueles dias em que não namorar o céu parecia um tremendo absurdo. Meus olhos beijavam cada cor celeste e me faziam sentir a delícia de degustar aquelas cores que devastavam o cinza. Admirando a imensidão, eu via o sol rasgando e queimando o horizonte, para dizer adeus à tarde e dar lugar à noite.
Ah! O Sol… Sempre tão humilde, eu pensava comigo. E, enquanto ouvia o adeus, meus olhos, que antes beijavam o céu, agora – taciturnos – olhavam pro sol, porque sabiam que os sabores das cores iriam se pôr junto à luz ofuscante. As cores estavam indo embora e eu, na minha ignorância, achava que a poesia também, mas logo fui beijada por um milhão de rimas. Caiu a noite e a pose dele despencou. Isso me fez pensar em como algumas quedas podem ser incrivelmente bonitas. Eu, que vivo caindo em pranto, despencando dos sonhos, levando tombos, nunca tinha percebido a beleza de uma queda. Justo eu, que coleciono garoas, cascatas e cachoeiras de lágrimas, nunca havia notado que toda queda ou gera sentimentos ou é gerada por eles – e eu nunca gostei de cair. Nunca gostei do roxo que as quedas deixavam.
Ah! As cores que me perdoem. Eu reclamava do cinza e, quando era colorida com tons de roxo, ficava brava. Quando as cores eram obrigadas a se pôr com o sol, eu me entristecia. Ah, menina indecisa! Mas o fato é que as cores do céu no final da tarde eram minha anestesia. Meu artifício inventado para fugir da vida. E, toda vez que o sol ia embora e levava consigo sua caixinha de lápis de cor, eu olhava para mim e lembrava que eu não passava de um contorno em preto e branco. E, quando a noite caiu e eu vi que ele sorriu, descobri nele o arco-íris que sempre almejei – e apenas desejei que, um dia, quem sabe – num final de tarde –, ele refletisse em mim.
                                                                                       
(Texto publicado originalmente no blog Retratos da Alma:

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