sábado, 19 de julho de 2014

Sonhos no frio de um inverno – Por Betina Pilch


"Por favor, não me deixe ir, porque, se eu for, temo nunca mais voltar." - eu dizia desesperadamente olhando em seus olhos que transbordavam medo.
Era noite de lua cheia, uma noite incrivelmente clara e estávamos em um lugar sombrio indecifrável. Você segurava uma vela vermelha enquanto muitos incensos eram acesos e no meio desse cenário eu me sentia completamente perdida e fraca. Enquanto eu aparentava fragilidade, você agia com bravura, estava destemido, como se tudo aquilo fosse natural. Mas quando minhas energias foram sugadas e eu estava prestes a cair, sua postura mudou completamente. Eu pronunciava aquelas palavras em tom de súplica e via seu olhar sendo tomado pelo sentimento de impotência, era como se você não pudesse me livrar do que estava acontecendo - talvez eu estivesse sendo condenada por mim mesma e nesse caso só eu poderia me salvar, não sei. O fato é que eu sentia a morte me atraindo para perto dela e seu rosto, de repente, nada mais era do que um doce borrão. Eu já estava me entregando às sombras que dilaceravam a luz quando, de súbito, senti um sopro de vida me resgatar - era você me abraçando fortemente pela cintura e sussurrando em meu ouvido que não ia me deixar. Nunca deixaria - você enfatizou por três vezes consecutivas. E, incrivelmente, isso não me surpreendeu. Era como se eu já soubesse que isso ia acontecer. Dentro de mim eu possuía a certeza de que você me resgataria dos braços da escuridão e faria eu retornar à luz que sempre pertenci.
Vida e morte. Luz e trevas. Coragem e medo. 
Você iluminou minha vida e corajosamente me livrou da condenação. Consigo lembrar nitidamente de como você me fez sentir segura enquanto sustentava toda a minha fraqueza em seu corpo forte e trêmulo e, mesmo fraca, tudo que eu queria era te deixar ciente da minha gratidão.
Eu estava completamente debilitada quando você me deitou sobre um banco de madeira e acomodou minhas pernas em seu colo. Você olhava para mim com seus olhos cheios de preocupação e me dava um sorriso cheio de tranquilidade - e esse foi o momento em que mais amei suas contradições. Mesmo sem proferir nenhuma palavra, eu sabia que você estava ali para cuidar de mim e, como se estivesse lendo meus pensamentos, você ousou dizer "para sempre".
Sua aura não estava mais cinza, encoberta por nuvens e névoa que me impediam de te decifrar. Sua aura estava verde, forte, se atrevendo a mostrar sua completude em meio a toda essa confusão.
E então eu acordei. Acordei com meu coração repleto de paz, porque, de certa forma, nossas almas se encontraram essa noite. E você me salvou. Me salvou de mim mesma e dos meus vazios mais uma vez.
                                                                                                           
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