quarta-feira, 9 de julho de 2014

Reminiscência – Por Betina Pilch


Quando eu era pequena gostava de ficar em silêncio para prestar atenção nas batidas do meu coração. Eu imaginava que meu coração era um quarto com um cubinho dentro que ficava batendo nas paredes. Naquela época eu não imaginava nenhum hóspede dentro dele. Pra falar a verdade, nas minhas imaginações de criança, o tal quarto era cinza e vazio, talvez suas janelas refletissem um dia nublado e por isso a iluminação que eu via era tão sombria, mas o fato é que aquele cômodo que eu chamava de coração só tinha um cubinho que ficava se debatendo nas paredes - e eu sentia cada impacto no meu peito em um compasso regular.
Hoje eu resolvi ir até esse quarto, fiquei olhando pra ele um bom tempo e senti medo. Se eu tivesse que passar o resto da minha vida num lugar como aquele eu não suportaria.
Senti saudade de mim - acho que sou minha maior falta.
Quando eu era criança não tinha medo daquele quarto, meu sonho era conseguir sentar naquele cubinho enquanto ele se jogava de um lado pro outro. Eu não tinha medo da solidão. Eu era minha melhor companhia. Mas hoje, por mais louca que eu seja, não acho que mereço uma solitária - eu não me suportaria. É, é isso. Aquele quarto parecia uma solitária e, talvez, isso explique todas as esquizofrenias do meu coração.
Nunca entendi o que eu sinto, até porque nunca achei certo transformar os sentimentos em conceitos a serem explicados. Prefiro viver sentindo do que viver com sentido e talvez seja por isso que sempre vivi perdida num mar de confusão. 
Às vezes eu me enchia de nada e logo transbordava os vazios para me livrar dos ecos da solidão. Mas quando tentava me preencher novamente me perdia num labirinto de dúvidas que me deixava sem direção.
Sempre evitei ficar vazia, porque meu coração não gosta de ficar sozinho e tem medo do escuro, por isso ele vive buscando por sentimentos que possam colorir e iluminar tudo aquilo que escurece e acinzenta. Meu coração sempre foi um grande artista. Quando não encontrava cores, ele mesmo pintava as suas paredes com as fantasias que criava - e aí ele era pintor. Quando não encontrava iluminação, ele imaginava a luz e dessa luz sempre nascia poesia - e aí ele era poeta. Quando ele precisava de provas concretas de que algum momento de felicidade existiu, ele vasculhava o passado até achar - e aí ele era um arqueólogo de sentimentos. E nessas buscas incansáveis por luzes e cores e sentimentos ele encontrou você - e aí ele se tornou um grande astrônomo. Porque eu tenho certeza que ele te buscou no céu e trouxe pra mim.
E agora que te encontrei, retorno àquele quarto que imaginava quando era criança e dentro do cubinho que bate contra a parede eu vejo você. Te vejo com toda a luz que você nem imagina que tem e me ilumino por inteiro.
E toda essa luz me faz lembrar das suas fases lunáticas, do seu anoitecer sombrio, dos seus cacos que ferem, da sua mente perdida, e da sua complexidade que sempre se dissolve num sorriso. E então sorrio, porque o menino que você é, de certa forma, acaba de se encontrar com a menininha que eu fui.
Talvez você desperte o que tenho de melhor em mim e a menininha feliz que eu fui um dia resolveu acordar e mexer nas minhas memórias mais bonitas até eu notá-las, porque sabia que nessas memórias eu te encontraria.
E após escrever tudo isso me sinto anestesiada. Não sinto meu corpo direito, talvez ele tenha silenciado pra deixar a alma falar.
Toda vez que mergulho em mim, me afogo - me afogo na imensidão de sentimentos que você gerou em mim e desejo te inundar.
Meu coração de menina encontrou o menino que você esconde dentro de si e eles resolveram se afogar. Só espero que você ouça os gritos deles logo e resolva transbordar para, enfim, me encontrar.
                                                                                                            
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